O antigo locutor Luís Montez, que decidiu abrir uma emissora dedicada à banda sonora de Lisboa, a Rádio Amália. Foto: Rita Ansone.

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A história é resgatada em tom de parábola por Luís Montez, observado de perto por uma atenta Amália Rodrigues, retratada na imensa tela que decora a receção da rádio lisboeta que ostenta o nome da fadista:

“Quando decidi abrir uma rádio cem por cento dedicada ao fado havia o preconceito de que os ouvintes de fado eram velhinhos sem poder de consumo. Na primeira agência de publicidade que visitei, o diretor recebeu-me dizendo que era uma boa ideia, sim, mas para anunciar agências funerárias”, relembra Montez.

Na imensa tela, a fadista parece ironicamente sorrir.

Luís Montez, observado pela mais famosa fadista de Portugal e que empresta ao nome à rádio dedicada ao fado. Foto: Rita Ansone.

Afinal, desde 2009, a Rádio Amália vem quebrando preconceito atrás de preconceito e, ao contrário do que sugeria a precipitada avaliação do publicitário, se a emissora pode ser associada a algo é à vida, à vitalidade do fado, admirado não apenas por ouvintes de cabelos prateados, mas por jovens lisboetas de todas as idades.

Uma ideia que na cabeça do seu criador parecia mais do que óbvia. “Se nos Estados Unidos há rádios que só tocam country ou jazz, e no Brasil outras que vivem da MPB (Música Popular Brasileira), por que em Portugal não haveria de ter uma rádio exclusivamente a tocar fado?”, questiona, em tom de explicação.

O mérito da emissora tem sido retirar o fado do severo pedestal de instituição, devolvendo-o às ruas, onde nasceu e cresceu como a banda sonora de Lisboa.

O termómetro de uma cidade que canta seus encantos e desencantos, que sente saudades, que celebra a chegada de um amor e sofre com a sua partida.

E a Rádio Amália tem mantido as portas sempre aberta às novas vozes que ecoam nas casas de fado e tascas de Lisboa.

E o publicitário que recebeu a ideia de uma rádio dedicada ao fado como um bom negócio para anunciar agências funerárias, Montez voltou a falar com ele?

“Não tive tempo”, responde, para em seguida completar: “Ele foi demitido um pouco depois”.

Rádio, a praia de Luís Montez

A história de Luís Montez com o rádio começou em 1987, como locutor da rádio Comercial. Trinta e cinco anos separam o jovem que então com 18 anos pronunciava as primeiras palavras diante do microfone do experiente empresário cujo nome hoje é indissociável do cenário radiofónico português.

A carreira de locutor transitou ainda pelas rádios XFM, Antena 3 e Cidade antes de aos poucos migrar do estúdio para o escritório, um passo natural após Luís Montez enveredar pelo ramo da produção e promoção de espetáculos e festivais de música, através da empresa que criou, a Música no Coração.

“Aquilo começou a dar dinheiro e percebi que era o momento certo de abrir a minha própria estação de rádio”, sintetiza o empresário. Nascia a rádio Marginal, dedicada ao rock e ao pop, emissora onde até hoje Luís Montez se senta ao microfone, na rubrica diária om o sugestivo nome de A minha praia.

A praia de Montez é embalada por nomes do passado e do presente, em spots de curta duração que através de sugestões musicais abordam temas ecléticos, como os jacarandás de Lisboa, na voz de Ana Moura, ou os velhos hits de Natal requentados no novo álbum dos Backstreet Boys.

A praia de Montez, porém, também tem sido abrir rádios. Depois da Marginal, veio a SBSR FM – acrónimo de Suber Bocker Super Rock, festival promovido por ele – e a Rádio Amália. Emissoras que dividem os andares de um prédio comercial em Picoas.

A rádio dedicada ao fado ocupa parte do terceiro andar, com três estúdios e uma redação decorada com imagens de Amália Rodrigues – a fadista cujas músicas tocam de meia em meia hora. Além da fadista, manter o fado a pulsar nas veias de Lisboa requer ainda a presença de 10 funcionários, entre jornalistas, radialistas e técnicos.

Mais que uma rádio, uma companhia

O letreiro luminoso acende a anunciar que a Rádio Amália está mais uma vez “no ar”. No microfone, o radialista com a voz grave de barítono elenca um fado atrás do outro, no programa de maior audiência da casa, o Senhor Fado, ouvido não só em Lisboa, mas também por lisboetas dos quatro cantos do mundo.

“É o fenómeno da saudade”, resume Luís Montez, que explica que a emissora é ouvida em peso em Luxemburgo, em França, no Canadá e em outros destinos da imigração portuguesa. “Todos os dias, chegam de fora dezenas de pedidos para tocar um fado, enviados por e-mail e outras vias digitais, ou ainda durante a própria emissão, quando a linha é aberta para a participação do ouvinte”, conta, desmitificando a fama de a Rádio Amália ser popular apenas nos rádios dos táxis de Lisboa.

“É verdade que a rádio é bastante popular entre os taxistas, mas não só. A Amália desempenha um papel importante ao lado dos lisboetas”, continua Luís Montez, num exercício sociológico fundamentado pelos números que apontam o tempo de médio de audiência dos ouvintes em impressionantes 4 horas e 20 minutos diários.

“Há milhares de lisboetas que vivem sós e o rádio acaba por cumprir a função de companhia, sempre ligado enquanto o ouvinte trabalha, faz os serviços da casa ou cozinha. Mais do que uma rádio, a Amália é uma companhia”, reforça Luís Montez.

De portas abertas às novas vozes do fado

Essa companhia dos lisboetas leva a casa dos ouvintes os tradicionais e também novos fados. “Tentamos manter uma proporção na emissão. Para casa dois fados antigos, um recente”, explica Montez.

A estratégia divide-se na constante busca de novas vozes, que encontram as portas da rádio sempre abertas.

Luís Montez mantém o faro atento às novas vozes, garimpadas em casas do fado ou nos eventos promovidos pela rádio. Foto: Rita Ansone.

“Todos aqui gostam de fado, inclusive eu, que ouço bastante. Então, quando estamos numa casa de fado e ouvimos uma voz interessante, fazemos com que ela cante na rádio”, explica. Uma das possibilidades é o programa semanal Estrela da Tarde, que às quartas-feiras recebe um fadista para cantar no estúdio da Amália.

“É como no rádio de antigamente, dos anos 1950 e 60, quando os artistas cantavam nos estúdios das rádios.” Na rubrica inspirada no famoso fado cantado por Carlos do Carmo, um fadista acompanhado pelo seu conjunto tem uma hora de antena para soltar a sua voz e ser entrevistado nos microfones da rádio.

Outra alternativa é ouvir os fadistas em ação diante do público. Assim como a SBSR tem um festival para chamar de seu, a Rádio Amália também conta com um evento anual, produzido pela Música do Coração, o Santa Casa Alfama. A edição deste ano levou 50 artistas ao bairro berço do fado, em dois dias de programação.

Nesse constante diálogo entre o passado e o presente, da Rádio Amália abre agora os microfones à Mensagem de Lisboa, numa iniciativa que leva aos ouvintes da emissora as histórias contadas pelos seus repórteres, na rubrica diária Lisboa em 2 minutos, no encontro de quem canta Lisboa com quem conta Lisboa.

Na imensa tela, Amália novamente parece sorrir.

Histórias que, assim como no as letras cantadas no fado, também retratam uma Lisboa em constante ebulição e transformação.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 50 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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