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As vidas de Teresinha Landeiro, José Geadas, Gaspar Varela, Carolina Milhanas, Afonso Albuquerque e Francisco Guimarães cruzaram-se no fado. Através dele tornaram-se amigos. Além do gosto pelo fado, os seis têm em comum a idade: são jovens e boémios.

Os primeiros três fazem do fado vida, Milhanas e Afonso são de outros estilos musicais, mas encontram no fado um amparo musical, um propósito. Francisco não vem da música, mas frequenta casas de fado, escreve letras para fadistas e até organiza tertúlias musicais em casa dele.

São vários os dias – ou noites, melhor dizendo – por semana que estes jovens percorrem Alfama, o berço e ninho do fado. Percorrem as capelinhas – literalmente, como na Mesa de Frades, que é uma antiga capela, ou a Bela, e por vezes acabam no Tejo Bar, onde a música é fruto de sons vindos de várias geografias. Algumas vezes atravessam a cidade e vão até ao Fado ao Carmo, no Chiado.

Foto: Inês Leote
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Naquela noite, foi Geadas que iluminou a Bela assim.

O fado une-os e é tema das conversas, deste grupo que mostra que o Bairro Alto ou Santos não são os único destinos para sair à noite. E que o fado não é para velhos.

“O fado nunca foi uma música para velhos”

Se estes seis amigos provam que o fado é para todas as idades, a verdade é que o cliché de que o fado é só para velhos ainda resiste, apesar de ter vindo a perder força graças às novas vozes que têm surgido. 

Além disso, as plateias e fado estão cada vez mais ecléticas: diferentes todos os dias, o público faz-se de novos, velhos, turistas, lisboetas, músicos ou desportistas, de que são exemplo o surfista João Kopke (que também é músico) ou o futebolista Bernardo Silva.

Teresinha Landeiro tem 25 anos, é uma das novas vozes do fado e lembra que no início do seu percurso “não havia muitos miúdos”.

Com o tempo, foi aparecendo mais juventude. “Eu comecei a levar os meus amigos e eles levavam os amigos deles e, depois, quando já não precisávamos que os nossos pais nos levassem, as casas de fado começaram a ser um local de encontro e é bom ver que uma música que muitos consideram envelhecida e triste, afinal não é e chega a imensa gente nova que entende este estilo de música”, diz a fadista.  

Gaspar Varela, que toca guitarra portuguesa, lembra que quando começou a tocar não havia crianças nas casas de fado e que era gozado na escola, “porque não era comum”.  

“O fado nunca foi uma música para velhos”, contrapõe Rodrigo Costa Félix, fadista, co-proprietário do restaurante Fado ao Carmo e cronista da Mensagem.

“A ideia de ser uma música para velhos vem do facto de após o 25 de abril se ter criado um preconceito em relação ao fado”, uma vez que este estilo musical estava associado ao Estado Novo. “Houve toda uma geração pós 25 de abril, que ouviu dos pais a ideia de que o fado era uma música que devia desaparecer e criou-se uma décalage de duas ou três gerações que não ouviam fado. Daí que quem ouvia fado eram as pessoas mais velhas”.

Rodrigo Costa Félix e o guitarrista Luis Guerreiro, os donos do Fado ao Carmo. Foto: Inês Leote

Nos anos 1990 apareceu uma nova geração que começou a cantar fado. “Apareceu a Mariza, a Kátia Guerreiro e a Ana Moura e isso também fez que depois mais gente começasse a ouvir fado e, por consequência, também pessoas de outros géneros musicais começassem a ouvir e a cantar”, diz Rodrigo. 

“O fado sempre atravessou gerações”, afirma Rodrigo Costa Félix, e José Geadas, 28 anos, é um bom exemplo disso. Natural do concelho de Borba, o músico que toca e canta começou a ouvir fado desde pequeno por influência da bisavó.

“A minha bisavó ficava comigo durante a tarde quando os meus pais estavam a trabalhar e ela tinha um gira-discos que estava sempre a tocar fado. Desde muito pequeno, ela também me cantava fados como músicas de embalar.” De tanto ouvir fado, José Geadas mudou-se para Lisboa para fazer do fado vida. 

José Geadas adormecia a ouvir fado em criança, cantado pela bisavó, Hoje, percorre o país a cantar e a tocar com outros artistas. Foto: Inês Leote

Claro que o fado também é assunto de família, e há casos em que corre no sangue. Rodrigo Rebello de Andrade é um deles. A mãe cantava e os pais organizavam tertúlias musicais. Numa delas, a mãe estava grávida e teve de parar a atuação porque “lhe rebentaram as águas”.

“O meu destino ficou logo traçado”, brinca o fadista que é irmão de Carminho. 

Rodrigo Rebello De Andrade é “fadista desde que nasceu”. Numa tertúlia musical organizada pelos pais, a mãe teve de parar a atuação porque “lhe rebentaram as águas”. Foto: Inês Leote

O fado parece estar na genética de Gaspar Varela. Bisneto de Celeste Rodrigues e sobrinho bisneto de Amália Rodrigues, o jovem de 18 anos reconhece que carrega um peso no nome, mas isso não o impede de reinventar um instrumento típico do fado, porque, como faz questão de dizer, “a guitarra portuguesa não serve só para o fado”.

Gaspar quer dar a sua forma a este instrumento que “pode ser solista de várias maneiras”. Levando a guitarra para uma pista de efeitos ou usando um delay , o músico quer “explorar ao máximo este instrumento” com a banda da qual faz parte – os Expresso Transatlântico

Gaspar tocou com Madonna e foi até convidado da sua tourné mundial, interrompida com a Covid.

O fado como fonte de inspiração para outras sonoridades

No fundo, Gaspar inspira-se no fado e dá asas à criatividade para criar uma identidade própria. E isto é uma tendência que se tem verificado nos últimos anos.

“Vemos pessoas não só de novas gerações mas também de outros géneros musicais como a pop, o rock e o jazz que vêm beber ao fado muito daquilo que nós temos para oferecer que é a intensidade, a emoção, a genuinidade, a autenticidade e a tradição”, diz Rodrigo Costa Félix. 

Músicos e amigos encontram-se nas ruas de Alfama depois de cantarem nas “suas” casas. A paragem seguinte é sempre imprevisível, sabe-se apenas que se cantará o fado. Fotos: Inês Leote

Tendo o fado como fonte de inspiração, o Fado ao Carmo é muitas vezes um “ponto de encontro entre vários géneros musicais”, refere Luís Guerreiro, músico e sócio de Costa Félix.

“De vez em quando, vem o Agir, pega na viola e canta e já nem nos pede, porque sente-se à vontade para isso. Ouvi-los cantar e tocar, comove-nos muito”, completa Rodrigo, sublinhando que era impensável acontecer isto no passado.

Esta mistura de sonoridades é também muito vivida no Tejo Bar. Não sendo uma casa de fados, acolhe também fadistas e outros músicos que, vindos de estilos e geografias diferentes, fazem da música o elemento comum. No espaço pequeno e onde é difícil arranjar lugar, a decoração faz-se de caçadores de sonhos, de quadros e de instrumentos musicais. 

No centro do espaço, local rei para o improviso, juntam-se vários músicos que tocam guitarra, ukulele, saxofone, violino, cavaquinho e piano. Tudo isto faz que o que se ouve seja um cruzamento de sonoridades: desde mornas ao tango e até ao fado.  Estas noites, à semelhança das passadas nas casas de fado, “são inesperadas e podem virar loucura”, diz Francisco Guimarães, o jovem “boémio”, como se intitula, que adora música e organiza encontros musicais em casa. 

No final de cada atuação no Tejo Bar, quem está na plateia não bate palmas. Com muitas queixas dos vizinhos devido ao barulho, o público aplaude esfregando as mãos. 

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A mistura de sonoridades no Tejo Bar.

Afonso Albuquerque é um dos mais assíduos. Toca viola e cavaquinho e, “por convívio”, toca às vezes em casas de fado. “Onde há músicos há música. É normal encontrarmo-nos, convidamos pessoas dos vários mundos musicais, cada um tem o seu estilo e gostamos de cruzar os nossos estilos. Por exemplo, experimentamos tocar uma morna e peço a alguém que toca guitarra portuguesa (um instrumento do fado) e que não conhece o estilo que se junte à música”, conta. 

Milhanas tambémnão é fadista, mas no fado que encontra um propósito. Filha de pai músico, a jovem de 20 anos viveu sempre no meio da música, mas só quando o seu manager a levou a casas de fado é que percebeu que “sempre” precisou do fado. “Mas não sabia”, sorri. 

Por ouvir tanto fado, admite que as suas canções tenham, de forma inconsciente, influência deste. No entanto, não ambiciona ser fadista. “Sinto genuinamente que fui feita para ouvir fado e não para o cantar. Se eu o cantasse, não traria nada de novo, não ia ter nada para dizer que ainda não tenha sido dito e se não for para trazer nada de novo, prefiro estar calada.”

Mas foi no fado que encontrou a resposta para a sensibilidade que sempre sentiu e as pessoas certas que também sentem o mesmo. Viu-se “envolvida num meio onde toda a gente é muito sensível às coisas, não só musicalmente, e isso é lindo”, explica. 

A combinação entre o silêncio, a palavra e a emoção tornam o fado especial

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Francisco Guimarães não é músico, mas é amante de música, de fado e de Lisboa e a fala da beleza do fado e do silêncio na cidade.

O fado fala de emoções, mas os outros estilos musicais também. Aliás, a música pode ser uma catarse para as expressar. Mas, então, o que torna o fado tão único? São necessários três ingredientes para a magia acontecer: a palavra, o silêncio e a emoção.

“A coisa mais importante no fado antes da melodia é a palavra”, diz Teresinha Landeiro. Se noutros estilos musicais a melodia ou o ritmo têm mais preponderância, no fado “a palavra veste a melodia, vive-se em torno da palavra e escolhemos as melodias para cantar de acordo com a palavra”.

Atrás das “portinhas” das casas de fado em Alfama e no Chiado, há o silêncio que faz a beleza acontecer. Foto: Inês Leote

Por esta razão, o músico José Geadas sente orgulho em ser fadista, já que o fado “é das canções que mais respeita a palavra, não é só a melodia que conta”. Aliás, “a melodia é escrita consoante a métrica da palavra”, diz. Por isto, considera que o fado “é a representação da língua portuguesa e serve a melodia e a poesia”. No fundo, “a palavra é quem manda no fado”, resume Teresinha.  

E se a palavra é para ser respeitada e cantada com cuidado, o silêncio merece igual atenção. “O silêncio é obrigatório”, explica Milhanas que encontra nele uma prova de empatia. “Fala-se do silêncio como algo banal, mas ali [nas casas de fado] ele acontece, nem é pedido. E o silêncio é uma prova de empatia, porque o facto de as pessoas se calarem para ouvir alguém, é um sinal de empatia e de sensibilidade”.

Há uma “ligação triangular entre quem toca, quem canta e quem faz silêncio para ouvir”, explica Rodrigo Costa Félix, vendo nesta relação uma das magias do fado que só se concretiza na sua plenitude nas casas de fado, já que “é mais difícil num grande palco acontecer esse tipo de proximidade”. 

A intimidade transmitida no fado mistura-se com a própria vida de quem o canta. Milhanas encontra no fado o “peso da vida”. A seriedade com que as letras são pronunciadas trazem talvez uma solenidade a este estilo musical que não existe noutras sonoridades. 

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Excerto de um fado cantado pela Teresinha Landeiro.
“Teríamos de levar os lisboetas, o rio, as colinas, o castelo, os fadistas e as casas de fado” se quisessemos fazer fado noutro lugar, resume Luís Guerreiro. Foto: Inês Leote

“O fado é especial pela densidade das letras, são momentos sérios para nós, é quase religioso e transcende-nos”, descreve Luís Guerreiro. Por isto e pela emoção com que o fadista canta, o fado é muitas vezes associado às tristezas da vida. Mas, “o fado não é necessariamente triste. A tristeza, melancolia e nostalgia têm que ver com aquilo que se convencionou ser a imagem dos fadistas que costumavam vestir-se de preto”, justifica Costa Félix.

Teresinha Landeiro vê na forma como se olha para a vida a razão pela qual este estilo musical tem uma carga negativa forte. “O fado é sobre a vida e sentimentos e nós, tendencialmente, focamo-nos mais no que nos deixa tristes, portanto, transportamos isso para o fado.”

Desta forma, as letras acabam por ser mais “fatalistas e pessimistas”. No fundo, é como escreveu a poeta Maria Manuel Cid, o fado não é só saudade, miséria e dor, é “o sentir do cantador”. 

Falar de fado é falar de tradição e emoção. Mas é também, indiscutivelmente, falar de Lisboa. Seria possível o fado existir da mesma maneira noutra geografia? “Teríamos de levar os lisboetas, o rio, as colinas, o castelo, os fadistas e as casas de fado”, resume Luís Guerreiro. 


* Daniela Oliveira nasceu no Porto, há 22 anos, mas a vontade de viver em Lisboa falou mais alto e há um ano mudou-se para a capital. Descobrir Lisboa e contar as suas histórias sempre foi um sonho. Estuda Ciências da Comunicação na Católica e está a fazer um estágio na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.

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