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Foram dois dias com Alfama a fazer o que faz todos os dias, cantar fado. Mas desta feita cantou-se fado de uma outra maneira, ou talvez se tenha cantado da mesma maneira de sempre, ainda que ouvido de uma outra forma. Fica sempre esta questão de onde está verdade, em mim que te olho a ti ou em ti que me olhas a mim?

Jorge Fernando da Silva Nunes nasceu em 1957, em Lisboa. Figura charneira na história do fado e da música popular portuguesa, Jorge Fernando, para além de cantor, compositor, letrista e intérprete é também um proeminente guitarrista de fado que inscreveu, para sempre, no seu percurso musical o facto de ter tocado com Amália Rodrigues e Fernando Maurício, entre outros. Alguns menos importantes do que ele, mas ele também só pediu para ser do fado.

Na 10.ª edição do festival de fado Santa Casa Alfama as ruas encheram-se de jovens e seniores nos largos, junto às igrejas, à beira-rio para ouvir, sentir e partilhar essa estranha forma de vida. Da noite sai uma toada transformada, fugindo das quatro paredes das casas de fado, deixando para trás as boémias tabernas, onde é cantado, para se exibir em espaços maiores, com projetores, colunas de som, designers de luz, engenheiros de som, riggers, produtores, assessores de imprensa, designers gráficos, gestores de redes sociais, de imagem, stylists, agentes de artistas, de espetáculos e um cem número de profissionais que vendem o sonho da música show business, com o show e o business levados à exaustação do comercial, do capital e tão raras vezes da simples criação artística.

Não tenhamos ilusões, se Maria Teresa de Noronha estivesse em Alfama naquelas duas noites, dificilmente se reconheceria ou reconheceria quem quer que fosse no vai e vem de gente a atravessar a rua, de cá para lá, de croqui na mão a escolher, como numa ementa do McDonalds, qual o hambúrguer que se segue, num frenesim de quem quer ir às capelas todas, como se num circo montado e uma mostra de variedades.

Jorge Fernando avisou que tudo muda na vida e também ele mudou. Se a gosto ou a contragosto só ele, pela calada da noite, saberá o que trai para ser fiel. Sem o fato, a camisa e os sapatos pretos, Jorge Fernando sobe a um palco onde perde de vista a feição das pessoas, as cabeças vergadas umas vezes com a mão no queixo outras vezes com mão a esconder a testa, a secar uma lágrima perdida na maçã do rosto, de olhos fechados e face vencida. Ali, àquela hora, já não se avistava nada disso e, por isso, Jorge Fernando apresentou-se de ténis, saltitando pelo palco e falando com os músicos, tantas vezes sem guitarra, pondo fim ao compromisso noturno de atuar sentado, sério, consternado.

Sem que haja silêncio, Jorge Fernando canta o fado.

Fotos: Rita Ansone.

Com licença para começar primeiro, Custódio Castelo, nome incontornável da arte da guitarra portuguesa, inicia o “Quebrando” logo seguido das cordas com António Barbosa no violino, Davide Zaccaria no violoncelo, Jorge Nunes na viola e Kapa de Freitas na viola baixo. Primeiro boa noite ao público, segundo “Boa noite solidão”, um fado original de Carlos Maia com letra de Jorge Fernando, tantas vezes interpretado por Fernando Maurício.

Com um público que lhe é fiel e Ivo Martins na bateria, mergulha no “Mar cruel”, mais um fado com letra e música da sua autoria que Fernando Maurício adotou e que o público não esquece; nem os temas nem Jorge Fernando que por mais que o mundo mude para o público é sempre o mesmo.

Depois de “Pois sim” vêm-lhe as memórias das viagens de Lisboa ao Barreiro e em tom de retrospetiva fala do fado, dos fadistas de outras viagens; dos que acompanhou, dos que sonhou que o acompanhassem. Como aqueles, ao seu lado ainda que atrás de si em palco. Sonho realizado e lá vai ele “Rumo ao sul”.

A noite faz-se mais fria e o público cobre-se de lenços, “o tempo gasta o tempo e marca a gente” que o segue e o aplaude entusiasta no fim da “Valsa dos Amantes”. E continua por aí fora com temas conhecidos por quem o espera e por quem o acompanha. “De mim para mim” e “Barquito Corsel” até chegar ao fado “Trigueirinha”, a lembrar outros fados de Coimbra, cantados ao desafio com letra de António Vilar da Costa e música de Arlindo Carvalho, para depois homenagear Amália Rodrigues com “Lágrima”, uma composição da própria Amália Rodrigues com Carlos Gonçalves que a consagrou definitivamente como figura maior do fado e figura incontornável do cancioneiro da música popular portuguesa.

Poder ser saudade”, “Chuva”, “Quem vai ao fado” e o público a apoiá-lo sempre, indiferente a se está mais moderno ou se continua um clássico, sem procurá-lo nas vielas e a achá-lo naquele grande palco montado, com cadeiras em filas que se perdem de vista, gente que bate palmas e não fala baixinho, num festival. Sim, num festival de fado! Acredite-se ou não, mas quem canta o fado também já bate palminhas.

E se o fado é do povo, o povo é popular. Por tal, não faltou o “Umbadá” festivaleiro, o agradecimento a Luis Montez no fim de mais uma atuação sem nunca perder a classe, mesmo que cantada assim, de uma outra maneira ou talvez da mesma maneira de sempre, pois que afinal “Mais vale cantar do que chorar/ Quem vai ao fado meu amor/ Quem vai ao fado”.


* Ulika da Paixão Franco é mulher, negra, filha de Angola e sobrinha de Portugal. Na infância lia alto as palavras que saltavam dos manuais de português e na adolescência trocava as matinés no Crazy Nights, em Lisboa, pelo sofá a ler O Independente. A trabalhar entre a comunicação e a cultura, espera pelo dia em que o Arco-Íris marchar para contar com o título: «Homem Pisa Planeta onde as Pessoas são todas Iguais».

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