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A minha mãe, que nasceu em 1924, conta que, na sua juventude, a Avenida de Roma não passava de um descampado agreste com um palacete ao fundo (o Júlio de Matos) e que algumas das suas amigas que então frequentavam o Liceu D. Filipa de Lencastre tinham de atravessar verdadeiros campos e hortas para ir às aulas.

A construção da avenida – que até 1948 se chamou Alferes Malheiro e que nos anos sessenta e setenta era uma das mais vivas da capital, cheia de lojas e cafés – fez parte de um plano ambicioso de modernização e desenvolvimento, que visava dizer adeus à roupa pendurada à janela e empurrar a cidade para norte até Alvalade, edificando um bairro inteiro com projectos inovadores e materiais de qualidade – mas sem investimentos exagerados – para que nele se instalassem as elites mas também moradores com rendas relativamente baixas.

Participaram nessa bela odisseia arquitectos de renome na época, como Cassiano Branco, Formozinho Sanchez ou Licínio Cruz; e de tal forma a coisa foi bem pensada e bem concretizada que, passados setenta anos, ainda é um gosto descobrir as belas esculturas de pedra nas fachadas de alguns prédios, o cuidado posto nos rendilhados de ferro das portas, a harmonia das varandas e das janelas, as caixas de correio e as escadarias preciosas – e até as árvores frondosas nos logradouros nas traseiras.

Foi mais ou menos nesta época que Luís Cristino da Silva desenhou uma das praças mais emblemáticas da zona, o Areeiro, que seria então considerada a verdadeira entrada em Lisboa e, até por isso, não podia deixar de ser um conjunto arquitectónico imponente e monumental; com o formato do escudo da bandeira portuguesa, num estilo a que se chamaria Português Suave, destacavam-se as arcadas sustentadas por colunas, dois torreões simétricos que abriam para a avenida Almirante Reis, os vidrinhos coloridos nas janelas altas dos primeiros andares, a esfera armilar na torre central, que estreitava nos últimos pisos, dando lugar ao que parecia uma pequena moradia independente no topo.

Ilustração: Tomás Branco/Lisbon School of Design

Se não estou em erro, foi o designer Henrique Cayatte quem me contou que nos anos cinquenta, estando de visita a Lisboa o grande arquitecto Aalvar Alto, Salazar não resistiu a convidar o finlandês para visitar aquele que era então o brinquinho de Lisboa: o complexo do Areeiro; mas, ao contrário do que todos esperavam, parece que Aalvar Alto foi mirando à esquerda e à direita sem dizer nada e, no fim, comentou apenas:

– It’s pink.

Pois eu não tenho nada contra o cor-de-rosa, sobretudo o tom discreto e elegante que Cristino da Silva escolheu para a sua praça (que actualmente homenageia Francisco Sá Carneiro e à roda da qual deixou, infelizmente, de rodar o eléctrico que já ali andava antes da sua construção).

Do que me queixo, sinceramente, é da completa ausência de articulação entre os proprietários dos vários edifícios e entre estes e o município: é que hoje, de forma quase escandalosa, cada um dos edifícios da Praça do Areeiro tem o seu próprio tom, que vai do salmão ao rosa-bebé, passando pelo rosa-velho, como se não se tratasse, afinal, de um complexo arquitectónico que forma um todo uno… e único.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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2 Comentários

  1. tenho 4 filhos lisboetas,todos fora de portugal como muitos outros.
    gostava de lhes enviar “a mensagem de Lisboa” e não sei como!!!!
    por outro lado gostaria de a guardar ,e tambem não sei como!!
    por favor expliquem-me como fazer! grato…
    fernando marques

  2. Olá!
    A Mensagem é um jornal online. Pode partilhar o link com eles. No caso de guardar, será mais dificil, mas estará sempre no ciberespaço.

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