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Ouvia-se o som de um piano a ecoar pela casa, entrando por ela adentro, via-se uma menina a tocar, de cabelos compridos, amarrados no alto da cabeça, muito direitinha e compenetrada, tocava feliz. Tocava mal, mas alegre.

Essa menina era eu. Eu era a casa e era, ao mesmo tempo, a pessoa que estava fora de casa, a ouvir o que lá se passava, a ver, de fora tudo o que eu era por dentro. Parecia a cena de um filme. Tinha tudo para correr bem, mas não podia ter corrido pior.

A minha vida era um conto de fadas que depressa se tornou num filme de terror. Estão a imaginar a menina a fazer bolas de sabão e alguém a rebentá-las? Era eu. Era eu no dia da morte do meu avô. Eu naquele dia dos infernos. O único dia que não tinha forças para enfrentar. Mas que mesmo assim não deixou de acontecer.

O diabo veio e deu-me o braço e eu soube que nunca mais me ia largar. No dia em que o meu avô morreu, Salvaterra ganhou outra cor para mim. Outro cheiro. Ou melhor, perdeu o cheiro do meu avô, aquele perfume doce da água-de-colónia, de quem acabou de se barbear. O pincel ficou, a espuma também, mas já não vislumbrava a cara cheia de recortes quando entrei naquela casa.

Era tão cedo, não sabia bem se era manhã ou noite. Entrei naquela que também era a minha casa. Como se tivesse perdido os alicerces. Os dela. Os meus. E estava tudo a cair. Como uma pedra a rolar e a levar tudo à frente. Eu não era eu. A minha mãe deixou de ser a mãe que eu conhecia. A minha avó parou. A minha irmã mudou. O mundo como eu o conhecia tinha acabado com a morte daquele homem.

Não mais ouviria chamar Peixia, o único diminutivo que algum dia aceitei e só aceitei porque me enternecia ouvi-lo da boca do meu avô. Não me ralava sentir-me pequena, o deleite que sentia compensava. A saudade tornou-se ali uma companheira. Sabia que nunca mais me ia deixar. E a morte, essa, tornou-se uma amiga.

Há dias assim, pensava eu, em que acordamos e de repente não sabemos se vamos adormecer à noite ou morrer. Dias em que acordamos com o objectivo de viver meio implícito, uma vez que a ideia da morte não nos passa pela cabeça, e no final desse dia podemos até morrer. Ou pior, alguém de quem gostamos muito podia desaparecer, para sempre, uma porta a bater com estrondo!

A morte vem e deixa-nos baralhados. A morte interrompe a construção de novas memórias. Mas as que temos guardadas ninguém nos tira. Como uma batida. Uma batida seca. Queríamos sempre mais. Não há aviso, nesta estrada vai haver uma paragem para alguns passageiros. E a nossa vida segue, porque tem de seguir. Segue manca. Mas segue. Com meio coração e com segurança de que nada mais será igual.

Habituamo-nos, porque temos de nos habituar. A viver com a ausência. A viver um amor feito só de memórias. Para esta dor não há remédio. Queria mexer-me, não conseguia. Queria falar, não era capaz. Fechei os olhos, encostei-me à cabeceira da cama e deixei-me ficar, não sei se chegou a um minuto, não sei se foram horas, sem força, sem movimento, sem voz, quieta, queda e muda, a pensar no meu avô. A pensar que era impossível que aquilo tivesse acontecido.

Não era. Sustive a respiração e achei que estava a entrar numa dimensão paralela. Palavra de honra. Existem coisas, na nossa vida que, de tão surreais, parece que não aconteceram. Eu era eu e era a outra, aquela que estava ali na cama. Dividi-me para suportar a dor. Há palavras que requerem uma pausa e silêncio, escreveu Herberto Helder, e eu pensei, exatamente, nesta frase quando ouvi a minha avó murmurar-me qualquer coisa, entre soluços, entre dentes.

Nem percebi bem, achei que fosse ela que não soubesse ver a vida no meu avô. Achei que se chegasse lá rápido podia salvá-lo. Não podia. Ninguém podia. Todos os momentos de sofrimento precisam de uma pausa, como se a vida fosse um filme e desse para parar, um “corta” tinha vindo a calhar. Só queria o cair do pano e acordar daquela peça de teatro muito mal representada.

Numa das últimas saídas a dois, fomos passear até à vala de Salvaterra. Um sítio com significado para o meu avô. Quando era pequenino, no verão, ia mergulhar naquelas águas meio sujas. Era a praia dos pobres, dizia-me ele. A pobreza foi uma amiga sua metade da vida. Faltou-lhe tudo e mesmo assim deu tanto. De cabeça erguida, o meu avô andou sempre de cabeça erguida, com a confiança de que fez tudo ao seu alcance para ser livre, para ter comida no prato, para nunca faltar comida às suas filhas.

De boina na cabeça, sempre de boina na cabeça desde o acidente que lhe levou parte do escalpe, era ele uma criança, condenada, é certo, ao trabalho e à fome, mas ainda assim uma criança. Uma criança que devia ter jogado à bola, brincado com carrinhos, estudado, essas coisas que as crianças fazem. Mas não foi assim. Cresceu em ditadura, a malvada ditadura, que condenava os pobres a serem mais pobres ainda.

Era só preciso um bocadinho de empatia, de preocupação com o outro, para não querer isto. Mas a empatia é um produto caro demais para quem só tem dinheiro. O meu avô, e tantos outros meninos a quem a ditadura roubou a infância, tornaram-se adultos muito rapidamente. Não preciso andar descalça para saber o que custa, porque vi através dos olhos do meu avô, o frio, o desconforto, a solidão que é andar de pé no chão.

Não preciso passar fome, comer uma lasca de sardinha, com um bocadinho de pão, porque vi a felicidade nos olhos daquele homem sempre que me dava uma colher de sopa. Conheço os males todos do mundo só de olhar para os seus olhos. Era muito pequenina, e perguntava ao meu avô porque a vida era assim. Ele respondia-me: porque não temos dinheiro, não temos heranças e temos de sobreviver.

Parece que ainda o ouço, a explicar-me porque uns podiam ser doutores, e outros tinham de andar naquela vida desgraçada. Entendia nada. Que raio, pensava eu, somos todos iguais. Sem o ser. Como se é capaz de entender esta desigualdade? Como se é capaz de conviver com esta desigualdade? Como se é capaz de entender que só pelo sítio onde se nasce, só pela classe em que se nasce, alguém pode ser ou não doutor. Tanta lágrima que escorreu pela minha face com este pensamento, com a minha visão de uma sociedade mais igual.

O ciclo completou-se quando, aqui há dias, respondi à mesma pergunta feita pela minha filha, e lhe dei a mesma resposta que o meu avô me deu. Soube, ali, que o meu avô viverá para sempre nas minhas palavras e isso reconforta-me. Quem em nós é grande nunca morre, é a maior lição que se pode aprender num luto. Quem em nós é grande nunca apagará a luz. A luz da nossa casa, e a nossa casa somos nós.


* Nascida e criada no Ribatejo, rumou a Lisboa, e por lá se licenciou em Psicologia. Lisboa acolheu-a, como se de sua terra natal se tratasse. Ruas e ruelas, como se a tivessem visto crescer. Fez d´O Segundo Sexo o seu livro de cabeceira e do avô o seu herói. Mãe de 3, ativista a tempo inteiro, colunista. Fascinada pelo mundo e pelas pessoas que nele habitam.

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