Ilustração: Lia Ferreira

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Ao declarar “O Qatar não respeita os direitos humanos mas, enfim, esqueçamos isto”, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, célebre pelos gestos de afecto genuíno e fotogénico com que foi marcando o primeiro mandato, deu-nos um exemplo perfeito de como a nossa empatia decai com a distância geográfica.

Mesmo existindo o estereótipo da má relação com a vizinhança, a verdade é que um vizinho em apuros desperta muito mais aflição do que 100 indivíduos nos mesmos apuros na Nova Zelândia.

Este viés, de acordo com a Psicologia Evolutiva de salão, explica-se pelo nosso passado de caçadores-recolectores organizados em pequenos grupos. Mas embora se confunda com o tribalismo,  é algo mais profundo – chamemos-lhe proximalismo

O proximalismo é um viés cognitivo-emocional, quase uma limitação neuronal, que o espaço nos impôs e nos é tão constitutivo como a outra limitação mais evidente: a impossibilidade de imaginar uma quarta dimensão do espaço. E o que se disse para o espaço também se aplica ao tempo.

A ideia de que esta herança do período de deambulação na savana africana nos prejudica na era da globalização tem um lado pateta. Basta pensar no que seria sentir da mesma forma todos os males do mundo e guardar na memória todas as tragédias, de um modo tão vivo como no dia em que demos delas conta pela televisão. Ninguém sobreviveria a este inferno.

Mas o proximalismo pode ser um problema quando as respostas aos problemas têm de ser globais (o espaço) e incluir as gerações futuras (o tempo). A urgência de lidar com problemas à escala global e além dos ciclos eleitorais levou Peter Singer, William MacAskill e outros a lançar o Altruísmo Eficaz, um movimento herdeiro do consequencialismo e com apenas duas décadas de existência.

Os seus proponentes defendem uma filantropia baseada na evidência e na razão, cujo objectivo principal é salvar vidas e diminuir o sofrimento, tantas e tanto quanto possível. Enquanto no altruísmo convencional o alívio que o donativo produz na consciência do doador é o critério que determina a quem doar, no altruísmo eficaz o que conta é o impacto desse donativo naqueles que precisam de ajuda. Que relevância tem esta conversa para o Mundial no Qatar? Toda.

À semelhança de outras cidades europeias, Lisboa não irá montar telas gigantes para  assistir aos jogos na rua, nas chamadas fan zones. E por toda a imprensa nacional têm sido publicados artigos de apelo explícito ou mais ou menos velado a um boicote ao Mundial no Qatar (e.g., 1, 2, 3).

As razões são evidentes e as motivações nobres. O Qatar concentra todos os motivos para não ser palco de um Mundial de Futebol: um sorteio viciado, uma monarquia autocrática, uma sociedade de castas profundamente racista que nega direitos civis a mulheres, minorias sexuais e imigrantes, as temperaturas altíssimas a exigir os aberrantes estádios climatizados em plena crise ambiental planetária, um país sem tradição futebolística e, sobretudo, um sistema quase esclavagista.

Os trabalhadores imigrantes que fizeram os estádios do Qatar 2022 foram explorados por todos (o Qatar, as construtoras e as empresas que lhes exigiram valores exorbitantes por um visto de trabalho), não tiveram condições de segurança e viveram em lugares insalubres.

Um famoso artigo no The Guardian refere a morte de mais de 6500 de trabalhadores imigrantes entre o anúncio da atribuição do Mundial ao Qatar (Dezembro de 2010) e  Fevereiro de 2021, número que muitos tomaram erradamente como o da morte dos trabalhadores envolvidos na construção dos Estádios e demais complexos. O Qatar argumenta que nesse período morreram 38 trabalhadores contratados para as obras do Mundial e desses apenas 3 em acidentes de trabalho, mas não identificou a causa de cerca de 70% das 6500 mortes, ficando-se por descrições vagas, como a morte “de causa natural” ou “por paragem cardíaca”.

Esta conveniente negligência é suspeita e – não que fosse ainda necessário – mais uma prova do desprezo que o Qatar tem pelos trabalhadores imigrantes. Quem, afinal, morreu a trabalhar nas obras do Qatar 2022? Mohammad Kaochar Khan, Yam Bahadur Rana, Mohammed Suman, Tul Bahadur Gharti, Sujan Miah, Manjur Kha Pathan…

Embora após mais alguns nomes deixe de haver certezas, no estudo Heat Stress Impacts on Cardiac Mortality in Nepali Migrant Workers in Qatar (Cardiology, 2019) há uma estatística esclarecedora. 15% das mortes entre os 22 e os 35 anos são devidas a problemas cardiovasculares, mas entre os imigrantes nepaleses a trabalhar na construção civil no Qatar esta percentagem foi 22% na estação fria e 58% na estação quente. Os autores concluíram que até 200 das 571 mortes de nepaleses por “paragem cardíaca” entre 2009 e 2017 poderiam ter sido evitadas. E como os nepaleses não chegam a um quarto dos trabalhadores imigrantes no Qatar, o número de mortes evitáveis andará pelas largas centenas, podendo até chegar a 1000.

Quantas destas mortes foram de trabalhadores de obras directamente relacionadas com o Mundial (estádios, hotéis e todo o boom de construção civil associado a este evento)? Não sabemos, mas o Qatar é quase 9 vezes mais pequeno do que Portugal e a proporção de obras iniciadas após 2010 directa ou indirectamente relacionadas com o Mundial deve ser considerável, pelo que 100 mortos será  uma estimativa por baixo.  Será este um número “vergonhoso”? Em 2021, o PIB per capita do Qatar foi 51 810 euros; o do Brasil foi 6349 euros. No Mundial do Brasil, em 2014, houve 9 mortes associadas à construção dos estádios do Mundial.

Agora que a Selecção já está a jogar no Qatar, o “boicote” parece reduzir-se à renúncia de assistir aos jogos pela televisão. Quem não gosta de futebol tem aqui uma oportunidade única para o virtue signaling nas redes sociais; quem adora futebol, tem um pequeno problema em mãos, que resolverá em função dos graus de paixão, escrúpulos e engenho, nomeadamente o talento para mapear todas as hipocrisias e injustiças que fomos normalizando.

Mas a grande questão é outra: como se explica que as famílias indianas, nepalesas, bangladexenses, paquistanesas e cingalesas dos trabalhadores que morreram a construir aqueles coliseus não tenham ainda beneficiado de um fundo criado pela FIFA, financiado pelas receitas do Mundial, ou por uma outra entidade capaz de canalizar a empatia planetária que esta tragédia despertou e tanto desconforto ainda causa?

Haverá explicações para este mistério, todas túrgidas de geopolítica e legalês. O Qatar recusa-se a pagar indemnizações porque não quer admitir que aquelas mortes resultaram das péssimas condições laborais e as empresas envolvidas também têm lavado as mãos.

Mas estando identificados os poucos mortos que o Qatar admite terem trabalhado nas obras do Qatar 2022 e os muitos mortos de “causa natural” ou “paragem cardíaca” (o que levanta a forte suspeita de uma morte associada ao calor), e vivendo as suas famílias, na esmagadora maioria, fora do Qatar, por que motivo a FIFA não abriu os cordões à bolsa, mesmo sem a demonstração formal (que nunca teremos) do nexo de causalidade entre o tipo de trabalho e cada morte?

Por recear um incidente diplomático com o Qatar antes do Mundial? Por medo de abrir um precedente? E por que motivo não houve uma campanha mundial de angariação de fundos organizada por uma instituição livre de ligações ao futebol e à ordem política mundial, que teria todas as condições para ser um sucesso?

Iniciado o Mundial, não há nenhuma indicação de que estas famílias venham a ser indemnizadas. Como se explica, se o Ocidente sabe destas mortes desde pelo menos Fevereiro de 2021 e se, embora sem ter responsabilidade criminal, a participação no Mundial torna o Ocidente conivente ou até cúmplice dos responsáveis directos pelas mortes dos trabalhadores?

Avanço esta simples explicação: ao fazer-se permanentemente a amálgama dos pecados do Qatar, como um inimigo de todas as causas, do ambientalismo aos direitos de cidadania, passando pela corrupção, perdeu-se – digamos – energia cívica numa cruzada impossível. Porque não passa pela cabeça de ninguém informado que seja um mero mundial de futebol a cumprir o objectivo que décadas de denúncias e algumas guerras não conseguiram alcançar: levar ao Médio-Oriente o modo de vida e o Estado de Direito ocidentais.

O principal e mais trágico problema directamente associado a este Mundial ainda tem uma mitigação possível, isto é, a indemnização das famílias dos trabalhadores mortos, mas se esta não ficar assegurada antes da final do Mundial, é provável que não venha acontecer nunca, porque a seguir a energia cívica será canalizada para outras causas. Estamos em contra-relógio e gastar os últimos dias a falar dos podres do Qatar é um enorme desperdício.

A CML terá decidido bem ao não montar as telas para a fan zone, sobretudo porque mostra respeito pelos indianos, nepaleses, bangladexenses, paquistanesas e cingaleses que vivem em Lisboa. Mas o impacto prático deste gesto é nulo, pois visa preservar a boa consciência, concretizando-se sem grande sacrifício e até com alguma poupança.

De igual modo, mesmo que o leitor opte por não ver o Mundial, não se iluda com o impacto da sua decisão. Não estará a dar nenhuma “lição” à FIFA, nem a beliscar o negócio dos direitos televisivos presentes e futuros. O único efeito dessa decisão é a paz de espírito que lhe trará.

E assim, em vez de se perder mais tempo no remoinho interior em que sempre caímos quando se tenta restaurar a virtude destruída pela interpretação cínica do altruísmo, melhor seria que alguém nos possibilitasse, isto é, a qualquer um dos 5 mil milhões que acompanharão o Mundial pela televisão, uma forma segura e eficaz de doar o suficiente para alimentar durante um par de dias uma mão-cheia de órfãos de algum subúrbio de Catmandu.

A conta é simples: se cada um destes telespectadores contribuir em média com 10 cêntimos, cria-se um fundo de 500 milhões de euros, e se admitirmos que 5000 famílias precisam de ser compensadas (façamos uma sobrestimação), cada uma receberia 100 000 euros, ou seja, 277 euros por mês durante 30 anos.

Sabem qual é a pensão actual de uma viúva nepalesa de um dos mortos no Qatar, mãe de duas crianças? 16 euros. Para esta mãe, o que faremos com o telecomando é irrelevante.


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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