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De repente, uma imagem chegou-nos do Japão – uma lição de cidadania. Uma prova de como o futebol, mesmo como paixão, pode ser uma loucura saudável.  À meia-noite, no passado 23 de novembro, o (talvez) mais famoso cruzamento do mundo tornou-se como é habitual uma torrente humana. Mas, nessa noite, aconteceu mais do que isso.

Todos os dias, durante três minutos, 8 semáforos mandam parar o trânsito e milhares e milhares e milhares de pessoas ocupam as 5 passadeiras saídas de 5 ruas, no Shibuya Crossing, o cruzamento central de Tóquio.

Uma das cinco passadeiras é longitudinal, parecendo dar um toque de risco àquela organização perfeita. Mas quase ninguém tresmalha nas cinco moles imensas: não se põe um pé fora dos cinco trajetos tracejados a negro e branco, do asfalto e da lei.

É tão insólita a precisão da multidão que inúmeras fotos dela se espalharam como imagem do Japão. Eles são muitos e ordeiros, sabemos todos. Eles são força, mas também a delicadeza de respeitarem o outro.

Há tanta beleza nisso, que Lost in Translation (2003), um filme icónico sobre um olhar estrangeiro a Tóquio, pôs a protagonista Scarlett Johansson a atravessar o Shibuya Crossing, enquanto os vidros de um prédio projetavam brontossauros a caminhar. Mensagem: o respeito dos japoneses pela ordem é pré-histórico, atávico, está-lhes no DNA.

E é assim que chegamos a este 23 de novembro, cerca da meia-noite, hora em Tóquio. O árbitro acabava de apitar o fim do jogo Alemanha-Japão, no Mundial. E não tinha acontecido a antiga definição de Gary Lineker, um bom avançado inglês e ainda mais certeiro fraseador: “O futebol é um jogo simples. 22 jogadores perseguem a bola e no fim ganha a Alemanha.”

Nesta quarta-feira, no fim ganhou o Japão! Um país apaixonadíssimo pelo futebol, mas com uma seleção sem grandes provas dadas. E não é que o Japão ganhou agora à Alemanha, habitual candidata a campeã! 

O Shibuya Crossing enlouqueceu – o centro de Tóquio nunca dorme e à volta daquele bairro fervilham izakaya (bares) e clube noturnos onde se canta karaoke, além de estar próximo de uma das estações centrais de comboio.

O Japão ganhou e a multidão saltou para o cruzamento.

Desta vez não só para as passadeiras, sempre tão respeitadas, mas para toda a confluência de 5 ruas, um Shibuya transformado em desordem saborosa de ovos mexidos, de japoneses a abraçar e a chorar de alegria. Como mostra o vídeo. Como nós, tantas vezes, no Marquês de Pombal ou nos Aliados, malucos do futebol.

Como um porém, em Tóquio. Aquele tempo verbal, “a multidão saltou”, está mal escrito. Certo é: a multidão saltava. Saltava durante os três minutos que os 8 semáforos do cruzamento Shibuya permitiam…

Depois, o verde avisava os últimos segundos “(…) 5-4-3-2-1-0”, e os belos malucos devolviam o centro aos carros e voltavam a recolher-se aos passeios. Acabava o vermelho e eles retornavam ao asfalto, por mais três minutos. Três minutos de dança epilética de abençoada e civilizada felicidade, e o resto de educação cívica. Glória ao futebol.

Se eu fosse vereador ou professor haveria de mostrar este vídeo à esquerda e à direita.


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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