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Desde 2017 que correm notícias sobre o Hub Criativo do Beato, o espaço dedicado ao empreendedorismo numa das zonas mais esquecidas de Lisboa. Cerca de cinco anos depois, uma parte desta obra foi aberta ontem, com Carlos Moedas a apresentar o Hub como o ninho da sua Fábrica de Unicórnios – um investimento de oito milhões de euros no apoio a 20 scaleups por ano, duplicando os apoios a startups.

A História, já se sabe, escreve-se de fins e de inícios. E a de Lisboa, com tantos edifícios devolutos à espera de serem reabilitados, é uma oportunidade para ver renascer nos lugares abandonados novas histórias. É isso mesmo que está lentamente a acontecer por aqui.

A missão é “trazer a aceleração para esta zona da cidade”, diz José Mota Leal, o diretor de projeto. Mas também posicionar Lisboa no panorama das “cidades empreendedoras, tecnológicas, criativas”. E sustentáveis.

Aliás, uma das novidades do espaço é o seu Living Lab, criado em parceria com a Lisboa E-Nova – Agência de Energia e Ambiente de Lisboa, e com financiamento da EEA Grants.

O Hub Criativo do Beato quer acelerar a transformação nesta zona da cidade. Foto: Rita Ansone

Por agora, na rua da Manutenção, as obras (atrasadas pela pandemia) estão em curso, embora o passado do lugar seja ainda um vestígio muito presente: na antiga Fábrica do Pão, há paletes montadas no espaço adornado com velhos fornos e azulejos de outros tempos.

Na sala principal, uma máquina monstruosa conta a história dos bolos e das bolachas que aqui eram produzidas, depois de a produção em fornos de lenha ter sido substituída pelos fornos automatizados. Mas já não se sente o cheiro a farinha: ao longe ouve-se o barulho de novas construções, a banda sonora da mudança.

Um convento, uma fábrica… um centro de ideias

Como é que toda esta transformação começou? Neste lugar, que durante muito tempo foi o Convento das Carmelitas (mais conhecido por “Grilas”), fundou-se em 1897 por decreto do rei D. Carlos uma Manutenção Militar para produzir alimentação para as tropas.

O complexo teve o seu pico de produção durante a Guerra Colonial, mas em 2011 a sua última fábrica, precisamente a do Pão, encerrava. Foi em 2016 que a Câmara Municipal propôs então a transformação do espaço através da celebração de um contrato de cedência de utilização com o Estado Português.

A Startup Lisboa, dedicada ao apoio e ao desenvolvimento de startups, foi convidada a pensar o futuro deste grande complexo, propondo um modelo para a reabilitação do espaço: “Encontrar parceiros que pudessem reabilitar os edifícios através de um projeto de arquitetura”, explica José Mota Leal.

Os parceiros que hoje trabalham nestas obras foram selecionados de acordo com os projetos apresentados e os edifícios foram-lhes entregues no estado em que se encontravam, com uma contrapartida: não pagavam renda pelo uso do edifício até recuperarem o investimento.

É isso mesmo que está a acontecer num grande complexo de 11 mil metros quadrados, onde dantes se produziam bolachas e até mesmo esparguete: ali está a nascer a Factory Lisbon, um campus para startups à imagem da Factory Berlin.

É um dos edifícios que está quase pronto.

Os projetos e as operações do HCB

Passeando pelo complexo, veem-se também testes de operações do Living Lab, como a instalação de postes de carregamentos de bicicletas e de trotinetas. E há mais edifícios já com projetos delineados, à espera de se iniciarem as obras:

  • No “Edifício do Relógio” (que marcava o tempo e a jornada na fábrica), surgirá um espaço de coliving;
  • Na Central Elétrica, vai instalar-se a The Browers Company (uma spin-off da SuperBock), que ali vai produzir a sua própria cerveja artesanal;
  • Nos “Armazéns das Grilas” (armazéns das freiras Grilas, conhecido pelas suas arcadas), vai instalar-se a empresa Claranet, ligada à cibersegurança;
  • Na antiga Fábrica de Moagem, vai instalar-se um espaço museológico;

Já pronto está o espaço de restauração A Praça, que espera acolher 3 mil trabalhadores (o mesmo número daqueles que trabalhavam nas fábricas).

Por aqui, um restaurante, uma esplanada e um refeitório surgem numa velha oficina de reparação de automóveis, num antigo espaço de serviços administrativos e numa fábrica de carnes.

O espaço de restauração A Praça. Foto: Rita Ansone

Há operações do Living Lab que incidem neste espaço: por exemplo, a instalação de camas de terra no rooftop de um dos edifícios servirá para a criação de hortas urbanas, e a Praça terá direito a uma parcela para a produção de ervas aromáticas e produtos frescos.

Para além disso, o ciclo dos alimentos neste espaço será monitorizado para se avaliar a sua pegada. Outras operações do Living Lab são mais abrangentes, explica Victor Vieira da Lisboa E-Nova.

Algumas operações do Living Lab

  • Instalação de painéis fotovoltaicos em todos os edifícios que apresentem condições para tal (apenas um edifício não ficará dotado destes painéis);
  • Criação de uma comunidade de energia;
  • Instalação de sistemas de iluminação inteligente, permitindo-se um ajuste de eletricidade face à luz ambiente e à densidade do espaço;
  • Implementação do projeto “Beato BioBus”, em que a comunidade escolar envolvente é convidada a recolher o óleo alimentar usado para depois ser processado nas fábricas da Prio e injetado nas carreiras da Carris;
  • Monitorização do ciclo dos alimentos nos espaços de restauração para se avaliar a sua pegada;
  • Implementação de um projeto de sensorização através do qual se permite acumular a energia que é produzida dentro do complexo;
A construção de um jardim interior num dos espaços do Hub. Foto: Rita Ansone

Com tudo isto, o Hub não quer ser um espaço fechado: quer abrir-se a toda a cidade, para que todos possam usufruir dele. E por isso mesmo assume-se como um projeto “non-friendly para carros”. “Temos uma aposta clara na oferta de transportes públicos e de mobilidade suave”, diz José Mota Leal.

Neste momento, o HCB está a trabalhar com a Carris e a CML no sentido de redesenhar a oferta de mobilidade do espaço. Carros só haverá na rua do Grilo, onde se criará um jardim infantil e uma praça pública sobre um parque de estacionamento.

Por enquanto, com as operações do Living Lab a serem testadas e as obras em andamento, na rua da Manutenção assiste-se à substituição das velhas máquinas pela rapidez das ideias e das novas tecnologias.

A seu tempo, vai-se erguendo esse centro de empreendedorismo ligado à sustentabilidade. Nesta nova cidade inovadora, que vida poderá trazer o Hub Criativo ao Beato?


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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3 Comentários

  1. Gostaria de saber o que tenho que fazer para alugar a padeiria para um almoço com os antigos trabalhadores da Manutenção Militar

  2. Maria, pode entrar em contacto com a página do Hub – mas a ana da Cunha vai falar com eles também.

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