Bruno Andrade Comentador Futebol
O jornalista brasileiro Bruno Andrade agora comenta sobre o futebol português na CNN Portugal. Foto: Rita Ansone.

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Acendem-se os refletores e é hora de entrar em ação. Bruno Andrade está concentrado, sabe que milhões de adeptos portugueses depositam nele as esperanças de o seu clube conquistar um título na época. Bruno respira fundo, sente aquele frio na barriga, mas agora não há como recuar, afinal, o telejornal já vai começar.

Bruno Andrade joga numa posição que até hoje nenhum outro brasileiro jogou em Portugal. Se a presença de futebolistas e treinadores do Brasil nos estádios portugueses é até comum, ainda não se tinha visto um brasileiro matar a bola no peito e marcar um golo como comentador de futebol na televisão portuguesa.

Bruno Andrade no estúdio da CNN Portugal: frio na barriga antes de entrar em ação. Foto: Rita Ansone.

Em jornal, rádios e sites, sim, mas na televisão era inédito. Um feito digno de troféu.

O paulista de 34 anos faz parte da equipa de comentadores da CNN Portugal e da TVI, a segunda camisola de uma emissora nacional que defende, depois de se estrear a comentar no Canal 11, em 2019. Três anos depois, sabe que ainda não conquistou nada e que para um estrangeiro se firmar no futebol português, é preciso estar sempre a marcar.

Confiante na vitória de Lula e da Seleção Brasileira

Ser estrangeiro e, naturalmente, não ter preferências clubísticas em Portugal, porém, não o poupou da perseguição dos adeptos e até de alguns colegas de profissão. Um ambiente às vezes hostil e xenófobo que não o leva a pensar em desistir do ofício nem em voltar ao Brasil, principalmente se o atual cenário político for mantido.

“Não vim para Portugal por causa da situação política no Brasil, mas para realizar um sonho de trabalhar na Europa. Não desconsidero a hipótese de retornar um dia, mas não agora. Principalmente no país com Bolsonaro na presidência”, diz o comentador, que chegou a Lisboa em 2015.

No caso de uma derrota do atual presidente e de vitória do seu concorrente, acredita que o cenário mudará de forma favoravelmente mais ampla.

“Se o Lula vencer, as portas estarão novamente abertas a um futuro retorno, pois o Brasil volta a ser um sítio apetecível.”

Bruno Andrade
Bruno costuma advertir os colegas de profissão jornalística sobre os riscos de o país repetir a história política recente do Brasil. Foto: Rita Ansone.

Bruno segue atento ao cenário político também em Portugal e não esconde uma certa inveja da postura do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, apesar do posicionamento distinto no relvado da política. “Marcelo é um político coerente e preocupado com o país. Mesmo ele sendo de centro-direita e eu mais de esquerda, comporta-se de uma forma com a qual me identifico mais. Certamente votaria nele”, afirma.

A experiência brasileira com Bolsonaro, contudo, leva o jornalista a constantemente alertar os colegas portugueses sobre os riscos de um efeito semelhante com o crescimento da extrema-direita no país. “Digo para terem cuidado com o André Ventura, pois o Bolsonaro também começou assim, desacreditado, antes de virar um bicho-papão”, explica, para rematar:

“É preciso ter cuidado com o André Ventura, pois o Bolsonaro também começou assim, desacreditado.”

Bruno Andrade

“Os meus amigos portugueses com quem falo de política respondem que em Portugal é diferente, mas não é. Dizem que o André Ventura não vai a lugar nenhum, o que não é verdade, pois em algum lugar ele já chegou. E pode ir mais longe.”

Falando em ir mais longe, o comentador desportivo não foge da dividida e faz previsões políticas e futebolísticas para os resultados das eleições brasilerias e do próximo Mundial, no Qatar: “Não é palpite, mas uma análise apoiada em observações e números: vai dar Lula presidente e o Brasil campeão do mundo.”

Troca de passes com Jorge Jesus

Bruno sabe que no futebol (como na política) vence o trabalho coletivo e reconhece que as portas do mercado do jornalismo desportivo português se abriram após a troca de passes com um nome bem conhecido no cenário futebolístico nos dois lados do Atlântico: o do técnico Jorge Jesus.

A CNN Portugal é a segunda camisola de uma emissora que o brasileiro vestiu, após trabalhar no Canal 11. Foto: Rita Ansone.

“A ida de Jorge Jesus para o Flamengo revolucionou a cobertura da imprensa desportiva portuguesa em relação ao Brasil.”

Bruno Andrade

Tudo o que o técnico português fazia no Rio era notícia em Portugal. Natural, portanto, que os media locais convocassem um jornalista especializado no futebol brasileiro.

“Até então, participava esporadicamente em programas de televisão. Cheguei a comentar jogos das equipas brasileiras na Sport TV, mas nada regular”, conta. A contratação pelo Canal 11 mudou a história de um jogo que começou em São Paulo, no diário desportivo Lance!, e tem o segundo tempo disputado em Lisboa.

A partir de 2015, já na capital portuguesa e como correspondente do site Goal.com, Bruno começou a dar os primeiros remates em solo europeu. A tática de atuação era tornar-se conhecido entre os colegas de relvado na crónica desportiva local. Para isso, fez das conferências de imprensa o seu campeonato particular.

“Como nem sempre ia às conferências com uma missão específica, sentia-me à vontade para fazer as perguntas que quisesse, quase sempre, apostando na criatividade e no bom humor”, explica o jornalista, que apesar do tom provocador de algumas das perguntas, nunca entrou numa bola dividida com os treinadores.

Pelo contrário.

Numa das conferências, o técnico Jorge Jesus – ainda no Sporting – chegou a comentar que havia tantos atletas lesionados no plantel que corria o risco de ter de escalar os jornalistas para compor a equipa. Bruno prontamente levantou o indicador. “Se precisar, míster, eu jogo de central”, disse, arrancando risos na sala de imprensa.

A relação com os colegas também era amigável. “Claro que há sempre um ou outro que torce o nariz para uma pergunta que pode sair um pouco da caixa, mas a maioria quando me via chegar já queria saber o que iria aprontar naquele dia”, diverte-se. A estratégia funcionou e Bruno passou a defender as cores de O Jogo.

O trabalho no diário português era feito em paralelo com o de correspondente do site Goal.com, o que exigia jogo de cintura do jornalista para dar conta de duas redações, com públicos distintos, em Portugal e no Brasil. Um espírito de “bater o canto e correr para a área para cabecear” que norteia a rotina de Bruno Andrade até hoje.

Entre dois fusos-horários

O convite da TVI e depois da CNN Portugal foi recebido com um soco no ar. Era ao mesmo tempo o reconhecimento do trabalho de Bruno na televisão e a oportunidade de se descolar da imagem de ser um jornalista desportivo brasileiro que comentava apenas o futebol brasileiro.

O jornalista brasileiro acompanha os jogos em Portugal e também no Brasil. Foto: Rita Ansone.

“Foi fantástica a minha passagem no Canal 11, adoro todos que lá estão, mas me incomodava um pouco a sensação de que, como brasileiro, deveria comentar muito sobre o futebol do Brasil e menos do local. Não era algo propositado, mas uma barreira que acabava por acontecer de forma natural”, justifica.

“Eu sempre vou ser um jornalista brasileiro, isso é impossível e mudar e nem queria que fosse diferente”, continua. “Mas na TVI e na CNN Portugal, sou tratado antes de tudo, como um jornalista e, assim como os meus colegas, acho que aqui me enxergam como um bom comentador do futebol português”, acredita.

Na nova casa, Bruno Andrade transita pela programação jornalística local, comentando o noticiário desportivo na companhia dos pivôs dos telejornais da casa, assim como os demais comentadores portugueses. A exigente rotina em Queluz impossibilitou a atuação em O Jogo, substituída pela função de colunista do portal brasileiro UOL.

“Tem dias que começo a noite com a Liga Portuguesa e estico até às quatro da manhã assistindo a uma partida da Libertadores.”

Bruno Andrade

Comentar sobre o futebol português, porém, não o livrou de se manter sempre bem informado sobre a realidade no Brasil. “Não tem jeito, é esperado que eu saiba mais do que os meus colegas a respeito das notícias de lá. Quando uma equipa daqui contrata um jogador brasileiro, já preciso saber tudo a respeito dele”, diz.

E saber tudo não só a respeito dos jogadores brasileiros. A passagem de Jesus no Flamengo abriu o mercado para outros treinadores portugueses, como Abel Ferreira (Palmeiras) e Vítor Pereira (Corinthians), o que obriga Bruno a constantemente trabalhar entre os fusos-horários dos dois países para assistir aos jogos.

“Tem dias que começo a noite com a Liga Portuguesa e estico até às quatro da manhã assistindo a uma partida da Taça Libertadores da América. Durmo um pouco e às sete já estou na televisão”, conta, novamente no melhor estilo bate o canto e corre para cabecear a bola para o golo.

Uma disposição que sempre acompanhou o jornalista.

Ainda no site Goal.com, Bruno realizou um feito que poucos colegas portugueses conseguiram: entrevistar numa sequência o técnico Mourinho, então no Tottenham, e os jogadores Neymar, no Paris Saint-Germain, e Cristiano Ronaldo, ainda na Juventus. “Era para um documentário do Goal.com com o canal Dazn. Foi uma loucura”, lembra.

Loucuras como esta acabaram por dar segurança ao brasileiro em aceitar os desafios, entre eles o de ombrear com os comentadores portugueses em frente às câmaras. Apesar da aparência tranquila e do ar descontraído, Bruno confessa não ter dominado uma certa ansiedade. “Quando piso no estúdio, ainda sinto um frio na barriga.”

Próxima paragem: Qatar

Ser brasileiro poderia livrar Bruno do pior pesadelo dos colegas portugueses: o de ser apontado como adepto de uma equipa local. Na perceção do torcedor, ter um clube do coração pode influenciar um outro órgão vital do jornalista, o cérebro. Bruno brinca com a situação. “Claro que torço por um time, mas é do Brasil”, provoca.

Bruno prepara-se para cobrir o Mundial no Qatar: a missão é acompanhar a última grande competição de Cristiano Ronaldo. Foto: Rita Ansone.

“Não torço por nenhum clube português nem gostaria. Estou bem assim”, continua o brasileiro, agora a falar a sério. “Costumo dizer que quando acordo sou Benfica, no almoço sou do Porto e janto como sportinguista”, resume.

O distanciamento clubístico não poupou o brasileiro, porém, de assim como todos os jornalistas desportivos portugueses, ser perseguido pelos haters nas redes sociais.

“Já sei que quando terminar o comentário na televisão, a caixa de mensagens estará cheia de provocações e xingamentos”, diz o jornalista, que antes até tentava argumentar com os adeptos mais raivosos. “É inútil, a maioria não está disposta ao diálogo. Hoje, só me dou ao trabalho de responder aos que me elogiam.”

“Não torço por nenhum clube português nem gostaria. Estou bem assim.”

Bruno Andrade

Para além da perseguição dos adeptos, Bruno vê com certa tristeza a forma como foi tratado por alguns jornalistas desportivos de outras emissoras. “Há um deles no Porto que só se refere a mim, e isso no ar, em direto, como Zé Carioca. Talvez ele ache piada, mas a pseudo-brincadeira esconde uma xenofobia, um crime”, adverte.

As provocações não o demovem de seguir uma rotina que lhe é cara: a de ir aos estádios. “Não percebo um jornalista desportivo não ir à bola. Penso que a atmosfera da bancada renova as energias de quem trabalha com futebol”, explica. Além de ir aos estádios, Bruno está a preparar-se para o retorno às grandes competições.

Em novembro, estará no Qatar, numa cobertura em conjunta do portal UOL e da CNN Portugal do Mundial de Futebol. Não será uma cobertura tradicional, mas o jornalista não revela muito além disso. “A intenção é acompanhar o que deve ser a última grande prova de Cristiano Ronaldo”, despista, escondendo o jogo.

Sobre um possível confronto entre as seleções de Brasil e Portugal no Mundial do Qatar, Bruno pela primeira vez na entrevista hesita diante de uma pergunta: por quem torceria? A resposta demora a vir. “É indiferente. A verdade é que sou apaixonado pelo jornalismo, não pelo futebol”, garante, driblando a polémica como um craque.

Jorge Jesus deveria tê-lo escalado, sim. Mas como avançado.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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