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Lá estão eles, do outro lado da estrada, em plena Avenida da República. Chegam a ser dezenas, sentados em cima das motas e das bicicletas, com mochilas verdes e amarelas às costas, a aguardar em frente a restaurantes o próximo “plim” no telemóvel, mais um pedido de entrega ao domicílio.

Histórias como esta repetem-se entre a enchente de estafetas que vimos em frente ao McDonald’s, num anoitecer de setembro. demos voz a Hossain, “precário e sem fôlego”, que vive em cima do selim da bicicleta quatro horas de dia e cinco à noite.

O que não esperávamos era vê-los atravessar a estrada ao final da noite, em direção a uma carrinha de ajuda alimentar para terem a refeição que eles não conseguem pagar. Eles, os que passam o dia a entregar comida.

Trazem a mochila, mas desta vez vem vazia.

E cruzam-se com pessoas como a “Leonor” (nome fictício) e o Rui, vindos de longe – ela de Loures, ele da Amadora – só para uma refeição quente.

Rui já soube o que é viver na rua, diz que há 30 anos que vem fazer o jantar nas carrinhas do Saldanha. “Leonor” tem teto, mas não saúde. Aos 62 anos não consegue trabalhar, garante, e a viagem até aqui compensa o que não entra na despensa.

As equipas de rua têm-se cruzado com muitos estafetas nas filas por uma refeição quente. Foto: Frederico Raposo

São retratos, mais do que números, do impacto da inflação que assola o país (que atingiu os 9,3% em setembro, a taxa mais alta dos últimos 30 anos, diz o INE) e que já está a engrossar as filas de ajuda alimentar.

São as notícias que não gostaríamos de dar, sobretudo neste dia 17 de outubro, que é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Erradicar está longe de acontecer, como mostram estes números e, sobretudo, estas pessoas a quem a crise volta a afligir.

Refeições na rua quase duplicaram em alguns casos

Não é que haja mais tendas, cobertores e colchões na rua – embora faltem dados oficiais que nos permitam aferir com segurança se o número de pessoas a dormir nas ruas da cidade aumentou.

“Não são mais pessoas em situação sem-abrigo que temos à porta das nossas carrinhas, são pessoas que, infelizmente, podem vir a ser sem-abrigo dentro de meses muitas em quartos sem acesso para cozinhar”, diz Nuno Jardim, no papel de diretor-geral da Associação CASA, explicando o tipo de pobreza que se está a sentir. “A inflação já se sente na rua. Há mais imigrantes, muitos mais imigrantes. Mas também idosos com casa, mas sem rendimentos suficientes.”

Aqui, os números existem: de janeiro até meados de outubro, os voluntários da CASA passaram de um rotina em que serviam 250 refeições diárias para servirem 310. Um aumento que se vê sobretudo no mais recente ponto de distribuição a ajuda alimentar, o Jardim Constantino, e no Saldanha.

Fonte: Associação CASA; *Dados de outubro até dia 12

Se os voluntariados estavam habituados a lidar com pessoas sobretudo sem casa, agora as filas enchem-se de “pessoas que têm casa e descem à rua para vir buscar comida” – sopa, água, fruta, pão, às vezes um bolo, diz Nurjaha Tamaland, presidente e fundadora de uma outra associação, a Noor’Fatima.

Além dos idosos e “dos motoristas de Uber Eats”, que tem visto com especial frequência junto às carrinhas, Nurjaha lembra que há “muitas mães com crianças”.

Na rua, a Noor’Fatima aumentou de 130 para 200 refeições diárias, nos últimos meses. Fazem-no em vários pontos da cidade, alguns dos quais partilhados com a CASA: Saldanha, Almirante Reis, Jardim Constantino, Arroios, Martim Moniz, Santa Apolónia e (se sobrar comida, raro, sobretudo recentemente) seguem por Alcântara.

Depois, em Alfornelos, abrem portas também para distribuir cabazes a mais 150 famílias, uma vez por semana.

Começaram esta missão em 2015, só com distribuição do que seria desperdício alimentar dos cafés, pastelarias e restaurantes. Hoje, o desperdício alimentar é o bónus no menu, porque as operações da associação vêm essencialmente de donativos e refeições preparadas especificamente para a distribuição alimentar.

No Centro Social dos Anjos, entram pessoas sinalizadas previamente pela Santa Casa. Foto: Rita Ansone

Apesar da dificuldade de aferir se este fenómeno se deve à atual conjuntura económica, a um aumento da pobreza, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa não tem dúvidas de que é a inflação que já está a deixar duras marcas nos lisboetas, naturalmente aliada ao período pandémico. A instituição fala num “crescente número de pedidos de apoio e uma maior complexidade das situações que recorrem à instituição, fruto da atual conjuntura socioeconómica que o país atravessa”.

A Santa Casa diz ter feito um “maior investimento no acompanhamento e monitorização das situações acompanhadas pela Misericórdia de Lisboa, em todos os serviços prestados, em estreita articulação com a rede de parceiros”.

Mas a pandemia deixou já mazelas que ainda se estão a tentar sanar. Segundo o jornal Expresso, também a associação Comunidade Vida e Paz tem registado um acréscimo nos pedidos de apoio alimentar desde a pandemia, subindo de 420, em período pré-pandemia, para 500 refeições por dia.

Já em junho, numa visita da Mensagem ao Centro de Apoio Social dos Anjos, da Santa Casa, a assistente social Sónia Vieira lembrava como as filas estavam já notoriamente maiores, chegando sobretudo “pessoas que ficaram sem trabalho”.

Foi a partir deste local, antes uma fábrica, que nasceu a expressão “sopa dos pobres”. É hoje uma cantina de refeições quentes (almoço e jantar) e de acolhimento temporário, sempre de pessoas sinalizadas pela Santa Casa.

Sónia é assistente social há vários anos nesta Centro Social dos Anjos. Foto: Rita Ansone

“Temos tido mais jovens, alguns com problemas de dependência, depois outros que vêm com a ideia de que é em Lisboa que estão as oportunidades, andam atrás delas mas não arranjam trabalho e ficam desamparados”, diz.

Fazer quilómetros para comer uma refeição quente em Lisboa

Rui não parecia cansado e ninguém diria o tanto que percorreu, naquela noite em que nos encontramos, para chegar ao Saldanha, paragem que diz ser a sua todas as noites dos últimos 30 anos. Veio da Amadora, onde tem finalmente um teto, ao final de tantos anos a ter o betão da Maternidade Alfredo da Costa a cobrir-lhe o sono.

“É que não desejo a rua nem ao pior inimigo.”

Vem de longe só por uma refeição quente. E, claro, o abraço às voluntárias Inês e Beatriz, caras conhecidas que “são como família”. “Mas acha que se eu arranjasse um trabalho, vinha aqui?”

Mais tarde, e já com a carrinha da CASA de portas fechadas, “Leonor” (nome fictício), de 62 anos, interrompera a despedida de Rui e das voluntárias, para pedir comida. Veio de Loures e esperava que a viagem não tivesse sido em vão.

Não foi. Mas pão não pode levar, que “a boca anda uma miséria” desde que a placa dentária se partiu. Safa-se com cola, mas “lá fica o sabor da cola na boca”. Comer não só é caro, como se tornou quase impossível.

Rui vem todos os dias da Amadora até ao Saldanha, para jantar. Foto: Inês Leote

Com a ajuda alimentar concentrada na cidade de Lisboa, não é de estranhar que tantos façam o sacrifício de quilómetros para aqui chegar. E a crise habitacional, com os preços das casas ou até quartos cada vez mais altos, tem alargado o número de pessoas que se sujeita a esta longa caminhada até Lisboa.

Que o diga Mónica António, técnica de serviço social da Associação Auxílio e Amizade. Além de uma loja social (com vestuário, utensílios de cozinha e mobília), fazem a distribuição da ajuda alimentar em cabazes de frescos (semanal) e secos (mensal), articulado com a Santa Casa. Apoiam diretamente e em permanência 70 famílias em pobreza, com e sem casa, mas há outras que vêm pedir apoio mais pontual.

E, “este mês (outubro), temos tidos muitos pedidos de cabazes mais pontuais, são sobretudo pessoas que tiveram de sair de Lisboa e vêm aqui pedir ajuda”, conta.

Ao todo, deram já seis destes cabazes. Parece pouco? “Parece pouco, mas é muito significativo, porque num ano inteiro se houvesse uma ou duas pessoas a vir pedir mais pontualmente, numa urgência, era já muito”.

Associações temem que a falta de apoios torne a distribuição mais escassa. Foto: Inês Leote

Faltam apoios para que não falte comida

Não é pouco, mas as associações têm de facto vivido com algum receio de que a comida seja, essa sim, pouca para o necessário. Nurjaha Tamaland diz que “nem sempre a comida chega para os voluntários fazerem todas as paragens previstas”. Travam o passo no Martim Moniz ou em Santa Apolónia e não podem seguir, porque o carro já vai vazio. “Sem apoios do Estado, é difícil. Mesmo a Câmara poderia ajudar mais, pelo menos no apoio ao gasóleo, porque aqui os voluntários levam o próprio carro.”

E “mesmo as doações do Banco Alimentar têm diminuído”, lamenta Mónica António, da Associação Auxílio e Amizade. Eles que contam com o Banco Alimentar para cerca de 80% do que distribuem – o resto são parcerias, donativos. “Ainda não faltou comida, mas é uma grande preocupação. Será que vai faltar?”

Em alguns dias e casos, a comida já não chega. E há voluntários a queixarem-se de episódios mais agressivos por parte das pessoas que estão na fila. Diz Nuno Jardim, da CASA, que “as pessoas estão mais nervosas, apreensivas”. Pela falta de comida, mas também “por tudo o resto, pela falta de apoios e pelo ponto a que a cidade chegou”.

“Não nos podemos esquecer que estamos a falar de dignidade” – e não de números, como tantas vezes nos parece ser a palavra “inflação”. Os que pedem nestas carrinhas são as faces humanas desses números da pobreza.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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