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Ricardo Viel folheia lentamente o álbum de fotografias, como quem busca uma memória antiga. Nas páginas, a silhueta de José Saramago desfila em série, em vários formatos, a cores, a preto e branco. “Tenho a impressão de que vi mais fotos de Saramago do que dos meus pais ou dos meus avós”, diz, sem levantar os olhos.

É bem provável.

Desde 2013, o brasileiro é o diretor de comunicação da Fundação José Saramago, o responsável por preservar e divulgar a memória do maior escritor português, Nobel da Literatura em 1998, um feito de que Viel revelou os bastidores no livro Um país levantado em alegria (Porto Editora), publicado por ocasião dos 20 anos da atribuição do mais importante prémio literário internacional a Saramago.

Ricardo Viel: “Tenho a impressão de que vi mais fotos de Saramago do que dos meus pais ou dos meus avós”. Foto: Rita Ansone

Um relato narrado com a intimidade de alguém que é como se fosse da família, a quem foi concedido o privilégio e a responsabilidade de passar horas por dia imerso entre fotografias, documentos e cartas enviadas e recebidas por Saramago, um tesouro encerrado em ficheiros armazenados no último andar da Casa dos Bicos.

Viel tem a consciência do tamanho da sua missão, sempre teve, desde o início, quando a jornalista, escritora e companheira de Saramago, Pilar del Río, decidiu entre tantos potenciais candidatos portugueses, confiá-la a um brasileiro.

“Quando a Pilar me convidou, aceitei na hora. Só depois, vi que era uma loucura”, relembra o jornalista, nascido em São Paulo, há 42 anos.

E assim lá se vai quase uma década de “loucura”.

A gravata “herdada” de Saramago

O passeio pelo “álbum de família” prossegue até que o indicador de Viel para sobre uma das fotografias. “Está vendo essa gravata? A Pilar me deu de presente”, conta, abrindo um raro sorriso, a fala pontuada por pausas, em busca da melhor palavra.  

A gravata usada por Saramago, “herdada” posteriormente por Ricardo Viel. Foto: Fundação José Saramago

A prenda especial “herdada” de Saramago foi utilizada uma única vez, justamente no lançamento do livro sobre o Nobel, na Biblioteca Nacional.

Apesar da sensação de saber mais sobre a vida do escritor do que a dos próprios pais, Viel só se encontrou uma única vez com Saramago e, mesmo assim, à distância. Foi em 2003, durante a participação do português no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. “À época, já tinha lido tudo dele”, diz o brasileiro, que na altura estudava Sociologia.

“Na mesma mesa, estava o Eduardo Galeano, de quem eu também já havia lido tudo. Foi um dia marcante. Lembro-me de anunciarem o nome de Saramago e de ele ser aplaudido por minutos, mesmo antes de abrir a boca”, recorda o antigo estudante de Sociologia, que acabou por se formar em Direito, antes de enveredar pelo Jornalismo.

Uma trajetória que conta com passagens pela Folha de S. Paulo e colaborações frequentes em meios de comunicação de grandes circulação e reputação, como o jornal O Globo e a revista Piauí, entre outros. Um percurso que o levou a cruzar o caminho de Pilar, em 2012, ao escrever um perfil da espanhola para o diário carioca.

“Lembro-me de anunciarem o nome de Saramago e de ele ser aplaudido por minutos, mesmo antes de abrir a boca.”

Ricardo Viel

“Estava a viver em Salamanca, onde fazia um mestrado em Estudos da América Latina. Durante a Páscoa, estive em Lisboa e aproveitei para escrever um perfil da Pilar para O Globo. Foi aí que de certa forma tudo começou”, recorda Viel.

Menos de um ano depois, a entrevista acabou por mudar a vida do brasileiro.

Ricardo Viel, jornalista, nascido em São Paulo, há 42 anos. Foto: Rita Ansone

Uma guinada com a intermediação do realizador português Miguel Gonçalves, autor do documentário José e Pilar. “Em 2013, havia concluído o mestrado e, em nova passagem por Lisboa, estive na Fundação Saramago para me despedir das pessoas que conheci, entre elas o Miguel e o Sérgio Machado, diretor da Fundação, que quis saber o que iria fazer da vida”, conta Viel.

“Respondi-lhe que voltaria ao Brasil e iria procurar trabalho. Na altura, não sabia, a Fundação estava sem um profissional para a área da comunicação e o Sérgio perguntou-me se não estava interessado na função. Disse que a Pilar gostara imenso do perfil que havia escrito para O Globo e que deveria me candidatar”, completa.

A sorte estava lançada.

Uma temporada em Lanzarote

O trabalho de Ricardo Viel na Fundação José Saramago não começou no Campo das Cebolas, mas a milhares de quilómetros de Lisboa, em Lanzarote, nas Canárias.

“A Pilar nunca me disse claramente, mas acredito que ela desejava que fizesse uma espécie de imersão no universo de Saramago”, arrisca o jornalista, que passou três meses ininterruptos hospedado na residência do casal.

Registo dos tempos de Lanzarote: imersão no universo de José Saramago: Foto: Arquivo Pessoal

A rotina dividia-se entre o trabalho na casa-museu, caminhadas solitárias e momentos de reflexão. “No início, pensei que não ia suportar a monotonia, mas com o passar dos dias aprendi a respeitar e a gostar da atmosfera do lugar, a admirar sua beleza esculpida em pedra, com ares de paisagem lunar, e um vento que não dava tréguas.”

A imersão no universo de Saramago acabou por dar um sentido a Lanzarote na vida do Nobel. “Que pese o cliché, é um lugar onde o tempo realmente passa mais lentamente. E para quem tem uma personalidade solitária e reflexiva é um paraíso”, diz Viel, que também fez da ilha o ponto de partida na própria carreira de escritor.

“No início, pensei que não ia suportar a monotonia, mas com o passar dos dias aprendi a respeitar e a gostar da atmosfera do lugar.”

Ricardo Viel

Uma das funções do brasileiro em Lanzarote foi organizar a correspondência de Saramago. Grande parte do ofício traduziu-se em catalogar as centenas de cartas recebidas pelo português, principalmente as de congratulação pelo Nobel. Mas no oceano de missivas, Viel acabou por encontrar um pequeno tesouro.

O garimpo epistolar rendeu o primeiro livro do jornalista, Com o mar por meio (Companhia das Letras), publicado em 2017, uma compilação das cartas trocadas entre José Saramago e o escritor brasileiro Jorge Amado. Numa delas, o português, antes de ser galardoado, sugere ao baiano que o Nobel bem que poderia ser dividido entre os dois.

A Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago: no quarto andar, um arquivo guarda as memórias do Nobel português. Foto: Rita Ansone

Viel reconhece que sabe bastante sobre a vida do Nobel português, mas não se considera um especialista na obra de Saramago. “Não quero entrar nessa bola dividida”, diz, recorrendo ao jargão futebolístico. “Essa liga é a dos académicos, não a minha. O que eu quero é que o nome do Saramago apareça, não o meu.”

Um brasileiro levantado em alegria

As cartas lidas naqueles três primeiros meses de trabalho em Lanzarote retornariam em Um país levantado em alegria. O livro revelou também um furo jornalístico, ao apresentar Amadeu Batel, um professor que à época do Nobel vivia em Estocolmo, o primeiro português a saber que o patrício fora o escritor eleito naquele ano.

O livro conta que Batel fora convocado pela Academia Sueca dias antes do anúncio oficial. Teria duas missões: a primeira, traduzir do sueco para o português a justificação do júri para a escolha de Saramago; a segunda, intermediar os contatos com os familiares, amigos próximos e editores, sem revelar a decisão da Academia.

Ricardo Viel por entre os arquivos do último andar da Casa dos Bicos. Foto: Rita Ansone

Entre outros detalhes, Viel narra a surreal ligação telefónica Estocolmo-Lanzarote entre Bateu e Pilar, na véspera do anúncio do Nobel, quando o português apelou para que a espanhola convencesse o marido a desistir de um voo que saía de Frankfurt – onde ocorria um festival literário – com destino a Madrid, sem revelar o real motivo para o cancelamento.

“O Amadeu Batel estava de passagem em Lisboa e fui ter com ele. Ninguém sabia da história, do segredo guardado por duas décadas, até ele decidir contá-la. A Academia exige silêncio dos envolvidos, mas ele considerou que, após tanto tempo, era seguro revelar os bastidores de um momento de alegria e tensão vivido por ele”, recorda.

“Houve e ainda há uma certa resistência entre os portugueses, mesmo que agora seja menor.”

Ricardo Viel

Aceder a detalhes da vida de Saramago tem sido uma rotina para Viel, hoje mais acostumado à missão confiada por Pilar e também mais confortável com o facto de ele, um jornalista brasileiro, de entre tantos homólogos portugueses, ter sido o eleito como guardião da memória do mais importante escritor de Portugal.

“Houve e ainda há uma certa resistência entre os portugueses, mesmo que agora seja menor”, revela Viel. “Mas isso não é uma característica exclusiva portuguesa, e sim, dos homens. Se um estrangeiro ocupasse o mesmo cargo na Casa Jorge Amado, por exemplo, causaria a mesma estranheza”, reflete.

Para Viel, pesa ainda o facto de o Brasil geopoliticamente estar numa posição considerada inferior à de Portugal. “Se fosse um jornalista estrangeiro francês ou suíço, certamente a resistência seria menor. Assim como no exemplo da Casa Jorge Amado, um americano seria mais bem recebido na função do que um cabo-verdiano.”

O facto de ser fluente no espanhol ajudou-o a ganhar pontos com a espanhola Pilar, mas não se limitou a isso. “Se era um desconhecido em Portugal e desconhecia o mapa dos media portugueses, por outro lado, estava familiarizado com o cenário mediático espanhol e, mais ainda, sabia como atuar com a imprensa do Brasil”, reforça.

Apenas Ricardo Viel

A última incursão de Ricardo Viel pelas memórias de José Saramago rendeu o impressionante livro Saramago, os seus nomes: um álbum biográfico (Porto Editora), a belíssima, luxuosa e volumosa edição lançada em 2022 escrita a quatro mãos com o escritor e editor argentino Alejandro García Schnetzer.

O jornalista Viel acabou silenciando a voz do escritor Viel: “As tentativas de um romance eram uma cópia mal feita de Saramago”. Foto: Rita Ansone

A publicação, em formato de fotobiografia, mais do que seguir os passos de Saramago através de imagens emolduradas por textos escritos pelo próprio escritor português, conta um pouco ou muito da história mundial do século passado e de suas contradições. Quase como uma enciclopédia assinada por Saramago.

“Foi um trabalho exaustivo, que levou três anos de pesquisa e escrita”, conta Viela. São quase 500 fotografias, não só do arquivo da Fundação, mas também de fotógrafos de todas as partes do mundo. Muitas delas, inéditas. “A ideia era identificar uma foto, entrar em contato com o fotógrafo e saber se havia outras semelhantes fruto da mesma sessão fotográfica.”

Foi assim que surgiu a belíssima imagem da capa do livro. “O fotógrafo fez uma sessão de fotos para uma revista cor-de-rosa, mas para além das fotos triviais, deu um passeio com o Saramago por Lanzarote e registou o momento em que ele parou para admirar uma pedra vulcânica na praia”, conta Viel.

Saramago observa uma pedra vulcânica na capa de um dos livros escritos por Ricardo Viel. Foto: Rita Ansone

Só depois de ver a imagem é que Pilar se lembrou de que Saramago trouxe aquela pedra para a residência do casal em Lanzarote. Hoje, a co-estrela da capa do livro é um dos destaques da exposição A Oficina de Saramago, em cartaz até 8 de outubro, na Biblioteca Nacional.

Curiosamente – embora seja até expetável –, uma década de garimpo nas memórias de um Nobel da Literatura acabou por emudecer a voz literária de Ricardo Viel, que um dia chegou a ter pretensões de também ele entrar na seara da ficção. “O problema é que tudo o que fiz até agora não presta”, avalia.

Viel conta que na última ida ao Brasil, em junho, fez um garimpo nas suas próprias memórias e reencontrou um antigo caderno de anotações, o seu livro azul. “A minha mãe havia empilhado umas coisas para que dissesse o que deveria ir ou não para o lixo. Entre elas, estava o meu antigo caderno de anotações”, diz.

“Estava tão influenciado por ele que as minhas tentativas de um romance eram uma cópia mal feita de Saramago.”

Ricardo Viel

O jornalista releu os escritos de duas décadas atrás. “Era onde apontava as frases que lia nos livros e fiquei impressionado com as tantas que anotei de Saramago”, relembra. No caderno azul, Viel também rascunhava as ficções. “Mas estava tão influenciado por ele que as minhas tentativas de um romance eram uma cópia mal feita de Saramago.”

Uma forma de livrar-se de uma certa– nas palavras do célebre crítico literário Harold Bloom – “angústia de influência”, é voltar a tentar a seguir os próprios passos. Já publicado no Brasil e em Espanha, Sobre a ficção – história com romancistas, é o primeiro livro do autor sem a omnipresença de Saramago. “O nome dele só aparece na badana, quando me apresenta como diretor de comunicação da Fundação”, conta.

A secretária usada por José Saramago, em exibição na Casa dos Bicos. Foto: Rita Ansone

O cuidado em buscar uma autonomia foi a lição aprendida com um velho repórter da Folha de S. Paulo. “Um dia, ele botou a mão no meu ombro e disse para ter cuidado de a Folha não virar meu apelido, de me apresentar sempre como o Ricardo da Folha, pois quando de lá saísse, meu telefone não mais tocaria”, recorda-se.  

Uma lição que o brasileiro, após quase uma década como o guardião da memória de um dos pesos-pesados da literatura universal, ainda segue, evitando ao máximo ser reconhecido como o “Ricardo da Fundação” ou o “Ricardo de Saramago”.

Por mais modesto que pareça, e para que no futuro o telefone dele continue sempre a tocar, quer continuar a ser apenas Ricardo Viel.

O centenário do nascimento do escritor português José Saramago só acontecerá a 16 de novembro de 2022, mas as celebrações começaram um ano antes.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Maravilhosa reportagem, artigo sensível, leve e carinhoso. O Álvaro é um jornalista incrível e fez a gente conhecer e ficar curiosa sobre as obras do Ricardo Viel que é outro magnífico no seu talento e humildade. Muito obrigada! Parabéns!

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