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Uma parceria com o Festival Iminente

“Um hipopótamo, dois hipopótamos, três hipopótamos”. A técnica é contar cinco, até que os olhos já não doam quando largam o sol para vir para a escuridão que se faz dentro desta sala, forrada a enormes panos negros. O momento da entrada pede paciência – com pressa, o mais certo é que a íris do olhos ainda esteja a meio caminho de fazer o seu trabalho e que tropecem uns nos outros, cegos.

Mas a pressa é muita.

“Revelar uma fotografia é um processo moroso. E eles, que estão a três mil à hora, não compreendem porque demora tanto até vermos uma fotografia.” Foi no dia anterior que as tiraram, retratos uns dos outros em câmaras analógicas, que mais lhes parecem máquinas paleolíticas, explica o professor Ivo Relveiro.

O que se vai passar aqui? – sussurram à procura de uma resposta. Um truque de magia? Cinema?

Os workshops Festival Iminente decorreram em cinco bairros diferentes e o PER 11 foi um deles. Foto: Inês Leote

O que quer que seja, já se sabe, exige paciência. Assim era o processo de criar uma fotografia no passado. E o passado estava a ser revelado aqui, no PER 11, na freguesia de Santa Clara, para estas crianças e estes jovens moradores do bairro, para quem o passado já nasceu digital.

Este é um dos que albergaram dezenas de famílias vindas de bairros de barracas espalhados pela cidade. PER é o que ficou conhecido como o Programa Especial de Realojamento: prédios de vários andares, em betão, partilhados entre pessoas que até então viviam nas mesmas precárias condições.

Cada bairro novo ganhou o seu número. Este é o 11.

Um bairro antes dividido pela etnia e pela droga. “Como o PER 11 é uma mistura de vários bairros, o princípio foi complicado, foi quase um choque de civilizações. Temos uma comunidade cigana aqui de Santa Clara que até conhecíamos bem, mas veio uma da Ajuda que chegou com uma postura de ‘isto é nosso’. O pessoal do meu bairro até era muito calmo e deixou andar. Até certo ponto”, conta Mauro Wah, morador e dinamizador comunitário.

O bairro dividiu-se.

As crianças de etnia cigana estavam proibidas de brincar com as de pele mais escura e vice-versa. Até que um campo de futebol ajudou a mudar a sina destes moradores, ao juntá-los na mesma equipa. À volta de uma bola, uniram-se as comunidades que ali residiam de costas voltadas. Assim nasceu a atual associação de moradores.

Mas este ainda é um bairro que sente ter a cidade de costas voltadas para ele, isolado da restante geografia.

Por isso é que o Festival Iminente se tornou, ao longo deste ano, não só um festival de quatro dias, mas um motor de mudança, ao levar a arte a cinco bairros sociais de Lisboa, com 16 workshops – Alta de Lisboa (PER 7 e PER 11), Bairro do Rego, Vale de Alcântara e Vale de Chelas. Há música, dança, cinema, artes visuais, performance e sensibilização ambiental, nesta iniciativa à qual chamaram Projeto Bairros.

A Mensagem é media-partner do festival Iminente, onde fará jornalismo ao vivo. Nos dias anteriores, serão publicadas cinco reportagens sobre estes workshops, uma por bairro.

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2022/09/WORKSHOP-FOTOGRAFIA-BAIRRO-PER-11_FINAL.mp4
Vídeo: Inês Leote

Aprender a colher frutos na espera

Mauro Wah mora no PER 11 e dinamiza atividades para crianças e jovens do bairro. Foto: Inês Leote

Não há segredos de cozinha, mas se a transformação deste bairro é dado adquirido – primeiro um lugar onde as diferentes comunidades se uniram, depois um lugar ativo para os miúdos e graúdos crescerem -, a paciência é a palavra-chave.

Com 43 anos, Mauro Wah começa a pensar como passar o legado da associação aos mais novos. Para si, passa por partilhar a receita que nos ensina a esperar, mesmo que as gerações seguintes pareçam inaptas para viver a menos de 120 quilómetros por hora.

Dois artistas vieram ensinar-lhes o que pode acontecer quando esperamos, através da arte da fotografia analógica.

A ideia nasceu, primeiro, de Fidel Évora, 37 anos, artista plástico – começou no graffiti, passou pelo design gráfico e parou aqui, no que é hoje. Desafiado pelo festival Iminente, em vez de fazer algo apenas centrado em si, criou um pequeno curso criativo de várias disciplinas que fizesse estas cerca de 30 crianças sair do espaço de conforto delas.

Fidel Évora, coordenador deste workshop, é artista plástico. Foto: Inês Leote

Este desafio que lança aos outros não lhe é estranho. Durante três anos, Fidel esteve em territórios mais desfavorecidos, como o que encontra aqui, no âmbito do programa “Escolhas”, o primeiro contacto que teve na comunidade, para ensinar artes – além da fotografia, a pintura e a escrita. E tudo se transformará numa peça para ser exposta no Iminente.

Ao sonho, juntou Ivo, o homem certo nesta missão de abrandar o passo aos irrequietos. Ele que “precisa sempre deste tempo, do tempo para fazer e para ver” – por isso é que o seu trabalho atual é centrado na fotografia analógica. Formado em Belas Artes, nunca pensou ser professor, até o ser, na Escola António Arroio.

Ivo é professor de fotografia na escola António Arroio. Foto: Inês Leote

“Telemóveis e câmaras para baixo. É uma fonte de luz e pode estragar o processo.” Ivo está a pôr os químicos diluídos em recipientes baixos e planos.

Depois de impresso o negativo, ampliado numa espécie de telescópio, numa folha branca de papel fotográfico, o projeto entra numa das tinas. Mergulha o papel e agita um pouco lá dentro, durante um minuto. Entrou branco e deverá sair com cor. Passa de tina em tina, até sair da última, com químico fixador, para assumir a forma de uma fotografia.

O trabalho de Ivo tem sido, sobretudo, um trabalho de gestão de expectativas. “Quando viram os negativos, ficaram: ‘e agora?’. Hoje, vamos fazer a ampliação” – que é o mesmo que dizer tornar uma fotografia palpável e pronta para um passepartout, por exemplo. O que também lhes vai parecendo analógico. 

“A parte mais difícil é gerir a ansiedade.” A de tirar uma fotografia e não poder ver logo o resultado. E se ficaram mal no retrato? Que sentido faz esperar tanto, se no telemóvel é imediato? E a de esperar para a ter num tamanho em que os amigos e a família também possam vê-la.

Estas máquinas e técnicas do passado “obrigou-os a pensar na ação” – a demorar nos gestos, a racionalizar mais o que fazem e porque fazem.

Finalmente, já cá fora, debaixo do sol, veem o resultado da calma e da paciência: fotografias de um bairro sorridente, brincalhão, com jovens que, um dia, podem vir a ser agentes de mudança no bairro e na cidade.

O Festival Iminente decorre entre os dias 22 e 25 de setembro, na Matinha, em Marvila. Veja aqui o programa dos quatro dias


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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