escrita
Ilustração: Lia Ferreira

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No primeiro semestre de crónicas para a Mensagem de Lisboa, escrevi sobretudo textos de opinião e disciplinei-me para que fossem sempre textos sobre Lisboa. Mas por vezes senti-me tentado por temas que não são exclusivamente lisboetas, como a prostituição ou o debate em torno das questões LGBTQIA+, e para cumprir a regra apenas lhes acrescentei algum episódio autobiográfico passado na capital. Como este truque tem limitações, mais vale admitir logo que a crónica de hoje é tão relevante para Lisboa como para Tombuctu ou Ourique.

Se um escritor (cronista, romancista, ensaísta, etc.) vos disser que não alimenta fantasias sobre o impacto da sua escrita no futuro, estará provavelmente a refugiar-se na falsa modéstia. Qualquer escrito tem a possibilidade de sobreviver ao seu autor, o que nos deixa  reféns das ilusões de grandeza.

Mas um cronista também sabe que a estatística corre contra si, pois já só os académicos e algum literato de tipo enciclopédico lêem os cronistas dos anos 50 do século passado e idêntico esquecimento está reservado aos textos de Vasco Pulido Valente, Clara Ferreira Alves, Miguel Esteves Cardoso e outros cronistas que hoje consideramos incontornáveis.

Mesmo o desejo modesto e doméstico de que as minhas filhas de 6 anos um dia lerão o que o pai escreveu é uma fantasia. Se esta percepção aguda da irrelevância futura da escrita não me demove, é porque a escrita tem valido no presente, como vício, forma de estruturar o pensamento e aproximação a pessoas que, se não fosse a escrita pública, teriam passado ao largo.    

Por causa de um texto sobre a actriz holandesa Sylvia Kristel, que se tornou célebre com o filme Emmanuelle (1974), iniciei uma breve mas intensa troca de correspondência com um escritor português há muitos anos emigrado, quando ele começava a ser conhecido em Portugal.

Por causa de um blog e laços ao Alentejo, conheci o cronista português com a prosa que mais admiro. Por causa de outros blogs e crónicas, tenho hoje uma constelação de contactos, que, não sendo propriamente amigos próximos, são referências que estimo pela forma de pensar e escrever, e de quem tenho o privilégio de receber sugestões, elogios, reparos e raspanetes.

A escrita é um superpoder que estende a presença física e dela nos liberta. Reparamos na extensão logo ao escrever o primeiro recado, mas da libertação só damos conta quando percebemos que o registo escrito nos pode tornar mais frontais e honestos, capazes de comunicar o que a vergonha ou outra emoção nos impede de transmitir verbalmente.

Uma das minhas filhas já pratica esta forma de escrita, pois há uns dias dei com ela no meu quarto a acabar um desenho de um coração partido em que se lia “papá não intra” e “papá mao”, na ressaca de uma conversa nossa dura sobre uma mentira dela.

Vivi recentemente um outro desses momentos em que se percebe logo, enquanto ainda decorrem, que serão inesquecíveis, sendo esta rara sobreposição do presente e futuro quase uma experiência extracorpórea: observamos de fora, tirando apontamentos, o que nos está a acontecer. Foi um telefonema em que alguém me explicou que não poderia mais honrar um compromisso devido a um problema de saúde. Não se esclareceu que problema seria, em que fase estava e as estatísticas de sobrevida e afins, porque logo se instalou um pudor que censura todas essas questões… Um pudor de machos, se é que ainda nos permitem estas expressões que ecoam estereótipos masculinos.

Limitei-me a ouvir, gerindo os silêncios, para que não soassem a desinteresse, mas sem nunca denunciar a minha curiosidade natural, dando ao meu interlocutor a iniciativa. Senti – talvez erroneamente – que ele me contava novidades que ainda não partilhara com pessoas muito mais próximas, não só para se libertar do compromisso, mas talvez ensaiando com um quase estranho as conversas delicadas que o esperavam com os seus, tal como aquelas companhias de teatro que vão rodar a peça em lugares remotos antes da estreia na capital. Quando desligámos, senti um enorme vazio, pois não estive à altura da confiança e generosidade com que aquele homem, mais velho do que eu, me havia tratado.

Uma das poucas vantagens da meia-idade é o aparecimento de duas faixas etárias muito cativantes: os adultos muito  mais novos, entre os 20 e os 30, e os mais velhos, acima dos 65. Os amigos da infância e adolescência, isto é, os amigos da nossa geração, persistem, mas creio não ser excentricidade minha revelar uma curiosidade particular por adultos de outras gerações, o que provavelmente resulta de uma noção aguda da passagem do tempo, ausente quando somos mais novos.  

Tento agora corrigir numa crónica pública, sem qualquer garantia de que será lida pelo meu destinatário, a minha frieza durante o telefonema, desejando-lhe boa sorte, mas sem lhe agradecer já a atenção que me concedeu nos últimos meses, pois conto fazê-lo daqui a muitos anos. E se há uma mensagem menos privada a transmitir, será esta: usem a escrita para reatar relações interrompidas se já passou o período de nojo necessário para anular a falha que originou o afastamento. Não precisa de ser uma crónica pública, basta até que o superpoder se manifeste num sms rematado a emoticon. 


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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