homem branco
Ilustração: Lia Ferreira

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Uma recente campanha da Fox Life e da ILGA encheu as ruas de Lisboa com definições  ABCLGBTQIA+. Muitos repararam no pudor com que “homossexual” foi definido, sem mencionar a atracção sexual, um contraste evidente com as definições que encontramos nos dicionários e inclusive em glossários de organizações LGBTQIA+ + (e.g., 1, 2).

O tema foi oportunamente tratado por Carmo Afonso, no Público, a 20 de Junho, e parecia arrumado. Mas nos últimos dias vários cronistas de peso voltaram aos temas da linguagem inclusiva, política identitária e identidade de género, reacendendo o debate.  

José Pacheco Pereira, que criticou a linguagem inclusiva e a pulsão identitária, foi muito criticado em artigos no Público de Joana Mortágua, Joana Cabral e Luísa Semedo, tendo as três sido muito coincidentes, tanto na expressão da desilusão que o texto de Pacheco Pereira lhes causou como no reparo de que a visão do cronista é a de um privilegiado que nunca teve de afirmar uma identidade para assegurar os seus direitos.

Pacheco Pereira seria apenas mais um homem branco, heterossexual, cis e monogâmico a dizer coisas de “homem branco, etc.” (esta longa definição não é exaustiva, admitindo mais qualificativos em função do debate, como “ex-colonizador”).

E um termo sofisticado veio à tona: Pacheco Pereira seria um  PUN, isto é, uma “Pessoa Universalmente Neutra”.

Também eu sou um PUN e um homem branco, heterossexual, cis e monogâmico. Uma vez dissipada a alusão à flatulência para que o acrónimo remete, soa tudo muito aborrecido, mas assumo e até reclamo essa identidade.

O termo “homem branco, etc.” está tão na moda que talvez até numa sociedade etnicamente homogénea como a Finlândia seja hoje comum como acusação. O seu uso tem vantagens evidentes. A primeira vantagem é a experiência empática que proporciona.

Quando me definem como um “homem branco, etc.”, colam-me todos os estereótipos negativos que podemos ler em letra pequenina neste rótulo, como a prepotência patriarcal, a masculinidade tóxica, a infidelidade, a violência doméstica, a agressividade, o filistinismo da “bola, mulheres e copos”, a falta de inteligência emocional, os maus hábitos de higiene, etc.

Só este desconforto nos permite ter uma ideia, ainda que apenas aproximada, daquilo que sentem as pessoas que são imediatamente rotuladas, como os “ciganos”, logo associados ao crime e ao desrespeito da cidadania até prova em contrário. 

A segunda vantagem é o direito a uma “fala”, respeitando as regras do novo fórum, em que todos querem falar de púlpitos com acesso exclusivo. Há boas razões para recusar esta forma de debater no espaço público, que conduz ao tribalismo e a posições absurdas incriticáveis, mas podemos provisoriamente aceitar as regras do jogo, se essa for a única forma de expressar o nosso desacordo.

Ao reclamar o estatuto de “homem branco, etc.”, ao menos ganho o direito de falar como “homem branco, etc.”. Ora, como deve falar um “homem branco, etc.”?

Deixo 10 sugestões, bem ciente da irritação que provoca um discurso prescritivo megalómano à base de mandamentos, mas frisando que me dirijo apenas aos “homens brancos, etc.”.

  1. Não te vitimizarás.
    Pacheco Pereira vitimizou-se e a sua reacção causa alguma vergonha alheia. A propagação do termo “homem branco, etc.” não chega para, da noite para o dia, equiparar as mundivivências de homens e mulheres, brancos e negros, heterossexuais e homossexuais, ou cis e trans.
    Pegando num exemplo de Pacheco Pereira, num país de maioria branca, “preto” nunca será equivalente a “branquela”. Do mesmo modo, ainda faz sentido que haja um “orgulho gay” e não faria sentido reagir com um “orgulho hetero”, porque um heterossexual não tem de sair do armário; as circunstâncias históricas contam e as simetrias na sociedade são raras.
  2. Não irás em modas.
    Alguns activistas das causas da identidade de género estão a ir longe demais. Quando Martina Navratilova, uma lésbica e genial ex-tenista, é proscrita por afirmar que as mulheres trans não devem poder entrar nas provas desportivas de alta competição das mulheres, deve soar o alarme.
    Não há um consenso sobre o tema e as entidades reguladoras ainda estão numa fase de afinação, tendo há poucos anos baixado a concentração máxima de testosterona no sangue das atletas que é permitida. Sendo certo que a terapia hormonal não reverte totalmente as alterações corporais da adolescência, como o aumento da massa muscular e o desenvolvimento do esqueleto, são os trans-activistas que têm ónus da prova. O problema é complexo porque a forma mais convincente de manter a competição justa seria prevenir a puberdade masculina, isto é, iniciar a terapia hormonal  muito cedo.
    Não reconhecer estas evidências por medo da acusação de transfobia ou desejo de ser visto como um progressista seria ceder a pretensões eventualmente contraproducentes. Porque não é impossível que, num desporto de combate, um acidente grave entre uma mulher cis e outra trans deite por terra as pretensões dos trans e diminua o capital de simpatia entretanto conquistado.
    Um “homem branco, etc.”, por não estar directamente envolvido neste debate, está no púlpito certo para lembrar (mas ver o mandamento seguinte) que não podemos assegurar direitos a uma minoria atropelando os direitos das mulheres.
  3. Não serás um Zelig (uma personagem de ficção criada por Woody Allen com uma ânsia de aprovação tão grande que se transmuta (fisicamente) naqueles que o rodeiam). 
    O activismo do “homem branco, etc.” ao serviço de outras identidades deve ser q.b. Não se trata de um incitamento ao egoísmo mas de prevenir que causas justas sejam usurpadas pelo “homem branco, etc.”
    Os homossexuais (e todos nós) têm muito a agradecer a Miguel Vale de Almeida por ter sido tão eloquente e empático nos debates sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas também por ser homossexual, pois as conquistas sociais são mais sólidas quando lideradas por representantes das minorias directamente envolvidas. 
  4. Não revelarás insensibilidade social.
    Quando Ricardo Araújo Pereira faz trocadilhos de género (“homogeneral”) e José Diogo Quintela equipara um transexual ao “leite de soja” (que não é leite, blablá), não vale a pena cair na armadilha dos “limites do humor”, bastando que cada um avalie se a qualidade das piadas justifica a mossa que podem causar em minorias perseguidas e com tendência para a ideação suicida, tendo ainda presente que – por maiores que sejam as suspeitas sobre as noções de fluidez de género e afins que animam o debate actual  – a disforia de género tem uma base biológica documentadíssima.
  5. Não deitarás fora a criança com a água do banho.
    É natural recusar a imposição de novos pronomes e variações gramaticais. Somos muito territoriais em relação à língua e nenhum exemplo passado sugere que algum dia uma comunidade tão pequena como os trans consiga impor uma alteração radical na língua portuguesa.
    Mas a língua deve efectivamente ser inclusiva e a pressão social para que se torne menos discriminatória é benéfica.
    Há exemplos famosos avant la lettre de desincentivo ao uso de palavras com uma história ou origem problemáticas, como “raça” e “mongolismo”.
    Não se ganha nada em diabolizar a linguagem inclusiva. A discussão faz-se caso a caso.
  6. Terás visão de jogo.
    Há dois tipos de críticos da política identitária: os reaccionários e os outros. Os outros, como Pacheco Pereira ou Francis Fukuyama, são os mais interessantes. Eles temem que a política identitária leve a uma fragmentação da sociedade e estimule novos populismos, havendo já ciência política sobre o assunto.
    De resto, a vitória de Trump é por muitos vista como o resultado de uma mudança profunda, em que a separação clássica entre direita e esquerda, assente sobretudo em visões distintas do modelo económico de sociedade, foi substituída pelo choque das causas identitárias.
    Estes críticos não são incapazes de acompanhar os novos tempos, apesar de haver um fosso geracional óbvio neste debate, e merecem o benefício da dúvida. Afinal, um “homem branco, etc.” sem abrigo tem uma mundivivência muito mais distinta da minha do que um colega meu da universidade que seja homossexual.
    A velha noção de luta de classes não meteu os papéis para a reforma e olhar apenas para a causa identitária do momento retira visão de conjunto. 
  7. Serás curioso.
    Tudo o que envolva sexo desperta em nós uma enorme curiosidade. Ao sabermos da existência de pessoas que não se sentem confortáveis com o sexo que lhes foi atribuído à nascença, em vez da repulsa ou desconfiança devemos ficar intrigados.
    Porque o tema é fascinante de todas as perspectivas, sendo incompreensível ou até um pouco suspeito o enfado que muitos se apressam a publicitar sobre estes assuntos. E como os trans são mais raros do que os homossexuais e muito mais excluídos pela sociedade, não é frequente haver um amigo ou um tio transgénero que actue como guia e catalisador de empatia; será sobretudo pela leitura, os debates e os documentários que se fará a aproximação à comunidade trans.
  8. Serás crítico.
    Quase toda a literatura sobre a identidade de género é, de alguma forma, engajada. Mesmo a literatura científica sobre o tema, à partida mais isenta, muitas vezes pode ser associada a um dos pólos do debate. E qualquer alusão a consenso científico neste debate será provavelmente um abuso.
    Os mantras que hoje circulam sobre a diferença entre sexo (biológico) e género (social) são simplificações, porque no caso do género a clássica separação entre a influência do meio e da natureza (incluindo os genes e as hormonas) é muito pouco funcional.
    Acresce que ainda ouvimos ecos de velhos debates sobre a patologização do comportamento. Em termos de complexidade e implicações sociais, apesar de directamente relevante apenas para um número muito reduzido de pessoas, a conversa sobre a identidade de género é muito mais complexa do que a que decorreu há uns anos sobre os direitos dos homossexuais.
    É sempre tentador emitir uma opinião, mas uma opinião fundamentada dá uma trabalheira.
  9. Serás um utilitarista.
    No fundo, o que nos interessa maximizar? A felicidade de todos. Tem havido um esforço muito meritório de inclusão de pessoas que antes eram apenas vistas como doentes ou acidentes da natureza.
    O melhor exemplo é o movimento Neurodiversity, em que certas doenças neurológicas passaram a ser vistas como variações normais. Desde que não sejam admitidos delírios identitários, como o de um casal de surdos que reclamava o direito a um filho surdo, retirar o estigma da doença só pode ter boas consequências. São hoje vários os indivíduos com síndrome de Asperger que se tornaram celebridades (o inglês Daniel Tammet e o francês Josef Schovanec, entre outros) e trouxeram vozes verdadeiramente únicas à esfera pública.
    Desafiar a visão do sexo/género binário com um modelo alternativo mais fluido pode diminuir o sofrimento de muitos que têm vivido nas margens, cabendo depois à política assegurar que outros direitos não ficam comprometidos.
    E para combater a ideia de que esta abertura está assente na negação, pois muitos têm convicções fortes sobre o que um homem e uma mulher devem ser, talvez ajude pensar que a nossa interpretação da realidade, cristalizada e reforçada pela língua, é sempre um modelo e que todos os modelos são simplificações.
    O modelo do sexo binário funciona perfeitamente para 99% da sociedade, mas falha no caso dos intersexo, por exemplo.
    Não há grande ganho em insistir que estas excepções são anomalias. Será que queremos mesmo perpetuar o sofrimento só para manter o modelo imaculado? Não será mais nobre abrir a sociedade a pessoas marginalizadas e actualizar o modelo, introduzindo a ideia de gradiente, mas sem descartar os alicerces do modelo anterior, o que só provocaria reacção?
    A Física de Netwon ainda explica bem o que decorre à nossa escala, da balística ao lançamento de um foguete, apesar de ser hoje a teoria de Einstein que melhor explica a órbita de Mercúrio.
  10. Defenderás uma sociedade coesa.
    Uma “pessoa  universalmente neutra” é mais uma daquelas criaturas abstractas que só existem no bestiário dos académicos, mas ainda assim é o PUN quem está na melhor posição para funcionar como a argamassa da sociedade.

Caro “homem branco, etc.”, ter a argamassa por destino não será tão cativante como a possibilidade de um biopic em que surges como herói de uma guerra cultural. E só serás bem sucedido com uma boa dose de estoicismo, porque levarás pancada dos dois lados.

Activistas extremistas e reaccionários dir-te-ão o mesmo: que és apenas um cobarde a refugiar-se numa alegada complexidade para se desculpar por não ter uma posição mais assertiva. Mas podes imaginar-te como a pedra angular no ápice de um arco ou recorrer a qualquer outra fantasia narcísica que te vá dando ânimo.


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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4 Comentários

  1. Que magnífica ilustração da Lia Ferreira! (Não li a legenda do Vasco Barreiros, parece-me demasiado grande, mas a ilustração é mesmo muito boa.)

  2. Finalmente um texto sobre esta(s) matéria(s) que li até ao fim sem as manifestações de brotoeja de que, habitualmente, sou vítima.
    Serenidade, sensibilidade, bom senso e equilíbrio sem dramas, como aprecio.
    Lia na sua habitual excelência de traço.
    Parabéns a ambos.

  3. Ser “PUN” ou não ser?, eis a questão. Concordo com os autores destes 10 Mandamentos. Na minha opinião, os que opinam (??) são pagos para apresentar a sua visão das “coisas”, agora é só escolher quem melhor “opina” a nosso favor, e não “JPP” não defende a minha opinião sobre a Vida, pois é disso que se trata

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