Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

É natural que o Martim Moniz seja o teu lugar favorito de Lisboa. Quem é que pode não achar graça a esbarrar numa gyoza, tropeçar num pho, espetar-se contra um pad thai? Também gosto muito, em parte porque não me passa pela cabeça ir a um restaurante comer o mesmo que comia na casa da minha avó. Claro que há sempre um risco: o picante de um indiano não é igual ao nosso; sentamo-nos felizes da vida e já o piri-piri ou coisa parecida nos deu cabo da garganta.

Há dias, o Chega voltou a fazer uma bonita. Se eu fosse criativa, inventava aquela gente – o Chega metido num livro era best-seller pela certa, ou então atestado de loucura para a escritora. Um deles, Pedro Frazão, pôs-se, indignado, vê lá tu, a filmar-se em frente a uma prateleira do supermercado cheia de carne halal. Carne halal, não sei se sabes, é uma carne que é abençoada durante o abate, estando o animal, na altura da morte, virado para Meca. Antes do golpe final, o talhante pede autorização ao deus dele e faz por evitar o sofrimento do bicho. Ou seja, Quive, carne halal é carne. Se se evita o sofrimento, melhor assim, prato sem dor, mas o bife não há-de ser muito diferente do que não foi abençoado por ninguém. Enfim, Frazão indignado, ai Jesus, tanto halal, ai Jesus, tanta carne, ai meu Deus, que agora nem podemos comer pernas de cordeiros que, no momento da morte, não estavam virados para a Arábia Saudita. Uma pessoa farta-se de chalupas, mas se estiver de bem com a vida até se diverte com eles. Mais ou menos na mesma altura, chegou o seu superior, André Ventura, a insinuar que, daqui a pouco, nem podemos comer carne em Portugal, para não insultarmos os muçulmanos, que, diz ele, também não a comem. Decidam-se, pá: ou estamos inundados da carne que os muçulmanos comem dia e noite, ou estamos sujeitos a curgete com beringelas porque os muçulmanos nos impedem de chegar a proteína animal.

Juro-te que nunca vi gente tão sensível, gente tão cheia de lágrimas por causa de produtos no supermercado – pelo menos, nunca vi gente a queixar-se do que há; volta e meia, queixo-me eu por ir ao Pingo Doce e o stock de claras de ovo estar em baixo. É terrível, tenho de sair de lá com panquecas norte-americanas, café brasileiro, chocolate belga, queijo francês, iogurte grego, camarão moçambicano e abacate peruano, que são coisas típicas da gastronomia portuguesa. Quando cá vieres, hás-de experimentar. Dizem que o prato mais típico de Portugal é o bacalhau, mas isso é tanga, que toda a gente sabe que vem da Noruega.

Tu dizes que Portugal foi longe, mas ultimamente parece dominado por pacóvios que têm medo das frigideiras dos vizinhos. Por falar em vizinhos, no meu livro, homónimo, que sai esta semana (texto meu, ilustração pelo Nuno Saraiva), temos esta senhora que parece indignar-se com quem não põe coentros nas saladas:

Ilustração de Nuno Saraiva, in “Vizinhos”, de Ana Bárbara Pedrosa


Por falar em coentros, já experimentaste? Há para aí um boato, que não sei se é boato, que diz que, para muita gente, os coentros sabem a sabão. No meu palato, sabem a coentros, e nunca encontrei ninguém que os confundisse com uma barra de Zavaski. Talvez tu? Veremos quando cá voltares.

Nessa altura, vamos também ao ramen e à fruta. Um dos meus restaurantes preferidos é perto do largo do Martim Moniz, um chinês que, entre vários pratos, serve beringelas. Noutros sítios, nem sequer gosto de beringelas. Têm uma textura esponjosa e não sabem a grande coisa. Ora, o lugar não é coisa nada chique e uma amiga minha, a Rita, até costumava levar um frasco de Ajax, quando lá ia, para dar um jeito ao banco antes de se sentar, mas aquelas beringelas, misturadas com arroz pastoso, ou uma massa cujo nome não sei, e a que sempre chamei patelas, e a que outro amigo brasileiro sempre chamou linguinhas, é coisa para lavar a alma e levantar a alegria de viver. E depois seguimos para tu veres qualquer coisa portuguesa. Subimos a Almirante Reis, viramos à esquerda, pela Rua Nova do Desterro, e tomamos um café Flor da Selva torrado a lenha no Depozito, e se fores menino de doces ainda apanhas um picolé artesanal de melancia da Colé. A seguir, descemos de novo e metemo-nos no largo do Intendente, para ires à A Vida Portuguesa que ainda não viste: depois de tanta coisa asiática, posso pôr-te a olhar para garrafas de azeite, sardinhas enlatadas, chocolates Arcádia, chás da Companhia Portugueza (ya, com z!), e se quiseres ir a uma garrafa de Medronho vais sozinho, que eu sou da equipa Ucal. Ao escrever isto, acabo de reparar que não há Ucal lá, tenho de falar com a Catarina. Depois, se ainda tiveres pernas para isso, que tu és gajo de se queixar destas subidas, desta Lisboa aos ziguezagues, podemos ir à loja do Chiado olhar para garrafões – nunca conheci ninguém que olhasse para um, feito em Portugal, e pudesse sacar da cartola uma história sobre organização familiar em Moçambique, mas também não é à toa que és um romancista do caraças.

Mudando de assunto, que isto contigo é velocidade a mais, e quase tenho de tirar duas semanas para responder a uma carta tua, fiquei um bocado confusa com o lobolo – tu dizes que, depois de cumpridos os requisitos, os casais ficam casados, mas não entendo, e perdoa-me a pergunta à europeia: assinam-se papéis? E, se os assinam, qual é a diferença entre isso e um casamento? Aqui é um bocado diferente, claro: se alguém quisesse dar galinhas aos futuros compadres, é bem possível que os futuros compadres não tivessem onde as meter, ou as preferissem já mortas, depenadas, esventradas, prontas para uma canja, ou então para ficarem a aguardar num galinheiro urbano chamado congelador. A maior parte de nós considerá-las-ia uma praga, principalmente estes nós que vivem numa cidade e gostam dos animais comestíveis já em filés ou strogonoff. Mas, agora que penso nisso, estive anteontem com os meus filhos no Campo Mártires da Pátria, que, além de escorregas jeitosos, está cheio de galinhas. Não percebo de onde vêm e não é hora de ir ao google. Prefiro acreditar, para o benefício da história e a cola dos povos, que foram sogros moçambicanos a deixá-las ali por não terem espaço onde pôr milho e por terem casado um filho. Uma filha, vá, mas não rimava e estou a falar com um tipo que é poeta.

“Que um pai se vá é o que se espera”, escreveste tu. Arrepiante. Pergunto-me sempre, nesses casos, para quê ter filhos. E nem é que eu lhe chamasse, como julgas, paternidade irresponsável. É que dar um gâmeta não é o mesmo que ser pai. Ser pai, até sem gâmetas, é fazer aquelas coisas que são beleza e cansaço no mesmo movimento: calçar as meias, limpar as manchas de sopa, medir a febre. Lembro-me de estar na sala de radiologia com a minha filha, eu toda orgulhosa, quase excitada: “Maria, o teu primeiro raio-x!” A miúda com o dedo lixado numa carcela e eu só pensava que aquilo era vida e que mais viriam, muitos mais viriam, que viver, seja por azar ou por não se ter medo da vida, também é acabar naquela sala às vezes. No caso, foi mesmo por azar, claro. Mas não conseguia deixar de pensar que ser mãe era aquilo, e quem sonha com ser mãe – não com ter filhos – também encontra beleza nisto: sabe que acabar nas urgências da pediatria significa que se tem o coração cheio de gente.

De resto, eu não tenho como competir contigo. Tu falas-me de homens que morreram após traições, às mãos de assassinos a soldo, na África do Sul, com filhos para trás, que durante anos ficavam à espera dos carros que entravam e saíam do bairro, a ver se o pai ia lá dentro, fosse de um cross border ou de um zolabade. Repara: eu até tive de googlar para saber o que era um zolabade. E também tive de googlar Ricoffy, porque não me cabia na cabeça que os imigrantes da África do Sul voltassem para norte com uma mala cheia de Nescafé. Mas quem sou eu para julgar? Quando a minha mãe me foi visitar ao Brasil, levou a dela cheia de tremoços, cacetes integrais, queijo camembert e, claro, Ucal. Quem cresce a beber Ucal não se aguenta a Toddynho, leite com chocolate com sabor de açúcar. Se eu quiser falar-te de vizinhos, só podia meter histórias mais mundanas, que têm menos história económica e transnacional dentro. Havia a vizinha que gritava com o marido, o palerma do lado que me estragava sempre as sepulturas que eu fazia para os meus peixinhos que morriam, talvez afogados, o jagunço de dez anos que incendiou a garagem no prédio ao lado da minha casa, a mulher que, farta de passar por lorpa, foi a uma casa de alterne num sábado à tarde para confrontar o marido, o mesmo marido que, confrontado pela esposa numa casa de alterne, a mandou para casa, lhe disse que seria uma vergonha se alguém a visse ali e que ele só lá fora beber um copo, e o jogador de futebol do Vizela, natural de Cabo Verde, que devia ter uns 25 anos, e que eu, aos 5, achava que era meu namorado, o que só lhe deu problemas. De resto, nada de caixões a irromper pelos quintais, muito menos defuntos estranhos, muito menos filhos que não conhecem a cara ao pai.

Enfim, começámos com comida, que é sempre um assunto divertido, e terminamos neste registo deprimente. Vê se, na resposta, nos elevas a moral.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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