Bartolomeu Henriques é ex-recluso. Na associação O Companheiro encontrou apoio para a reinserção na sociedade. Foto: Rita Ansone

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Conhece aqueles barracões cinzentos que ficam à entrada de Benfica, ali quem vem do Colombo e vira para a Estrada dos Arneiros, ao lado de um parque de estacionamento improvisado? As casas de madeira dão nas vistas, na Avenida Marechal Teixeira Rebelo e formam uma espécie de aldeia. Nesta aldeia escondem-se histórias de vida e contos de superação. Aqui funciona a associação O Companheiro, há 35 anos, devolvendo um futuro e uma vida a antigos reclusos.

A aldeia é para ex-presidiários e está aberta a toda a comunidade. Aqui, há uma residência, cantina, ginásio, serviços de psicologia e até uma horta, onde os vizinhos podem cultivar. No final do verão, prevê-se a mudança de instalações, mas o berço mantém-se em Benfica. 

Enquadrar a população reclusa na sociedade é uma tarefa desafiante. Ainda nos anos 1980, em visitas a prisões, o Padre Dâmaso percebeu que existia em Portugal um problema social nítido: a maior parte do apoio era prestado durante a pena de prisão.

Ou seja, uma vez em liberdade, o acompanhamento a antigos presidiários escasseava. Daí nasceu, em 1987, O Companheiro, uma IPSS com berço em Benfica, e o mote diz tudo: “Para Que Não Haja Homem Excluído Pelo Homem”.

Em 2021, segundo dados da DGRSP – Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, saíram das prisões portuguesas quatro mil e 375 reclusos. Em média, 92% eram homens. No mesmo ano, foram ajudadas pel’O Companheiro 850 pessoas, desde reclusos a pessoas que tiveram problemas com a justiça e os seus agregados familiares.

A meta é combater a reincidência, o regresso ao crime, explica Verónica Leirião, psicóloga da instituição. “Não apoiamos o crime. Pelo contrário.”. 

O objetivo da associação é, nas palavras de Helena Baron, psicóloga d’O Companheiro, “desconstruir crenças”: “Com a horta, aproximamos as pessoas. Este é um espaço tão seguro como qualquer outro. Os nossos vizinhos da loja chinesa, por exemplo, são muito assíduos a plantar coisas.”

Cada residente tem um espaço para cultivar e muitas das coisas que ali nascem servem para a cantina.

José Brites, diretor de O Companheiro, explica que o que diferencia a associação é a abordagem multidisciplinar. “Não podemos acreditar que o indivíduo, estando a trabalhar, vai ter sucesso. Para isso, precisa de ter acompanhamento psicológico, social, jurídico e um sítio para pernoitar.”. Foto: Rita Ansone.

Existem outras instituições que ajudam na integração social e profissional de reclusos. Ainda assim, a proposta d’O Companheiro diferencia-se por todos os serviços que congrega num único sítio, esta espécie de aldeia de madeira. Aqui, há um gabinete jurídico, de psicologia, de integração profissional e de desporto, lado a lado com a cantina e a residência.

Para José Brites, diretor, este é o trunfo da solução d´O Companheiro: “Não podemos acreditar que o indivíduo, estando a trabalhar, vai ter sucesso. Para isso, precisa de ter acompanhamento psicológico, social, jurídico e um sítio para pernoitar. As outras entidades oferecem apenas um serviço.”

Bartolomeu Henriques chegou a O Companheiro encaminhado por uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia. Na altura, precisava de um sítio para dormir e sarar as feridas do passado. Desta forma, as paredes da residência, pintadas de verde esperança, tornaram-se casa e os cobertores avermelhados com riscas brancas porto de abrigo.

Numa condenação há sempre uma história. E nunca é fácil, como não foi a de Bartolomeu. Conta que nasceu em Angola, numa casa onde diz nunca ter sentido amor. Os problemas de alcoolismo surgiram cedo, aos 14 anos, e agravaram-se quando chegou a Portugal, em 2008. Depois de passar um mês na cadeia, “por uma briga feia”, a rua foi a primeira casa.

Um dia, enquanto chovia, “debaixo de um regueirão” e sóbrio, sentiu pena dele próprio. Tinha uma liberdade condicional com a validade de sete anos. “Ali a luz apagou-se. Ficou tudo escuro. Não via projetos, nem futuro. Mesmo quando saí, porque cá fora também estava preso. Houve um dia em que estávamos todos lúcidos. Estava a chover. Naquele momento, tive pena de mim. Já tinha 32 anos e não tinha uma vida.”

Foi assim que aos 32 anos surgiu a associação O Companheiro, na vida dele. Ali voltou a imaginar uma vida. Primeiro, quis ver um concerto da cantora P!nk. Depois, ter um emprego e uma casa.

Prisão, alcoolismo, situação de sem-abrigo. Bartolomeu passou por todas estas prisões, dentro e fora de grades. Até que percebeu que tinha que fazer alguma coisa. Procurou O Companheiro e encontrou uma nova vida. Foto: Rita Ansone.

Hoje, Bartolomeu sabe que alguém teve de o acordar: “Esse alguém tive de ser eu”.

Bartolomeu é apenas um dos rostos que passam pel’O Companheiro. No último ano, a associação alimentou 88 bocas, serviu na cantina social quase 37 mil refeições e deu cama a 29 residentes. Muitos chegam aqui por iniciativa própria. Já outros são encaminhados pela DGRSP – Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais ou outras entidades.

A residência está fechada durante o dia, das oito e meia às cinco da tarde. O horário é ocupado com limpezas e, para os “clientes”, com a procura ativa de trabalho. Assim são tratados todos aqueles que O Companheiro apoia. A “terminologia correta” para quem usufrui de serviços, diz Verónica Leirião, psicóloga da associação.

Antigos reclusos, clientes do Companheiro, pagam pouco mais de três euros por noite e, depois de arranjarem emprego, um euro por refeição. Helena Baron explica a ideia: “Este valor dá direito a dormida, pequeno almoço, almoço, jantar e à limpeza do espaço. Não tem o fundamento de pagar os serviços, mas de ser uma preparação para a vida ativa”.

Uma treinadora, para aprender a respeitar as mulheres

“’Tá bom gente”. Assim encerra o treino às oito e 13 da noite Margarida Sousa, professora de Educação Física, treinadora e responsável pelo gabinete de desporto d’O Companheiro.

Antes, da bancada do complexo desportivo da Junta de freguesia de Benfica, Margarida dá ordens à equipa. “Troca”, grita enquanto abana o carrinho. Lá dentro está Vicente, de seis meses, a “mascote” da equipa de futebol de rua d’O Companheiro. Margarida trouxe o filho para a sua missão.

O desporto serve na associação para sarar feridas e promover uma mudança no espírito de cada um. Na “aldeia”, há um ginásio, mas todas as quartas-feiras há treino de futsal e de futebol de rua com alguns clientes e outros membros da comunidade. Em 2021, O Companheiro ofereceu mais de 600 horas de atividade desportiva para adultos e perto de 150 horas para crianças.

Não é por acaso que ao comando da equipa está uma mulher. “Estes homens não estão habituados a lidar e a aceitar ordens vindas de mulheres. Há muitos casos de violência doméstica, por exemplo”. Mas Margarida não se acanha: “Já tive de andar a separá-los e nos jogos estou sempre a gritar”.

No campo, com o equipamento da seleção portuguesa, Margarida conta com a ajuda do namorado, Gustavo Ribeiro, voluntário e também treinador de futsal e futebol. Gustavo sabe bem que o desporto salva. Nasceu em Lisboa, há 35 anos. A infância, passada entre Queluz e Benfica, ficou marcada pela separação dos pais. “O meu pai vivia no bairro das barracas do Lumiar, todo feito a tijolo e cimento. Tínhamos de apanhar bolas de ténis, de um campo próximo, para vender e conseguir arranjar comida.”

A prática desportiva ajudou-o a ultrapassar muitos obstáculos e quis retribuir com a inclusão de reclusos. “O problema da nossa sociedade é não dar uma chance. Olham para o currículo e percebem que estiveram detidos. No meu caso, ninguém consegue adivinhar que passei fome. Eles trazem sempre uma marca. Mas aqui temos uma família, ajudamo-nos uns aos outros.”

Gerson Fernandes, de 26 anos, chegou à equipa de futebol de rua em 2015, pelas mãos do primo, presidiário. O trabalho que a associação faz junto das famílias dos reclusos é fundamental para a reintegração destes. Foto: Rita Ansone.

Ricardo Machado sabe bem como o desporto e o acompanhamento psicológico o tornaram Ricardo noutra pessoa. “Vinha muito frustrado, com uma mentalidade bastante fechada. Não sorria para as pessoas e raramente falava”, recorda. “Quando saí da prisão percebi que já tinha perdido bastante na minha vida. Não podia perder mais. Com o projeto, tentamos mostrar a quem sai que há muito mais para lá da vida que tiveram.”

Ainda estava preso quando soube de uma formação de carpintaria promovida pel’O Companheiro. Decidiu inscrever-se e em 2010 iniciou um novo caminho. Dois anos depois, com mais quatro amigos participou no torneio de futebol de rua da revista CAIS. A equipa d’O Companheiro chegou à final do distrital, sagrou-se campeã e representou Lisboa a nível nacional.

Hoje, a organização do torneio da CAIS cabe ao Companheiro e Ricardo orienta os treinos da equipa lado a lado com Margarida. Já acompanhou “dezenas – a chegar à centena” de atletas. Os treinos são intensos, mas o espírito de equipa, uma das mais valias do projeto, para Ricardo, ecoa no pavilhão. Quando a bola entra na baliza, a palavra golo é celebrada com gritos de entusiasmo e salva de palmas.

O desporto semeia sonhos. É assim que sente Gerson Fernandes, de 26 anos que chegou à equipa de futebol de rua em 2015, pelas mãos do primo, presidiário. O trabalho que a associação faz junto de agregados familiares de reclusos é fundamental para combater desigualdades sociais e dar felicidade.

Com o futebol de rua, diz ter ganho “maturidade, mais confiança e autoestima. O meu sonho é ser futebolista profissional. O céu é o limite!” Por enquanto, trabalha na Carris, «empurrado» por um protocolo de empregabilidade que O Companheiro mantém com a empresa.

Objetivo principal: “Ganharem asas”

Pouco tempo depois de chegar ao Companheiro, Bartolomeu foi trabalhar em jardinagem na Junta de Freguesia de Benfica. Agora, está a fazer um curso de informática e técnico de redes. Tem como sonho trabalhar na Suíça. Já tem um quarto alugado, mas continua a ter consultas de psicologia n’O Companheiro e a ir buscar comida à cantina social.

É um caso de sucesso, diz Helena, psicóloga. O objetivo é “ganhar asas”, mas para isso é preciso resolver muitos problemas antes.

Um acidente em jovem é a razão pela qual Bartolomeu usa uma pala no olho. Nunca sentiu afeto da parte de quem deveria dar-lho e foi apenas n’O Companheiro, diz, que começou a construir o seu “eu”. Foto: Rita Ansone.

A pala que usa no olho esconde o acidente que Bartolomeu sofreu ainda em jovem, em Angola. “O meu pai não deixava a minha mãe visitar-me ao hospital, onde estive praticamente dois anos. Quando regressei a casa, comecei a chamar a atenção pela forma errada, pelo álcool”, recorda. Crescer assim marcou profundamente a sua personalidade: “Nunca senti o que é o amor verdadeiro. Nunca tive afeto por ninguém, porque as pessoas que deveriam ter afeto por mim tratavam-me mal”.

“Foi no Companheiro que comecei a construir o meu «eu»”, diz. Além das consultas, há várias sessões de grupo com programas adequados aos tipos de crime que cada cliente praticou. É aquilo que chamam de “escola social”, refere a psicóloga Verónica Leirião. “Temos programas que trabalham os crimes sexuais, a agressividade e violência ou o consumo [de drogas].” 

A diferença na personalidade do Bartolomeu é notória para Helena: “Era mais introvertido. Neste momento, já é extremamente motivado para a mudança.” Bartolomeu confessa que vivia na “escuridão”. E começou a sonhar: “Perguntavam-me se tinha algum sonho. Dizia que não. Houve um dia que cheguei e disse ‘já tenho um!’ Era ver um concerto da P!nk. Nunca tinha pensado em sonhos, em coisas tão banais como ir ao cinema”.

Para voarem, estas pessoas precisam antes de mais de um emprego. Começam com protocolos com entidades como a Junta de Benfica, a Câmara Municipal de Lisboa ou a Carris. Não é um contrato de trabalho fixo e ganham o salário mínimo por isso “têm de continuar na procura ativa de emprego, porque o objetivo é que encontrem algo mais estável ”, explica Verónica.

Através d’O Companheiro, só em 2021, 49 antigos reclusos assinaram um contrato de trabalho. Muito embora a integração profissional continue a ser um dos principais desafios. “Quando vão a uma entrevista de trabalho não têm de dizer que foram reclusos – a menos que peçam o registo criminal. Não deixa de ser estigmatizante porque uma pessoa que esteve detida, durante anos, tem isso refletido no currículo e na experiência profissional e educacional”, diz Helena.

O preconceito pesa. Bartolomeu sentiu-o. “Ao início, era mais um que o Companheiro mandava. Depois, os meus colegas viram que não sou aquela pessoa que pintavam, alguém só para criar atrito e para atrapalhar. Viram que gostava de criar amizades.”

O presidente da associação, José Brites, identifica o preconceito como uma das limitações de resposta e a sensibilização da comunidade como o gatilho imprescindível: “A aceitação da própria comunidade é difícil. Nos transportes públicos, sentamo-nos ao lado de alguém, criamos empatia, conversamos, mas nada nos garante que aquela pessoa não esteve presa. As pessoas não têm rótulos. Não têm tatuado que estiveram detidos.”

Arranjar patrocínios para as atividades desenvolvidas pel’O Companheiro nem sempre foi fácil. A maior parte das empresas fazia-o sob anonimato: “Há uns anos, as empresas, mal sabiam que trabalhávamos a reinserção aceitavam, mas dispensavam a presença do seu logotipo nos cartazes.”

José já sente diferença e mais facilidade em estabelecer parcerias.

“Às vezes, só precisam de uma segunda oportunidade”, lembra. Bartolomeu, Ricardo e Gerson são a prova viva disso.


* João Damião é aluno do mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa/ FCSH. É um tanto idealista. Acredita que o melhor futuro é pautado pela educação, informação, beleza e tolerância. É isso que o move a contar histórias. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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