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Desculpa não sabermos quem és…

Datas importantes que se encontram na Wikipédia: a Alemanha nazi invadiu a França a 10 de maio de 1940 e a França rendeu-se a 22 de junho. Mas são as datas pessoais que dão grandes histórias: o judeu francês Roger Kahan, de 26 anos, entrou no consulado-geral português em Paris a 24 de maio de 1940 – e disse que queria salvar-se.

Duas semanas depois do grito dele e quatro dias depois da rendição da França, ele recebeu a resposta: “Visto recusado.”

As falas oficiais são impessoais, como que a pedir que não se leve a mal. Desde o começo da Segunda Guerra Mundial, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português dera instruções claras. Dizia a Circular 14, e traduzo em linguagem de gente: “Os consulados não passam vistos a judeus. Só Lisboa decide, caso a caso.”

Os documentos oficiais são sempre como quem não quer a coisa, mesmo quando são feios e maus (como era o caso). Precisamos de um homem, um qualquer, Roger Kahan, por exemplo, e das pedrinhas do caminho dele, para perceber o sentido disto tudo.

A mesma resposta, “não”, no consulado de Paris, e falo só daquele dia, ouviram-na cerca de 80 pessoas (o Arquivo Histórico Diplomático, em Lisboa, guarda essas coisas). Kahan era jovem, estava no seu país e na cidade onde nascera, e até morava perto do consulado-geral, então na avenida Kléber (meia hora a pé, como da Praça de Espanha ao Jardim Zoológico de Lisboa) – na tabela de angústias alheias, seria um caso menor.

Na mesma lista dos indesejáveis decretados pelo consulado português também vinham, por exemplo, o romeno Samuel Margulies, a mulher e os três filhos, todos judeus, todos de visto recusado, uma urgência que parecia bem mais prioritária e dramática.

Então, porquê, não destes, mas doutro judeu, escrevo eu, aqui?

Pelo acaso de Roger Kahan ter irrompido numa história antiga que eu seguia e, de desconhecido, fui dar com ele extraordinário.

Há mais de trinta anos, estava eu a olhar outras vidas, comecei por passar por ele sem o ver.

E, agora, por estes dias, de espanto em espanto, acompanho o Roger Eli Kahan Ostrowski, o Roger Kahan, também conhecido mais tarde como Roger Coster, ele e as suas pedrinhas, mundo fora. Passou a ser o meu Roger. E com um instante – espantoso, para nós, e decisivo, para ele – na nossa cidade de Lisboa.

Uma velha reportagem e três judias

No verão de 1990 – o jornal Público ainda só tinha semanas de vida – publiquei uma reportagem, doze páginas e capa da sua revista, a Público Magazine, sobre três velhas senhoras a quem o nazismo empurrara para Portugal quando elas eram jovens judias.

Nunca mais falei com Ilse Losa, que morreu em 2006, nunca mais estive com Yvette Davidoff, desaparecida em 2008, nunca mais vi Ruth Arons, falecida há dias. Claro, nunca as esqueci.

Em 1990, o livro de assentamentos do cemitério israelita de Lisboa deixava pó e caliça nas mãos e tinha poucas páginas. A dois passos do cemitério do Alto de São João, entre vinhas e figueiras, os túmulos pouco mais enchiam que um grande quintal – para lá dos seus muros, a Lisboa oriental, o Mar da Palha e o Sol que se levanta sempre daquele lado.

No livro, antes do ano 5695 (no calendário hebraico, correspondendo a 1935), os mortos tinham vindo de Tânger, Gibraltar, Marrocos… Judeus portugueses que voltaram da concha mediterrânica e do seu êxodo sefardita. “Meu portugalinho”, chamavam as avós de Esmirna aos seus meninos.

Com o aproximar da II Guerra Mundial, já o livro anotava origens mais frias, Polónia, Alemanha e lugares estranhos, distribuídos por países e impérios, nomes como Bessarábia que reconhecemos hoje da guerra na Ucrânia.

Havia identidades vagas, de quem saiu à pressa de sua casa. Na mesma página, unidos pelo acaso da ordem alfabética, li, de Malchen Katze Meyer, “idade?”: “Criança”. De Marie Acher li “filiação desconhecida”. E de Messod Gerstein, “país desconhecido”. 

Mas a minha história para o Público não era sobre esses náufragos da Europa que morreram ao chegar à praia portuguesa, os das poucas páginas, então recentes, do livro do cemitério judeu de Lisboa. A reportagem era sobre Ruth, Yvette e Ilse, dos poucos judeus, calcula-se que não mais de centena e meia, que quiseram e puderam continuar a viver no porto abrigo.

Elas tinham pertencido a um terror coletivo, a fuga de judeus pela Europa fora justificada pela chegada de Hitler ao poder na Alemanha, as leis antissemitas e dos factos cruéis que se seguiram.

Sabem do que estou a falar, quando escrevi a linha anterior?

Sim, claro, houve o Holocausto, esmagador, mas deixem-me insistir em aparentes pormenores: na Alemanha, em agosto de 1938, a Lei da Alteração dos Nomes Próprios e de Família obrigava os judeus, com nomes não óbvios de serem de judeus, a adotar o nome do meio “Israel” ou “Sara”, consoante o género. Então, a “raça”, acima do cidadão, era o que contava. Isto é, não valia nada.

Outro exemplo alemão: no mesmo ano todos os passaportes judeus foram considerados inválidos se não fossem estampados, a vermelho, com a letra “J”. Factos posteriores, sobre os campos de concentração, levaram-nos a menorizar estes pormenores. Mas desde o começo, tudo, desde os pormenores, já era monstruoso.

A escritora Ilse Losa, judia nascida numa aldeia perto de Hanôver, Alemanha, adivinhou cedo os miasmas trazidos por Hitler. Logo em 1934, ela desembarcou na alfândega fluvial do Porto, onde uma mulher descalça lhe pegou na mala, que pôs à cabeça, e subiu o empedrado por Miragaia acima.

Da primeira vez que ela entrou no café Sport, no centro do Porto, surpreendeu-a o espanto de todos – ainda não era comum mulheres sérias nas mesas públicas. Mas a jovem Ilse, 21 anos, que frequentara os cafés berlinenses, locais gemutlich, acolhedores, com margaridas nas mesas, não se arrependeu da mudança que fizera.

Sobre o que é deixar o país onde se foi menina, ela que é das nossas precursoras de literatura infantil, e sobre adotar o país que a acolheu, Ilse Losa deixou-nos dois belos livros. Um olhar estrangeiro de portuguesa por acaso e, depois, por vontade.

Ruth Arons, também alemã, contou-me quando ela soube. Com a chegada de Hitler, o pai tirou-as do liceu, a ela e à irmã, e matriculou-as num colégio de freiras. Na ilusão de, de…. vocês sabem. Lembram-se daquele episódio do George Constanza, personagem da série Seinfeld, que foi despedido e no dia seguinte voltou para o emprego e se sentou à secretária, na esperança de que ninguém desse por isso?… Correu-lhe bem, mas isso é nas séries de humor. Na vida real de Ruth e da irmã, os pais das colegas do novo colégio não aceitaram as meninas judias.

Para elas acabava-se a proteção de uma infância berlinense, com pai, advogado de sucesso, e o avô, dono do Gebrüber Arons Bank. Em 1936, decidiram partir. “Nesse dia, dancei”, disse-me Ruth. E mais à frente: “Da Alemanha nazi conheci pouco…”

Pouco? Testemunhou esta enormidade: uma menina a dançar por abandonar a sua cidade, a sua infância.

A família Arons entrou de carro pela fronteira alentejana. Na estrada, o belo descapotável de marca Adler foi mandado parar. O guarda explicou ao pai, por gestos e de forma muito educada, que não devia conduzir de mangas arregaçadas. A família Arons sorriu por saber que chegara ao país, embora autoritário, de um autoritarismo de pantufas. Suspiraram de alívio.

Ruth Arons (à direita, com a irmã Ellen), no descapotável de marca Adler, do pai, no dia em que a família entrou em Portugal, pelo Alentejo (1936)

E falei com Yvette Davidoff, a última das três velhas senhoras a chegar a Portugal. E também a única a ser portuguesa de nascença, filha da diáspora sefardita. A cidade natal dela foi Viena, mas a mãe, Rosina, era da Turquia, o pai, Desidério, da Bessarábia, e tinham documentos portugueses.

Depois, veio o Anschluss, a anexação da Áustria pelos nazis. Yvettte, já órfã do pai, e a sua mãe Rosina abrigaram-se sob o passaporte português, há muito passado pelo consulado de Viena e refugiaram-se em Paris. A avó, demasiado idosa, recusou sair de Viena.

Só em outubro de 1942, mãe e filha chegaram ao país de que tinham a nacionalidade. Dias depois, ela foi trabalhar para Joint, a organização internacional de apoio aos refugiados judeus, desde que a Europa enlouquecera. Nessa altura, já havia listas de presos nos campos de concentração alemães.

A Joint, em colaboração com a Cruz Vermelha, fazia pacotes até meio quilo, com chocolate, sardinhas em lata, bocadinhos de café. E mandava-os para um destinatário, de quem geralmente se ignorava tudo menos o essencial: estavam em Auschwitz, Treblinka, Theresienstadt…

Em 1990, no seu apartamento na Rua do Sol ao Rato, Yvette murmurou: “Theresienstadt…” Depois, virou-se para mim: “Tantos pacotinhos que enviei para lá e só depois da guerra soube que foi para onde mandaram a minha avó Mazaltov. Hoje, sei em que dia ela entrou, sei em que dia morreu. Os alemães são tão meticulosos com as estatísticas…”

Ok, ok, mas este texto não é sobre o tal judeu francês Roger Kahan? Não. É sobre o tanto tempo que andamos sem saber do meu Roger, a quem muito devemos. Logo, um pouco de enquadramento, um pouco de parecer que perdemos tempo, só nos ajuda a saber, mesmo, o que ganhámos.

Foi Yvette quem primeiro me falou da Cozinha Económica. Uma das iniciativas da Joint, para ajudar os judeus que, aos milhares, chegavam a Lisboa, o último porto da Europa ainda aberto à salvação. A Cozinha Económica ficava no nº 17 da Travessa do Noronha, ruela que dava para um largo esconso, com saída única. Sob a Rua da Escola Politécnica e vizinha do Jardim do Príncipe Real, hoje é um condomínio de luxo.

Relendo o que Yvette Davidoff me contou, cheguei, agora, mais de trinta anos depois, a esta foto de Roger Kahan:

Refugidos judeus à porta da Cozinha Económica, na Travessa do Noronha, nº 17, num beco escondido. Foto de Roger Kahan (1940), Foto: Arquivo do Instituto Diplomático, Lisboa

E cheguei também a uma reportagem sobre refugiados judeus em Portugal, publicada na revista lisboeta Mundo Gráfico, em janeiro de 1941 e ilustrada com fotos do francês Roger Kahan. A quem, uma legenda chamava “famoso repórter”, coisa que ele não era.

Uma página da reportagem da revista Mundo Gráfico, dedicada a refugiados judeus em Lisboa, 1941, com fotos de Roger Kahan.  Foto: Arquivo Histórico Diplomático do Ministério Negócios Estrangeiros, Lisboa

Afinal, o judeu Roger Kahan interditado de entrar em Portugal pelo consulado português de Paris, no verão de 1940, tinha conseguido dar a volta à proibição. No outono desse mesmo ano Roger Kahan estava em Lisboa. E testemunhava, fotografando, a angústia dos seus. 

Ele não era jornalista, nem repórter, foi fotógrafo de cena. É a profissão dos que seguem as filmagens, para depois se fazer a divulgação dos filmes e das vedetas que nele participam. O Ciné-Ressources, um catálogo digital que reúne informações das bibliotecas e arquivos dedicados ao cinema francês, diz que Kahan participou em 24 dos maiores filmes franceses da década de 1930, entre as quais a do icónico Cais das Brumas, de Marcel Carné.

A sua profissão era fotografar de forma sedutora uma realidade – a feitura de um filme – que criava uma ficção. Essa a sua fase francesa. A condição de vítima fê-lo mergulhar na realidade, dura e dolorosa. Essa a fase lisboeta de Roger Kahan.

Na pista de uma testemunha que deixou rasto

Roger Kahan nasceu em 1913, Paris, de família imigrada. Pai judeu do leste europeu, como indicavam os nomes de família, Kahan Ostrowski, e mãe provavelmente italiana, Cesarina Zenatti.

Uma foto de estúdio mostra-o com as duas irmãs, miúdos, ainda na década de 1920. O estúdio ficava na rua Poncelet, no mesmo bairro e a três quarteirões da rua Torricelli, onde Roger Kahan ainda morava quando teve de fugir de Paris, vinte anos depois. Era uma zona remediada, na margem direita do Sena.

Roger Kahan e as irmãs, Paris, à volta de 1920. Foto cedida por Rona Kahan Coster

Rona Kahan Coster, que viria a ser sua nora e vive em Aruba, nas Antilhas Holandesas, lembra-se de o sogro nunca referir a família que deixou para trás. “Ele tinha a culpa dos sobreviventes. As irmãs morreram nessa altura”.

A Ciné-Ressources, na nota biográfica do fotógrafo, referindo-se ao seu passado francês explica o silêncio: “De origem judia, Roger Kahan foi o único membro da sua família a sobreviver ao Holocausto.”

Se falamos de um judeu que chegou a Portugal em 1940, isso significava: era um fugitivo a ser caçado pela Europa, no último porto que o podia salvar. Portugal negou-lhe a entrada e, no entanto, ele aqui chegou. Como?

Kahan poderia ter sido um dos refugiados salvos por Aristides Sousa Mendes, o corajoso cônsul português em Bordéus, agora famoso. Entre a Circular 14 e os judeus que desciam a França em pânico, entre a ordem burocrática e a desordem moral, Aristides de Sousa Mendes escolheu ser justo.

No fim da primavera de 1940, havia uma multidão acampada sob as janelas do consulado de Bordéus. Então, o nosso cônsul abriu as portas e desatou a assinar vistos, às muitas centenas.

As derradeiras assinaturas do cônsul generoso foram feitas a 22 de junho 1940. Exatamente no dia em que a França se rendeu e o cônsul, também. Foi chamado a Lisboa para ser castigado por desobediência – e para saber que tinha a carreira acabada. Já em Baiona, à porta da fronteira espanhola, Aristides de Sousa Mendes ainda assinou vistos, como um pôr-de-sol reticente porque sabia não voltar a levantar-se.  

Parece pouco provável que o parisiense Roger Kahan tenha descido até Bordéus, quando o seu destino ainda estava pendente da resposta do consulado português de Paris. Mas em situações de angústia coletiva é imprudente equacionarmos só os comportamentos normais: os judeus romenos companheiros de Kahan na tal lista de pedidos de visto em Paris, os Margulies, também ainda sem resposta desse consulado, apesar disso apostaram em Bordéus.

E ganharam a taluda: algumas das derradeiras assinaturas do cônsul despedido foram para os Margulies.

O facto, porém, é que na lista de refugiados hoje reconhecidos como salvos por Aristides Sousa Mendes, não consta o nome de Roger Kahan. Temos de procurar outras hipóteses para saber o que o salvou. Em 1940, Lisboa era sobretudo passagem – talvez sabendo para onde ele foi depois, se saiba como ele cá chegou.

Um brasilero justo entra (talvez) na história

Na mesma altura do drama de Roger Kahan, começo do outono de 1940, o filósofo alemão Walter Benjamin, uma das mentes brilhantes do século, também sozinho e judeu, atravessou os Pirenéus a pé, vindo de França. Ele trazia as garantias possíveis: vistos de trânsito por Espanha e Portugal e visto para o Estados Unidos, para entrar no barco em Lisboa. Mas, na catalã Portbou foi parado por guardas espanhóis que ameaçaram recambiá-lo.

Ele pensou que o século, e o resto, tinha acabado e suicidou-se. Não eram jornadas de passeio o que então lançava multidões à estrada.

Durante a II Guerra Mundial, os vistos em passaportes de quem pretendia sair de Lisboa eram registados, cada dia, pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (depois, PIDE). Grossos livros, agora arquivados na Torre do Tombo, guardam esses registos. Sem visto (autorização de entrar no país de destino), ficava-se encalhado, não se partia.

A 26 de outubro de 1940, no Livro 19 dos registos de vistos em passaportes ficou escrito que se apresentou às autoridades portuguesas em Lisboa o francês “Kahan Ostrowiski Roger Alice” (os primeiros dois, nomes de família; depois, os próprios) e tinha os documentos conformes. 

Apesar dos patronímicos judeus, Kahan Ostrowski, do leste europeu (polaco? russo?…), ele nascera em Paris, como já vimos, e tinha passaporte francês, passado pela Prefeitura de Paris. Nos nomes próprios apontados, se estava certo o Roger, o polícia português tresleu e, em vez, de Eli, anotou “Alice”. Também cansa passar horas e horas a apontar, à mão, nomes, e nomes esquisitos, nacionalidades, destinos… – naquele dia foram 134 pessoas.   

Mas naquela linha única de dupla página do Livro 19 a que cada um dos registados tinha direito, a informação mais interessante era o destino que lá ficou escrito: “Brasil”. Roger Kahan tinha, pois, apenso ou escrito no seu passaporte francês algo que lhe garantia, ou ajudava, ir para o Brasil.

Esse registo na Torre do Tombo corroborava, em outubro de 1940, o que no artigo da revista Mundo Gráfico, em janeiro de 1941, era mero palpite: “Roger Kahan, atualmente no Brasil…” Fica por se saber: que autoridade brasileira o tinha ajudado?

Tal como o governo português de Salazar com a Circular 14, o Brasil do presidente Getúlio Vargas também impunha restrições à entrada de judeus. Na década de 1930, o antissemitismo assumido ou escondido foi um vício oficial espalhado por muitos países.

As circulares do Ministério das Relações Exteriores do Brasil obrigavam ao mesmo procedimento de Lisboa: a decisão de entrada para os judeus devia ser centralizada no Rio de Janeiro, então a capital.

Vê-se mal que possa ter sido o embaixador em Lisboa, Arthur André Jorge, a desobedecer a ordens expressas do seu governo. Ele era próximo de Getúlio, de quem fora Secretário da Presidência imediatamente antes de ir para o posto de Lisboa, em 1935.

Acresce, como atestam documentos diplomáticos brasileiros, que André Jorge, quando foi embaixador em Berlim, tinha mostrado “simpatia” com a política do novo chanceler Adolfo Hitler em relação aos “povos de origem judia”. Além de popular na opinião pública, o ódio ao judeu influenciava parte considerável da elite brasileira.

Cartoon da revista humorística brasileira Careta, em 1938, denunciando a “facilidade” de os judeus entrarem no Brasil. Exatamente o contrário da realidade…

Então, quem passou o visto brasileiro, em 1940, ao francês Kahan Ostrowiski, de nomes ostensivamente judeus? Quem permitiu que chegasse a Lisboa, o único porto aberto europeu, e daí rumasse ao Brasil?

É altura de lembrar um personagem excecional que estava no sítio certo, em 1940, para a ajuda inicial a Roger Kahan: o embaixador brasileiro em Paris Luiz Souza Dantas. Ao acaso, deve juntar-se a circunstância rara, para um diplomata então, de ele ter querido e ter salvo muitos judeus.

Uma investigação do historiador carioca Fábio Koifman, publicada mais de meio século depois dos acontecimentos, em grosso livro, Quixote nas Trevas, e inspirando um filme, Querido Embaixador, de 2017, conta a vida de Souza Dantas.

Dândi, de eterno nó de laço ao pescoço, culto, amigo do tout Paris, dos famosos e artistas, casado com uma judia norte-americana (irmã do proprietário do jornal Washington Post), o embaixador Souza Dantas foi dos poucos diplomatas brasileiros a alertar o seu governo sobre o extermínio programado pelos nazis.

Em junho, quando Paris foi ocupada, o novo governo francês deslocou-se para Vichy e as embaixadas seguiram-no. Não foi a única mudança que Souza Dantas viveu por aqueles dias. Com uma carreira de grande diplomata, conciliador e patriota, decano dos embaixadores em França, ele estava em Paris desde 1922. Mas o que ele sabia dos nazis como que o desobrigou dos deveres de obediência de um alto funcionário. Tal como o cônsul português em Bordéus, o embaixador brasileiro desatou a passar vistos.

Assinou mais de 800 vistos a refugiados, dos quais 425 a judeus, à revelia clara do seu governo.

Por aqueles dias, Roger Kahan soube, em Paris, da resposta negativa do consulado português. Essas coincidências, de tempo e de lugar, ajudam a supor que Kahan tenha recorrido a Souza Dantas (este era, por exemplo, amigo do ator Louis Jouvet, a quem ajudou a ir para o Brasil, protagonista do Hôtel du Nord, filme de Marcel Carné, onde Kahan trabalhara, dois anos antes).

Um visto brasileiro para Roger Kahan (como o registo da Torre do Tombo atesta ter havido um) deixa em aberto a hipótese de ajuda do embaixador brasileiro em Paris. 

A ação corajosa e tão rara de Souza Dantas durante a II Guerra Mundial só foi reconhecida nos anos 1990 – e muito graças à pesquisa do historiador Fábio Koifman. O nome de Dantas foi inscrito no Memorial do Holocausto, em Jerusalém, no jardim dos “Justos entre todas as nações”, não-judeus que se arriscaram a salvar judeus. Homenagem igual já tinha sido feita a Aristides de Sousa Mendes, um quarto de século antes.

Com a entrada tardia do Brasil na guerra ao lado dos Aliados, o diplomata brasileiro – entretanto reformado compulsivamente por causa dos vistos ilegais, mas continuando no posto à espera de substituto – foi detido e internado na Alemanha, durante mais de um ano. Salazar – que continuava a não perdoar ao seu dissidente, o cônsul de Bordéus – interveio de forma pessoal e decisiva, em 1944, para que Souza Dantas, o dissidente dos brasileiros, fosse trocado por prisioneiros alemães que estavam no Brasil. A troca foi efetuada em Lisboa.

Contactei por e-mail o historiador Fábio Koifman para ele me falar da provável relação – foi Dantas quem salvou Roger Kahan? – e tive o prazer de conhecer um investigador. Sim, ele descobriu centenas de judeus salvos por Dantas e o seu livro publicou a longa lista. A consideração de serem dados como “salvos”, disse-me Koifman, foi feita na base de se confirmar um de três dos dados seguintes. Primeiro, os refugiados judeus que saíram da Europa com vistos assinados pelo embaixador. A seguir, aqueles em que há documentos sobre a interferência do embaixador para terem o visto. E, finalmente, quando os próprios sobreviventes declararam, seja ao historiador, seja em memórias e entrevistas, que foram salvos por Dantas.

Então, quanto a Kahan? Tive a resposta: não, Roger Kahan não está na lista dos que Koifman confirmou terem sido salvos pelo embaixador brasileiro Souza Dantas.

O historiador não teve acesso ao passaporte de Kahan, igual aos de outros sobreviventes: com o carimbo redondo da embaixada em Paris, uma frase do embaixador, em francês, dando a entender que o portador tinha entrada garantida no Brasil, e com a assinatura “L. Souza Dantas, Ambassador of Brazil”.

Roger Kahan, tão talentoso em fotografar o caminho dos outros para a salvação, mas avesso em contar por palavras a sua saga, morreu em 1987, antes de Fábio Koifman ter iniciado a investigação.

E não se conhece, do francês, uma alusão a Dantas. Das peripécias ligadas à sua própria fuga ele não falou. Dele, só os documentos fotográficos deixados sobre a fuga dos outros. Ficámos, pois, sem saber se a generosidade Souza Dantas também protegeu o fotógrafo francês, mas fiquei, pelo menos, com a certeza de que as dúvidas, com Fábio Kofman, não me foram servidas como certezas.

Não satisfeito com o que já me dera, Koifman, também por e-mail, enviou-me uma ficha passada no consulado geral do Brasil em Lisboa a “Kahan Ostrowski”. Estranhamente só esses dois nomes, bem judeus, foram batidos à máquina pelo consulado. A profissão, para um país que queria imigrantes qualificados, assinalava-o como “operador fotográfico”. A ficha, servindo de visto consular, era para ser entregue à “Polícia Marítima no porto de destino”. Mas ele era só “admitido em território nacional” como “temporário”. Seis meses depois teria de sair do Brasil.

A ficha era assinada pelo cônsul adjunto em Lisboa Pityguar Fleury de Amorim e datada de “1 de Novembro de 1940”. Isto é, cinco dias depois da polícia portuguesa ter registado um visto para o Brasil no passaporte de Roger Kahan. Este (de Souza Dantas?) terá servido para chegar a Lisboa; o seguinte, do consulado geral brasileiro, serviu para ele chegar ao Brasil, mas com condicionantes.

Ficha de Roger Kahan, no consulado geral do Brasil, em Lisboa, dando-lhe um visto temporário de seis meses naquele país. Depois teria de o abandonar. Imagem cedida por Fábio Kofman.

No verso da ficha, acrescenta-se que Roger Kahan chegou no vapor espanhol Cabo de Buona Esperanza, o principal competidor do navio português Serpa Pinto no transporte de refugiados na rota de Lisboa para o Rio de Janeiro. Kahan desembarcou a 27 de novembro de 1940, e teria de deixar o país até 27 de maio.

Ao chegar, o fotógrafo deu como morada o hotel Riviera, em Copacabaca. Era um passageiro em trânsito.

À frente do Riviera era o Posto 6 da praia, onde mais tarde seria colocada a estátua de Carlos Drummond de Andrade sentado num banco, como era seu hábito, a olhar a baía, e um verso: “No mar estava escrita uma cidade”. Mas isso foi mais tarde. No ano em que Roger Kahan chegou à cidade, o poeta Drummond estava pessimista com o mundo, “mais noite, que a noite” (do livro Sentimento do Mundo), e escreveu dois versinhos que o francês, já judeu errante, reconheceria: “Sinto-me disperso,/ Anterior a fronteiras”…

Da sua breve passagem pelo Brasil, Roger Kahan não deixou nenhum testemunho que eu conheça. Um grande fotógrafo no paraíso, e nem uma foto. Num país tumultuado, o Brasil, entre a afeição ideológica do seu poder político pelo fascismo e a sua vocação americana, e nem um testemunho.

O Roger Kahan que soube captar tantos símbolos durante a sua permanência de semanas em Lisboa, como vimos e vamos ver mais, não tirou nenhum partido das coincidências com que terá convivido no Brasil.

No seu livro Agonia da Noite, escrito na viragem para os anos 50, Jorge Amado ficcionou um episódio, em 1938, em que os estivadores do porto de Santos se recusaram a trabalhar num navio que levava café para Espanha, oferecido pelo ditador Getúlio Vargas ao generalíssimo Franco. De facto, ocorreu um episódio semelhante, passado com o navio Cabo de Buena Esperanza, mas em 1946.

O Cabo de Buena Esperanza no porto do Rio de Janeiro. A bandeira espanhola, grande, para avisar os submarinos que era de um país neutra. Foto: Carlos Pérez de Rozas/Arquivo do Ayuntamiento de Barcelona

Kahan não podia saber que o barco que o salvou iria ter esse papel contraditório, mas podia ter deixado algum sinal de que, também no Brasil, ele foi um homem atento, num mundo descontrolado.

Azar do Brasil, Roger Kahan não ter sido adivinho, lá. Sorte a de Lisboa, onde ele viu o que ninguém nos mostrou melhor.

O marco do correio nº 591 na Rocha Conde de Óbidos

Em Lisboa, Roger Khan retratou os seus irmãos de fuga. Fotografou-os pobres na Cozinha Económica, onde se serviam 1500 refeições por dia. E também no porto de Lisboa, aguardando no cais das brumas, que no outono o Tejo tem muitas, e nesgas de esperança, que em 1940 havia poucas. Centenas, milhares, à espera do embarque, não sabendo se havia embarque. As fotos mostraram Lisboa num momento histórico e dramático da cidade. 

Confirme-se com as imagens desta página:

Artigo da revista Mundo Gráfico, com fotos de Roger Kahan, Lisboa-1940. Foto: Arquivo Histórico Diplomático do MNE, Lisboa

Kahan ilustrava factos tão substantivos como aquele burguês, de chapéu, gravata e gabardina, numa espreguiçadeira de aluguer, sentado resvés ao chão, entre trilhos das vagonetas de porto. Ele e o filhito a aguardar salvação, num cais de embarque lisboeta.

Fotos daquelas sem filtro, para nos prevenirem de que guerras – ou operações especiais – são uma tramada condição humana.

Alguém com sentido de negócio levara para o cais cadeiras de lona, daquelas de praia. O refugiado burguês ainda tinha com que alugar a espreguiçadeira, poupando o vexame de se sentar no chão. Já outra refugiada, de chapéu, no cais, sentava-se numa mala, apesar de haver, ao lado, uma tentadora espreguiçadeira encostada a uma parede.

As testemunhas que sabem contar, por talento ou generosidade, assinalam os momentos que nos entregam. Quando o fotógrafo Roger Kahan nos quis dizer o que via, encheu o cais de uma confusão de malas. Ou ia para o cimo do portaló para fotografar os que ansiavam subir a escada do navio.

Mensagem entendida: Lisboa, 1940, era lugar de fuga.

As duas fotografias têm também a utilidade de nos dizer o local dos embarques. Na foto das malas, vê-se ao fundo o Museu de Arte Antiga, com as seis grandes janelas da frontaria virada ao Tejo.

Na do portaló de embarque, vê-se uma ponte giratória, à esquerda.

As fotos foram feitas, claro, no cais da Rocha.

Obrigado, Roger, porque, hoje, infelizmente nada ali me diz: foi aqui. E é tão importante alguém nos dizer dos nossos grandes acontecimentos: foi aqui.

Mas reparem melhor na foto do portaló: no enfiamento da doca, à direita, há um edifício mais escuro, de dois pisos. Aquela casa, hoje, está abandonada, com cadeado à porta, paredes descamadas e se calhar preparam-lhe a demolição.

Porém, ela tem uma marca ilustre – e não é a placa que lá está e lembra que ela foi inaugurada como posto de desinfeção, em 1906, pelo rei D. Carlos e o seu ministro Hintze Ribeiro.

O que ilustra a casa abandonada é o marco do correio nº 591, ao seu lado. Pormenor fundamental duma foto icónica de um momento importante de Lisboa. Porque diz: foi aqui.

Foi ali que aquela mulher esteve, um dia, no Posto Marítimo, na esquina mais longe do Tejo. 

O pouco e enorme que Roger Kahan fotografou naquela doca foi uma homenagem ao sagrado direito dos homens e mulheres viverem e ser livres. Aqueles foram os dias em que Lisboa foi o lugar, o único na Europa, que permitiu a muitos realizar esses desejos essenciais. Mais uma vez Lisboa se destacou, na história universal, por ser porto de partida. O porto de partida.

Poucos meses depois de Kahan ter feito as fotos, Almada Negreiros foi convidado pelo arquiteto Porfírio Pardal Monteiro para fazer painéis que iluminassem de arte as gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, em construção. Ambas iam ficar vizinhas, no prolongamento do porto.

Era assim, a caminho da foz, aparecia primeiro o marco do correio nº 591, igual aos outros – vermelho no corpo, negro na base e boca aberta para as últimas cartas – mas muito especial. Logo do outro lado da rua era a gare marítima da Rocha Conde de Óbidos. E, um pouco mais longe, a de Alcântara.

Hoje lá está tudo, mais os contentores e um restaurante de peixe com nome a condizer com esta história: “Último Porto”.

A encomenda era do ministro visionário Duarte Pacheco, que queria as gares para acolher turistas, porto de chegada. O arquiteto Pardal Monteiro, como era habitual, foi magnífico. E Almada, como de costume, foi ele próprio. Foi moderno, encheu as paredes de linguagem cinematográfica e banda desenhada, contou histórias, a da Nau da Catrineta e outras do povoléu lisboeta, meteu povo a comer as solas dos sapatos (como Charlot, na Quimera do Ouro), pintou varinas descalças e mostrou casais mestiços (como era ele com Sara Afonso).

Num dos dois trípticos da gare da Rocha Conde de Óbidos, no conjunto em que Almada descreveu um transatlântico, o portaló foi pintado dentro do navio. Em vez de ligar o barco ao cais – e mais, como queria o ministro, fazer descer os turistas – o artista pôs também o portaló a querer viajar. Partir, como os fotografados por Roger Kahan.

Desses frescos, disse Almada: “Nunca antes fiz melhor, nem obra que fosse mais minha.”

No tríptico poente da Gare Rocha Conde de Óbidos, onde o ministro queria turistas a desembarcar, Almada pôs emigrantes a partir e familiares a despedir-se. Lisboa, cais de partida. Como nas fotos de Roger Kahan

É esse o destino que deve ter o modesto marco do correio nº 591: juntar as magníficas arquiteturas das duas gares marítimas e os belíssimos frescos de Almada – museus – à saga humana extraordinária que aconteceu, ali mesmo ao lado, quando estavam em construção – história, drama, histórias.

Que bem ficaria a esse conjunto que na parede ao lado do marco do correio nº 591, na casa abandonada que assistiu a tanto, Vhils esculpisse o que muito bem entendesse sobre a memória que Roger Kahan nos deixou.

Na já muito referida reportagem da Mundo Gráfico, janeiro de 1941, escreveu-se que as fotos de Kahan “ilustrarão o livro Refugiados, a editar na América, do dr. Augusto d’Ésaguy e de Roger Kahan.”

Ésaguy era um médico português, líder da Comissão Portuguesa de Assistência aos Judeus Refugiados. E, de facto, Augusto Isaac d’Ésaguy, embarcou em Lisboa no paquete americano Excalibur, em abril de 1941, para Nova Iorque, onde tinha visto de entrada. Ele levava documentação, e também as fotos de Kahan, para armar com argumentos a poderosa comunidade judaica americana e salvar os judeus europeus.

Não era uma tarefa fácil, os Estados Unidos não estavam convencidos em abrir os seus portos aos perseguidos. No livro Coming to America: Refugees from de Holocaust, os universitários Mattthias Blum e Claudia Rei servem-se de uma viagem do navio português Quanza para mostrar a cegueira moral que o mundo vivia.

Meses antes da missão de Augusto d’Ésaguy, ainda no verão anterior, em plena fuga gigantesca dos judeus pela Europa, o Quanza saiu de Lisboa com 317 passageiros. Em Nova Iorque, 196 cidadãos americanos ou portadores de visto, desembarcaram e todos os outros, a maioria judeus, forram barrados. Mais 35 pessoas desembarcaram no porto seguinte, no México, e o Quanza, na viagem de regresso, ia devolver os restantes 86 judeus à Europa. Parecem contas de merceeiro, mas é a História bem contadinha como ela tantas vezes merece.  

Felizmente para os indesejáveis, o barco parou em Norfolk, na Virgínia, para se abastecer de combustível. Eleanor Roosevelt, brava ativista de boas causas e mulher Presidente Franklin Roosevelt, encabeçou um protesto e foram dados vistos de entrada a todos.

O paquete Excalibur, de navio para cruzeiros no Mediterrânio, com a guerra na Europa converteu-se em transporte de refugiados. Foi neste navio que, em abril de 1941, o médico português Augusto d’Ésaguy partiu para Nova Iorque com as fotos de Roger Kahan

Do livro Refugiados nada mais se soube. As fotos de Kahan sobre os judeus em Lisboa estão datadas de outubro e novembro de 1940. São poucas e feitas em curto tempo, mas boas e raras. Perto do fim da guerra, a revista Vida Mundial iria servir-se das mesmas para voltar a mostrar refugiados. Todas estão nos arquivos da Joint (JDC Archives), em Nova Iorque. 

Na mesma altura, Erika Mann passou por Lisboa. Filha do futuro Nobel de Literatura Thomas Mann, ela trabalhava para a BBC nos programas em alemão contra Hitler e procurava desesperadamente um visto para o tio, Heinrich Mann, cujos livros, e os do irmão, tinham sido queimados nos claustros das universidades alemãs. À Lisboa retratada por Kahan, Erika definiu-a “esperando por um salva-vidas” e “metrópole dos fugitivos.” Há épocas e lugares que convocam os mesmos olhares a quem sabe olhar.

E Roger Kahan também se ocupou da outra Lisboa

Finda a Segunda Grande Guerra, já em 1946, a revista Panorama fez-nos uma surpresa: Roger Kahan não fotografou só os seus companheiros de desgraça, mas também se fascinou por Lisboa. A revista era do Secretariado Nacional de Informação, feita para propaganda, mas com bom gosto.

Naquela edição (Panorama nº 28) havia um texto do escultor Diogo de Macedo, que ao escrever sobre a sua especialidade rematava com uma bela frase: “O maior e mais imponente monumento de Lisboa, é sem dúvida o Tejo, obra de Deus.”

A surpresa aparece no texto de abertura, assinado por Vitorino Nemésio, que escreve, com a elegância esperada dele, sob um título simples, “Esta Lisboa.” E a quase totalidade das fotos são de Roger Kahan, feitas aquando da sua passagem por Lisboa, seis anos antes, como pária, indesejável.

O vendedor ambulante de gravatas que se dá ao luxo de se fazer engraxar os sapatos. Retratos de um amante efémero, Roger Kahan. Hemeroteca de Lisboa, revista Panorama no 28, 1946

Para o fotógrafo refugiado também o principal de Lisboa é a maior obra de Deus (e ainda mais que o Tejo): os homens e as mulheres. Os monumentos, no máximo, servem de moldura para mostrar mulheres e homens.

Os gelados Veneza e a mulher da bilha de água, no Terreiro do Paço. Hemeroteca de Lisboa, revista Panorama no 28, 1946

A Panorama, na assinatura das fotos, chama-lhe sempre Roger Kahn e numa legenda apresenta-o como “Roger Kahn, cineasta polaco que há tempo passou por Lisboa.”

É ingrato o engano no nome, é curto porque omite a circunstância que o levou o francês a Lisboa, mas é comovente registar-se que, no meio do seu drama, ele tenha guardado tempo para olhar a cidade. 

E tão bem a viu.

O Roger Kahan do cinema

A Panorama chamou-lhe “cineasta polaco”, como anteriormente a revista Mundo Gráfico o julgou “famoso repórter do Cine-Monde”. Chutavam ao lado, mas com algumas pistas. Em França, de onde nos chegou, Roger Kahan aparecia nas fichas técnicas de grandes filmes.  Por exemplo, esta foto é ele:

Isto é, é ele do outro da câmara, fotografando Jean Gabin e Michèle Morgan para a promoção do que se tornaria um filme de culto, Cais das Brumas, de Marcel Carné, em 1938. Para medir a importância do filme: é o realizador, são os atores, os décors, o cenário e os diálogos do poeta Jacques Prévert…

Kahan fotografou os protagonistas, o par que imortalizou a mais famosa frase do cinema francês: “T’as des beaux yeux, tu sais”, tens belos olhos, sabes, disse Gabin aos luminosos olhos azuis da Morgan. Mas o papel de Kahan, cirandando pelas filmagens, não se ficava por belos olhos. O cais do Havre era assim, as praias, assim, e as ruas sombrias, assim: 

Entre 1933 e 1939, Roger Kahan foi um dos fotógrafos de cena preferidos pelos grandes realizadores franceses. Marcel Carné contratou-o para três obras-primas: Drôle de Drame (Famíla Exótica), Quai de Brumes (Cais das Brumas) e Hôtel du Nord

Mais de 80 anos depois, segundo a Cinemateca Francesa, as fotografias de filmagens mais consultadas dos seus arquivos são as de filmes de Alfred Hitchcock, de Godard, e de Marcel Carné. As deste último, quase sempre, são do seu fotógrafo de cena Roger Kahan.

Já perto das cenas finais do Cais das Brumas, o par de personagens, não os atores Michèle Morgan e Jean Gabin, que Kahan tanto fotografou, mas os personagens que eles interpretam, “Nelly”, a jovem prostituta, e “Jean”, o desertor, são fotografados num parque de diversões manhoso.

Num cenário tosco, na popa de um barco falso, atrás da boia Normandie, eles posam para o fotógrafo ambulante que se debruça sobre o “caixote” de tripé. No filme, o fotógrafo à la minute aparece de costas, corpo ancho, apertado pela gabardina e com o típico boné francês.

Roger Kahan falava pouco da sua convivência com a glória do cinema francês. A família só tinha uma noção vaga, guardada num velho álbum.

Quando contactei Rona Kahan Coster, pedi-lhe fotos desse período. “Ele nunca mais fotogrfou”, disse. Entre as fotografias que enviou, uma mostra-o debruçado sobre a sua máquina de fotógrafo de cena. Ele estava de gabardina e boné. Ele sabia que a sua profissão, fotografar factos – aquilo que é a feitura de um filme – afinal era tão ficção como a ficção dos filmes.

A vida é um parque de diversões – quer dizer, às vezes não é, como se viu no fim do Cais das Brumas, e Roger Kahan, o homem, soube-o uns meses depois.

Roger Kahan a fotografar, durante as filmagens do Cais das Brumas, 1938 Fotos cedidas à Mensagem de Lisboa pela família

Rona mandou-me outra foto do sogro, ainda sobre Cais das Brumas. De Rolleiflex pendurada ao pescoço e mãos nos bolsos, o jovem fotógrafo parecia ter pedido a alguém para o enquadrar ao lado de um grupo de homens que dirigia as filmagens.

Talvez naquele dia, naquela cena de exteriores no Havre, ele pensasse: “Um dia vou poder mostrar o que vai ficar escrito no verso desta foto: eu, com Marcel Carné (o de óculos escuros).”  Nesse tempo ele ainda tinha ilusões de que o passado merecia ser lembrado. Mas, em junho de 2022, não havia nota alguma no verso da foto.

A fotografia foi feita para ser pessoalíssima e banal: um jovem, num trabalho fascinante, quis guardar uma recordação. Mas era como se Roger Kahan atraísse sempre histórias: esta imagem insinua um dos mistérios do Cais das Brumas

Com créditos firmados, o realizador Carné tinha garantido o apoio dos estúdios, até lhe deram Gabin. Filmagens começadas, o produtor Grégor Rabinovitch começou a ouvir ecos de cenas mórbidas e fatais…

Um dos personagens, “Michel Krauss”, artista decadente, explicava, de forma soberba, aliás, o que fazia: “Pinto coisas, sem querer, por de trás das coisas… Um nadador, para mim, é já um afogado”. Mas uma coisa eram os diálogos de Prévert, matéria poética. Outra coisa, seria filmar um suicídio…

Sabendo que Carné queria filmar “Krauss” a suicidar-se, entrando, de costas, nu, pelo mar dentro, o produtor chamou a Paris Robert Le Vigan, o ator que fazia o papel do pintor. Então, no Havre, Carné pediu a um ajudante de câmara, com o perfil igual ao de Le Vigan, alto, magro e de nariz vincado – como o homem que está na foto e na praia, ao lado de Roger Kahan – para fazer de “Krauss” e filmou o suicídio.

No fim, o produtor Rabinovitch acabou por ganhar, e a cena foi cortada. Desapareceu da memória fílmica. Será que Roger Kahan, com a sua foto que nem foi feita por ele, guardou mais uma memória universal?

Kahan também trabalhou no filme seguinte de Carné, Hôtel du Nord, outra obra-prima. Em janeiro de 1939, ano em que a guerra ia começar, a revista Cinemonde publicou um artigo sobre Marcel Carné. O curioso do texto é o realizador, conhecido por dizer “o meu país é o cinema” e de nada mais o interessar, ter passado essa rodagem a falar de política, sem se dar conta que o fazia.

A Europa tremia de medo, Hitler fazia discursos atravessados por relâmpagos. E Carné gritava: “Onde é que está o eletricista que ainda ontem cá estava?” Cada dia era uma nova ausência: “O técnico de som também desapareceu?!” Qual Checoslováquia invadida!, qual ameaça à Polónia!, o que Carné queria era acabar o filme. Mas o pessoal do filme, uns chamados para a tropa, outros escapando-se para lugares mais seguros, iam desertando.

O fotógrafo de cena foi dos poucos que cumpriu o papel até ao fim. A prova é que o artigo da Cinemonde era ilustrado com as suas fotos dos bastidores – elas eram de Roger Kahan.

Nos meses seguintes já Roger era só mais um fugitivo, esperando, em Lisboa – no saco, a sua fortuna, uma câmara fotográfica. Tudo o mais era-lhe passageiro, transitório, até o visto para o Brasil. De definitivo só o passado: deixou para trás a sua fase de cinema, nunca mais participou em algum filme. A um terço da sua vida, embora pouco ou nada religioso, tornou-se um verdadeiro judeu errante.  Sempre atento às nuvens escuras, preparado para outros lugares.

Roger Kahan foi de Lisboa para o Brasil. Dois meses depois, Jean Gabin apanhou o vapor americano Exeter, em Lisboa, para Nova Iorque, esperava-o Hollywood e um belo caso franco-alemão com Marlene Dietrich. Na mesma altura, em Paris, Robert Le Vigan escrevia aos ocupantes nazis: “Quero participar na nova ordem entre os homens brancos que somos” e denunciava colegas à Gestapo.

Em 1946, finda a guerra, o bom ator e má pessoa foi condenado à degradação nacional. Já Roger Kahan tinha outra ocupação, outro país, outro nome e estava casado com uma negra.

América, América

O Brasil foi breve e sem vestígio.  Nos Estados Unidos, o sucesso foi rápido. Contratado pelo grupo de revistas Condé Naste, Roger Khan trabalhou para a Vogue, mas também fez capas para a Life, revistas de charme. O instrumento continuava a ser a máquina fotográfica talentosa, mas utilizava-a em área nova, o glamour.

Ainda recentemente uma revista internacional de arquitetura de interiores, a AD, num trabalho sobre os 25 maiores designers de interior do séc. XX, publicou um arranjo fotográfico de Roger Kahan, que aparecera na House & Garden, em 1942. Já nesse ano outra foto dele ficou famosa.

Ambas servem para datar a presença do nosso viajante no seu novo destino. A primeira celebrava o designer de interiores William Pahlmann. E detenho-me um pouco mais neste porque tendo sido chamado para a tropa, ele foi para um dos quartéis com maior mobilização, no Missouri, para ensinar como camuflar prédios. A América, pelo menos a mítica, sempre soube aproveitar os melhores dotes dos seus cidadãos. 

Já as graças acenando com a bandeira americana também foram úteis para lembrar uma condição nova de Roger Kahan: aquele país defendia-o. E ele agradeceu: a imagem participou na Buy US Bonds And Stamps, campanha para incentivar a compra de títulos e selos do Tesouro, para ajudar os Estados Unidos, já então em guerra, depois de Pearl Harbor. Ainda hoje a Condé Naste vende posters e canecas de café (por 20 dólares) com a foto originariamente patriótica.

O poster pela América apressou-lhe a naturalização e Roger aproveitou para mudar de nome, passou a assinar Roger Coster.  Porque era útil a um artista ter nome fácil de memorizar? Porque aprendera ser prudente deixar o passado para trás? O facto é que o presente lhe corria bem.

Em Nova Iorque, casou-se com uma belíssima negra haitiana, Laura Cadet, e, em 1943, tiveram um filho, já batizado com o novo nome da família, Roger David Coster. É chamando-lhe Roger Coster que continuaremos a seguir o nosso herói.

Laura Coster, o amor haitiano que Roger Coster encontrou em Nova Iorque. À esquerda , ela mais um Roger – o filho, Roger David Coster. Será Laura que vai levar Roger Coster para nova etapa, o Haiti do vodu e da grande literatura. Fotos cedidas pela família

Em agosto de 1945, a Popular Photography, dezenas e dezenas de páginas de publicidade a incentivar um hobby numa economia em expansão, apresentou-nos o sargento Roger Coster, da Força Aérea americana, que regressou a Paris, libertada, de máquina fotográfica na mão.

O texto que a revista pediu ao já conhecido fotógrafo de glamour é um pouco lamechas. Título, “Crianças Que Não Sorriem”, e texto, assim: “Os miúdos rasam os muros mordiscando um pedaço de pão.” Mas as fotos são boas, magoam apesar do mau papel e da impressão da revista. O sargento Coster escolheu fazer as fotos em Belleville, bairro pobre e operário, não longe do seu antigo bairro.

A América mobilizou-o e, conhecendo-lhe o dom da fotografia, deixou que o praticasse. Confesso que para a notável trajetória com que a vida de Roger me ia surpreendendo (com a exceção no Rio de Janeiro), esperava que a sua fase militar americana fosse tão imaginativa quanto à do tal designer de interiores num quartel do Middle West a quem puseram a ensinar camuflagem.

De Coster, eu esperava também o inesperado. Mas, tropa ou civil, na América, Roger Coster fez fotografias tecnicamente soberbas, mas não muito mais do que isso.

Capa da Life, verão de 1946. Foto de Roger Coster

Por alguma razão, na sua fase francesa, busquei nele a marca que deixou em grandes filmes. E liguei pouco à de profissional, que também foi, de estúdios fotográficos. O então Kahan passou pelo ainda hoje célebre Studio Harcourt, em Paris, onde aprendeu os segredos da iluminação e das sombras nos rostos dos famosos.

Já como Coster, ele transportou essa mestria da foto-estúdio para imagens de luxo nas lojas Bloomingdale’s, em Manhattan, depois publicadas na Vogue. Curto. Esse terreno sem drama nem aventura era um patamar inferior ao que Roger Kahan me habituara. Em França, no cinema, e em Lisboa, numa situação histórica, ele foi outra coisa.

O Studio Harcourt foi assim chamado por causa da proprietária Cosette Harcourt, falso nome da judia alemã Germaine Hirschfeld. Apesar da precaução, ela teve de fugir para Londres quando Paris foi ocupada. O que não impediu que houvesse, desde 1940, filas de oficiais nazis para o retrato com carimbo “Studio Harcourt”.

Boa história… numa história sobre o estúdio. Mas de que vale saber, numa história sobre Roger Kahan, que ele fotografou Charles Trenet no Studio Harcourt? Neste meu texto, o grande Trenet (La Mer, Douce France…) não vale evidentemente nem o pequeno pedestal negro do marco de correio nº 591 no cais da Rocha.

E toda a passagem de Roger Coster pela América, cerca de oito anos, não teve testemunho como nos habituara. Carreira bem-sucedida, bela mulher, família feliz. Mas as vidas felizes raramente dão grandes histórias.

Em 1950, com 37 anos, valerá a pena continuar a contar o nosso Roger? Oh quanto!   

Um hotel, Graham Greene e mais destinos cruzados

Foi Laura que apresentou ao marido a próxima paixão assolapada dele. Levou-o à sua cidade, Port-au Prince, capital do Haiti, e ele viu o Hotel Oloffson.

Decadente, com frontaria rendilhada, torreões pontiagudos, jardim de buganvílias e palmeiras, entre o conto de fadas tropical e a casa da Família Addams. Roger fascinado, os Coster compraram o Oloffson em 1950 e puseram-no na rota dos artistas americanos.

O Hotel Oloffson no Haiti.

Nesse tempo, com grande sucesso, nos jornais americano havia um cartoon de humor negro e arquitetura gótica, o Family Addams, que mais tarde saltou para séries de televisão e filmes com sequelas.

Laura Coster escreveu ao autor, “temos no Haiti um hotel que parece os seus desenhos” e convidou Chas Addams a ir visitá-los. 

Foi o começo de um corrupio de atores e escritores durante mais de uma década, de Tennessee Williams a John Gielgud. O romancista inglês Graham Greene hospedou-se lá das três vezes que esteve no Haiti.

O Oloffson era conhecido como a “Greenwich Village dos trópicos”, cercado por um povo na miséria e cultuando o vodu.

Na sua última estada, em 1963, o inglês Greene dedicou-se a recolher testemunhos dos crimes do ditador Duvalier, que governava o país. Médico da província, François Duvalier ganhara uma fama que lhe emprestou alcunha carinhosa, Papá Doc. Contudo, quando tomou o poder, em 1957, transformou-se num ditador, apoiado numa trupe violenta com óculos escuros, os Tontons Macoute.

O Papá Doc estava convencido de que o terror era a forma eficaz de governar. Era oficialmente que se punha a correr que os Tontons Macoutes não gostavam de ser olhados. As lentes escuras não permitindo saber o que eles viam, o povo fazia-se polícia de si próprio e não olhava.   

Desse Haiti, Graham Greene aproveitou o cenário local para escrever, em 1966, um grande romance, cínico, Os Comediantes, onde o pano de fundo é o famigerado Papá Doc, a sua ascensão, brutalidade e desonra. Duvalier ainda estava no poder quando o livro saiu – morreu, ditador, em 1971.

 Os personagens principais do livro vivem no “Hotel Trianon”, que o próprio Greene confirmou em várias entrevistas ser, de facto, o belo e estranho Hotel Oloffson (“eu chamo-lhe Trianon, em Os Comediantes…”), onde já estivera hospedado. 

E o protagonista do livro e narrador é um tal “Brown”, europeu que, como Greene conta, foi “para o Haiti para ser dono do ‘Trianon’”.

Ora, das duas primeiras vezes que o escritor inglês esteve no Haiti, na década de 1950, o dono do Hotel Oloffson era Roger Coster, que o comprou fascinado e quis fazer dele um sucesso. Na vida real, Coster conseguiu. No seu romance, Greene diz que também esse era o sonho de “Brown”, mas o hotel deste só tinha três clientes, o terror do Papá Doc afastara os turistas.

Na vida real, o proprietário Roger Coster dava aos quartos o nome de alguns clientes famosos – havia, por exemplo, uma “suite Graham Greene”. Modesto, o escritor, em Os Comediantes, não se citou e no hotel “Trianon” só havia uma “John Barrymore suite”.

Julgo que, em entrevistas, Greene nunca se referiu explicitamente a Roger Coster como tendo-o inspirado para a novela. Talvez para proteger o fotógrafo-hoteleiro, porque Greene conhecia a sanha do ditador François Duvalier. Publicado Os Comediantes, em 1965, um libelo contra o ditador, logo o Papa Doc mandou todas as embaixadas haitianas distribuir uma brochura sobre os pecados sexuais e de droga do católico Graham Greene.

Na biografia que fez ao escritor, A Vida de Graham Greene, Norman Sherry diz que encontrou Roger Coster e este lhe contou: “Um dia, em Paris, eu e a minha mulher fomos ver o filme Os Comediantes e, de repente, vimos o Oloffson, o meu hotel…” Bem, de facto, já não era.

Filmado em 1967, se a produção de Os Comediantes conseguira contratar um cast fabuloso – Richard Burton, Liz Taylor, Alec Guinness, Peter Ustinov… – falhou um protagonista essencial, o Hotel Olofsson. O ditador proibiu que se filmasse no Haiti e os locais de filmagem foram num modesto hotel no Daomé, em África. Mas o cinema é uma ilusão e até consegue enganar o sonho de um homem.

Poster do filme Os Comediantes, 1966, com guião de Graham Greene, também autor do romance com o mesmo nome. 

Graham Greene trabalhara, durante a Segunda Guerra Mundial, nos serviços britânicos de espionagem no exterior, o MI-6. O seu departamento londrino dedicava-se à importantíssima Lisboa, então epicentro mundial onde se enganavam mutuamente os espiões ingleses e alemães.

Nessa altura, Greene não foi a Lisboa, não foi agente no terreno, mas fartou-se de ler relatórios sobre poder e traficâncias. Será que essa coincidência – Lisboa – na vida de Greene e de Kahan (Coster), nunca foi falada quando conviveram no Haiti?

Como se conta na biografia de Greene, vida real, o bordel a que Roger Coster levou Green, em Port-au Prince, chamava-se Georgette’s. No romance passou a ser Mère Catherine’s e em qualquer porto de África foi fácil encontrar um local semelhante para ser filmado. As ficções seguem a realidade, com maior ou menor verosimilhança.

Elizabeth Taylor e Richard Burton no filme Os Comediantes

No final do livro e também do filme, “Brown”, personagem, é obrigado a abdicar do sonho. Tem de deixar para trás, fugindo, o seu hotel “Trianon” e exilar-se no país ao lado, a República Dominicana.

Na realidade, já antes disso, no começo da ditadura do Papá Doc, Roger Coster, numa madrugada, teve de abandonar precipitadamente a sua casa, negócio e sonho, o Hotel Oloffson. Nuvens negras, altura de zarpar, o habitual. Fugiu para uma ilha vizinha, Porto Rico.

Neste episódio, aliás, “Brown” assemelha-se mais ao jovem Roger Khan, fugiram sozinhos, do que o solitário Roger, 1940, ao Roger, 1960, que fugiu com a família.   

Volto a perguntar: será que nas conversas dos dois, nas visitas impróprias ou ao balcão do bar do Hotel Olaffson e do seu famoso ponche de rum, nunca o tão meticuloso e curioso Graham Greene quis saber do passado do seu hospedeiro Roger Coster? Nunca surgiu à baila essa Lisboa, por onde o fotógrafo passou e que, de Londres, o ex-espião investigara?

Eu acho que sim.

Mais dos que as coincidências para as construções das personagens e cenários, Roger Coster deve ter falado ao escritor da sua passagem por Lisboa, no início da década de 1940, das angústias e esperanças. E mais – porque nos anos 50 ele já sabia – talvez Roger lhe tivesse contado que ninguém da sua família, deixada para trás, escapou da Shoah, nos campos de concentração nazis.

Embora não possa jurar, julgo que os dois falaram disso. É que, em Os Comediantes, há aquela sucessão de frases, curtas, mas poderosas, à Greene, que o garantem. Antes, o narrador “Brown” descreveu aqueles anos do Papá Doc.

Dos Tontons Macoute de óculos escuros, brutalizando de dia, esperando o escuro para começar a tortura, aterrorizando sempre. Do Presidente Duvalier, personagem de vodu, o Baron Samedi que gostava do povo miserável a tremer. Acabada a descrição, o narrador “Brown” concluiu em discurso direto:

“A situação não é anormal. Pertence à vida humana. A crueldade é como um holofote. Este varre de um ponto ao outro. Só podemos escapar disso por um tempo.” 

Sim, Roger Coster contou a Graham Greene a sua vida. Já era um potencial judeu errante quando nasceu em França. Normal que o holofote nazi o tenha apanhado nos trágicos anos 30 europeus. Normal, depois os Tontons Macoute o caçarem numa meia ilha do diabo…

Foi uma bênção, uma graça, Roger ter tido intervalos para escapar disso, ter a oportunidade de Lisboa ser porto, ter o visto para o Cabo Buena Esperanza o levar ao Rio, ter o sonho do hotel Oloffson, ter um talento para ir sobrevivendo, nos intervalos dos holofotes.

Agora, quando reli a minha antiga reportagem de 1990, dei conta da fotografia da Cozinha Económica, em Lisboa, e da mulher esperando num cais, sem dinheiro para se sentar numa cadeira, Lisboa, anos 40. Quis saber quem era aquele homem, Roger Kahan. Para dizer tudo, eu estava farto de lhe ver o nome, quando o punham, e algumas vezes, pondo, era errado, e sempre e só nas legendas, devendo-lhe nós tanto.

Eu estava farto de saber dele só nas legendas. Eu precisava saber dele, que tanto partiu, se alguma vez voltou aos lugares passados? Sim, voltou.

Voltou aos lugares passados e andou por outros. Abriu um restaurante, La Belle Créole, uma homenagem à mulher, no porto de Eilat, Israel, onde o filho Roger David Coster, se casou com Rona. O restaurante tinha três cozinheiras haitianas e o prato mais pedido era tarte de cebola.

Teve uma loja de tecidos exóticos no sopé das escadas da Praça de Espanha, onde estão as lojas de Alta Costura, em Roma, completando as origens israelita e italiana que o passaporte francês com que entrou e saiu de Lisboa lhe emprestavam. “Ele era um sismógrafo”, conta Rona. “Sempre que uma situação começava a sentir-se instável ele ia para outro lugar.”

Trotamundos por razões várias, incluindo esta: no bar sinistro do Cais das Brumas, o barómetro na parede mente. O eterno “Bom Tempo” anunciado é porque a agulha está fixa e avariada.

Encontrei o meu Roger, enfim pousado.

Na ilha de Aruba, no pequeno cemitério judaico de Oranjestad, uma lápide cinzenta devolve-lhe os nomes que defendeu e quis: “Roger Kahan Coster”, marcado com datas 1913-1987, dias e tudo. Morreu cercado pelos seus, a mulher Laura, o filho e o neto. Pousadas ao lado do túmulo, pequenas pedras da tradição judaica, dizem-nos que é recordado.

Às vezes, o holofote é menos cruel do que aquele que ceifou gente quase sem história, como vem no livro do pequeno cemitério da Lisboa oriental, a seis mil quilómetros de Aruba.

Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.


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3 Comentários

  1. Nossa, parabéns! Qué reportagem, qué investigação interessante! Histórica, antropológica…
    Muitas inspirações para continuar lendo, vendo, também…! Bravo!
    (Podía dar uma serie de artículos, de entrega regular, como se fazia antigamente, parcelando a história e creando suspenso!)

  2. É nestes dias que mais detesto o meu amigo José Ferreira Fernandes. Escrever assim, não se faz! Mais: devia ser proibido! Humilhar, desta forma, quem pense atrever, na sua modéstia de escriba comum, a teclar uma crónica despretensiosa é razão para corte de relações, quiçá de suicídio. Bolas, Zé! Vou-me embora! Desisto. Quando bebemos outro chá?

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