Nem todo mundo que anda por Lisboa está atrás de uma vida de luxo. Para muitos, é sobre buscar algo fundamental em um sítio onde a criatividade, o sentido de comunidade e as oportunidades convergem. Uma cidade que oferece um recomeço, uma espécie de paraíso para aqueles que procuram reinventar-se. Entre esses personagens está o artista irlandês de 26 anos Aodh Ó Riagáin, que trocou a fugiu da pressão imobiliária de Dublim para Almada, na Margem Sul de Lisboa. Uma mudança que teve a ver com encontrar um espaço – físico e mental – onde pudesse desenvolver sua carreira como artista e a sua arte.
Encontramos Aodh na Margem Sul do Tejo, em Cacilhas, onde o cacilheiro nos deixou no caminho para Almada. Esperava por nós com um amplo sorriso de quem claramente adotou a cidade com sua.
A figura de Aodh não passa despercebida: completamente vestido de preto e o visual algo andrógino são intrigantes. Os braços adornados com pulseiras sugerem a aparência de um lutador de rua ou um moderno Karate Kid, contrastando com misteriosas sombras nos olhos. A despeito do outfit de um guerreiro, a luta de Aodh é outra e cada detalhe em sua aparência é apenas uma extensão de quem ele realmente é.
A brisa do Tejo dá o tom da conversa, menos casual do que uma entrevista, enquanto seguimos por um lugar ainda por descobrir.
“Vivo em Almada há cerca de um ano. Cheguei em Lisboa trazido por uma tempestade de acontecimentos. O maior deles, a crise imobiliária na Irlanda. Como um artista freelancer, era difícil fazer frente aos arrendamentos cada vez mais altos de Dublim. Precisava de um sítio que coubesse no meu orçamento e Lisboa ofereceu-me isso e sou cada vez mais grato aos portugueses por me receberem”, conta.
A sinceridade de Aodh não quer dizer que não saiba dos desafios enfrentados por Lisboa. Ele está ciente de que a cidade que lhe oferece refúgio sofre as mesmas pressões de Dublim.
“Parti para fugir do alto custo de vida na Irlanda e sei que os portugueses estão a passar pelo mesmo. É um mundo estranho esse, onde as pessoas andam a procura de um lugar possível para morar e o problema parece mudar apenas de um sítio para outro”, reflete.
Vivência lisboeta caótica, mas sempre a seguir
A bordo do metro rumo ao coração de Almada, Aodh presta atenção ao ranger das rodas da carruagem no atrito com os carris, como se o balançar ritmado fosse uma metáfora da sua experiência portuguesa, um pouco caótica, turbulenta, mas sempre a seguir em frente.
Aodh parece animar-se quando o metro ganha velocidade.
“Curto o transporte aqui. É rápido e constante, embora tenha sempre de correr para apanhá-lo. Mas para mim, é algo muito maior do que um mero transporte”, conta, visivelmente entusiasmado.
A próxima paragem é na Biblioteca Municipal de Almada. “Apesar de ter estudado literatura inglesa, meu foco não é mais escrever romance. Mas o aprendizado no campo literário tem me servido no que faço agora na área do storytelling, seja ao criar uma banda desenhada ou uma ilustração. Há sempre uma narrativa nas entrelinhas”, reflete.
A maneira cuidadosa e até hesitante como Aodh se expressa não é por acaso. Não tarda é Aodh passa a experiência de viver com dispraxia, um transtorno neurológico que afeta a coordenação motora, a linguagem e o raciocínio.
“Um dos aspetos da dispraxia é que lhe obriga a formar sentenças palavra a palavra. Situa-se no espectro entre a dislexia e o autismo, o que faz com que a maioria das pessoas tomem você como um pouco parvo. Mas vai muito além disso. Para mim, afeta a tonicidade dos meus músculos, o que contribui com a minha aparência meio fracote”, diz, usando o conhecido senso de humor irlandês para quebrar a seriedade do momento.
Apesar das dificuldades inerentes à dispraxia, Aodh enxerga em Lisboa um lugar onde suas habilidades podem florescer. “O sol é decisivo para a minha saúde mental, assim como a luz e o cenário idílico e até infantil ao redor, com fontes e os jovens e seus skates”, diz, mirando o azul do céu lisboeta.

Ainda em Almada, as cores de um mural numa das paredes da biblioteca rouba a atenção dele, que passa a mirar os detalhes da ilustração, como se a visse pela primeira vez. “Não sei precisamente que história esse mural conta, mas apenas admirá-lo é fantástico, não é?”, afirma, com as mão a percorrer as formas de criaturas mágicas, entre elas a sua favorita, a “mulher-árvore”, um forma feminina com braços humanos. “Eu amo-a”, anuncia.
O mural, soubemos mais tarde, é um trabalho de Rogério Ribeiro, um dos mais conhecidos artistas portugueses. Foi inspirado na Peregrinação do século XVI, o livro de crónicas das aventuras do explorador Fernão Mendes Pinto. A relação entre explorar e descobrir toca Aodh de uma forma intensa, refletindo sua condição de artista e imigrante a desbravar uma nova cidade.
O contato com o mural faz Aodh falar como o seu processo criativo estende-se ao mínimo detalhe ao seu estilo de se vestir. “Gosto quando as pessoas vestem-se de forma a revelarem a si mesmas. É como usar uma fantasia”, elabora.
A tinta como contato com a alegria
Sua abordagem à forma de se vestir, como na sua arte, tem fortes ligações com a arte performática. “Para mim, muito do que faço vem de uma certa tradição circense”, revela. “Há uma intenção de criar um certo encantamento, fazendo de você mesmo uma espécie de espetáculo e assim as pessoa prestam atenção no seu trabalho.”
Aodh vive em Almada num dos andares mais altos do seu apartamento, o que lhe rendeu uma experiência nada agradável durante o último tremor em Portugal. “Sabe, a Irlanda não tem terramoto e foi uma experiência única para mim. Sou notívago e trabalhava pelas 5 da manhã quando aconteceu. Nunca senti nada igual. Quando se vive num andar tão alto, não é nada confortável quando o chão começa a tremer”, confessa.
A lembrança leva à relação de Lisboa com os terramotos, especialmente o maior deles, em 1755, que devastou a cidade. “É um fantasma que sempre nos ronda, sabe? Lisboa sempre está à espera por um dos grandes e quando a tudo começou a tremer, pensei, será esse? Ainda bem que não, mas ainda me assusto bastante”, conta.

O quarto onde Aodh vivenciou o terramoto é uma mistura de santuário e espaço de criação, repleto de pincéis, latas de tina e desenhos em vários estágios de produção. “É aqui onde a mágica acontece. Amo trabalhar com tinta, com sua natureza tátil. Pode-se tocá-la com as mãos, sentir o contato com a pele, o que é uma alegria”, afirma.
Uma alegria que se traduz num amplo leque de trabalhos, de ilustrações às novelas gráficas e bandas desenhadas experimentais. A mitologia irlandesa está sempre presente, misturando histórias antigas com técnicas modernas de criação, o que finda num resultado único. “A mitologia irlandesa me inspira bastante e é um desafio pensar em novas formas de interpretar os velhos mitos.”
Alguns dos seus projetos, como as novelas gráficas, estão há anos em processo criativo. “Pode parecer uma loucura mas eu encaro os diferentes tipos de arte como os dedos de uma mesma mão. Estão todos atados pelo mesmo impulso criativo. Quem perceber a lógica de um dos meus trabalhos, tende a vê-la em outro.”
Do Ulisses de Joyce à dança dos neurónios
Deixamos o apartamento apressados para apanhar o metro de volta. A corrida por Almada revelou que o processo artístico de Aodh tem muito a ver com viagens e destinos, como ficou claro quando traçou um paralelo entre sua experiência lisboeta e a do conterrâneo James Joyce, no livro Ulisses.
“A trama de Ulisses percorre 24 horas em Dublin, capturando um momento no tempo através dos olhos dos personagens da cidade. De alguma forma, é como me sinto em Lisboa, observando cada momento como se fosse único, cheio de interesse pelas pessoas e os acontecimentos.”
De volta às docas e prestes a partimos de Almada, mas antes do ponto-final na entrevista, Aodh saca um chaveiro em forma de um neurónio. “Foi presente de um dos meus melhores amigos, um neurocientista. Temos milhares deles em nosso cérebro e a cada decisão, por menor que seja, todos movem-se em sincronia, como naquela coreografia das olas mexicanas nos estádios de futebol”, explica.
“É o que tento reproduzir quando me comunico com as pessoas através da arte que faço: estimular as pessoas como os neurónios, num movimento em massa, mas que começa sempre com o start de um só neurónio”, continua.
Com os olhos a brilhar de paixão, Aodh revela que o dragão que anda a caçar é o fluxo criativo para a sua arte. Mas não é só isso. “Um dos livros que tem me inspirado é The Carrier Bag Theory of Fiction, de Ursula K. Le Guin, que fala sobre as duas chaves fundamentais da humanidade: o bastão e a bolsa”, revela, para depois desenvolver sua teoria.
“O bastão é o confronto, sou eu contra você. Mas, daí vem a bolsa, a ideia de guardar algo, de preservar algo, o pensamento mais ancestral da humanidade de coletar alimento, grãos e frutos. Precisamos de uma bolsa, desse sentimento que nos traga de volta para casa. Não é sobre conflito, mas a vida sustentável, um ideia que me fascina.”

Uma ideia que Aodh relaciona com seu conceito de arte. “Para mim, meu trabalho é como essa bolsa. Em vez de criar um trabalho centrado no conflito, crio algo que preserve um momento mágico. O que me tem feito investir numa consciência de preservação”, completa.
Uma consciência que reflete no seu trabalho, como o rio nos seus olhos. “Penso que a arte pode contribuir com a cura. De alguma forma, é o que tento fazer, tentar contribuir com o bem-estar das pessoas através das histórias, permitindo uma catarse através da pintura.”
Para ilustrar seu pensamento, Aodh recorre ao mito do pyschopomp, que permeia várias mitologias e religiões na pele do barqueiro que conduz as almas da Terra para o mundo dos mortos.
“O papel de um artista é ser um psychopomp. Há sempre alguém a vivenciar uma perda e espero usar o trabalho que estou a fazer para contribuir com um pouco de cura e bem-estar. Com algo que faça as pessoas restituírem a esperança”, diz, enquanto levanta os dedos no conhecido sinal de paz. “Fiquem bem”, deseja, antes de virar as costas em direção Almada, deixando no rasto de suas palavras o poder um neurónio capaz de iniciar um movimento contagiante.

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