Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Nos anos oitenta, quando a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança começou a ser imposta em vários Estados dos EUA, muitos protestaram contra o que entenderam ser uma violação da sua liberdade. Na primeira década deste século, a proibição de fumar em espaços públicos fechados também foi vista por muitos como uma imposição de um higienismo insuportável.

Estas mesmas pulsões ecoam sempre que o Estado decide condicionar pela via legislativa comportamentos com impacto na segurança ou na saúde pública, como sucedeu em Portugal aquando da discussão de um projecto de lei que limitava a quantidade de sal no pão. Sabemos o que sucedeu depois.

Haverá porventura um ou outro automobilista libertário que ainda se agarra ao seu direito a uma morte estúpida, como haverá quem ainda resmungue por ter de se levantar para fumar o cigarro pós-prandial e quem jure que começou a fazer pão com sal a gosto uma década antes da moda caseira que a pandemia fomentou, mas a revolta social evaporou-se muito antes de começarmos a ter dados sobre o efeito benéfico de qualquer uma destas medidas.

Se a liberdade é um valor essencial, como explicar que seja defendida de um modo tão pontual, efémero e caprichoso por quem mais se opõe ao poder do Estado?

A fantasia do progressista está no futuro. Para os comunistas, a ideia de um homem novo resiste a qualquer evidência empírica porque a URSS, a Coreia do Norte, o Cambodja e Cuba, experiências falhadíssimas, não têm ou tiveram regimes realmente comunistas. Como faltaria cumprir o comunismo, salva-se a fantasia.

A fantasia do conservador é diametralmente oposta, pois assenta na idealização do passado. Mas o conservador também resiste ao confronto com a experiência empírica e será inútil tentar convencê-lo de que há cem anos só a alta elite não vivia em Portugal muito pior do que vive hoje.

Traço caricaturas, obviamente, mas para frisar que a fantasia do liberal é menos discutida do que as anteriores. E a explicação parece-me simples: como a fantasia do liberal actua no presente, está tão entranhada que mal se dá por ela.

A fantasia do liberal não se desmonta acabando com a ideia de livre arbítrio; sem cometer a imprudência de tentar esclarecer se o livre arbítrio é real ou ilusório, lembro apenas que acreditar nesta ideia é fundamental para o funcionamento de qualquer modelo de sociedade.

O liberal revela-se fantasioso sobretudo quando entende a sua mundividência como uma emanação de um pensamento singular e independente das circunstâncias. O liberal (ainda uma caricatura, admito) não aceita ou prefere ignorar todas as condicionantes sociais e naturais que moldam a sua visão do mundo, para que as suas opções de vida pareçam verdadeiramente livres e não versões aligeiradas da escolha da última refeição pelo condenado à morte.

Esta ilusão que é o amor a uma liberdade pura tem um lado nobre, pois atenua a dimensão trágica da existência e mantém o cidadão alerta contra as tentações autocráticas, mas a falta de noção das múltiplas proibições e condicionantes que nos vão moldando potencia uma recusa pavloviana de qualquer novo potencial interdito. E no momento em que o interdito é aprovado, tende a ser imediatamente esquecido, como se não se quisesse reconhecer a relevância de todos os interditos prévios e fosse essencial persistir no presente.

A recente proposta do Livre para a redução em 10 km/h do limite de velocidade dos automóveis que circulam em Lisboa foi recebida com muitas críticas, destacando-se uma intervenção de Sérgio Sousa Pinto numa tertúlia televisa. Incentivado pelo riso dos seus colegas de painel, o deputado ofereceu-nos uma diatribe em crescendo contra os activistas, que “estão sempre em actividade” e são uns chatos ”por natureza”.

Foi esta a substância da intervenção de Sérgio Sousa Pinto, limitando-se a surfar a onda de indignação que um novo interdito sempre provoca, sobretudo quando está em causa o sacrossanto direito de circulação automóvel, logo também defendido pelo eterno Carlos Barbosa, presidente do ACP.

Sabemos que o volante espicaça os instintos agressivos do homem e que é grande a resistência à perda de direitos, mas os defensores do statu quo terão de se esforçar com argumentos técnicos contra a redução de um limite de velocidade.

Será o aumento do tempo de viagem compensado pela redução da sinistralidade, ruído e poluição? É a única questão a ponderar.

Não tenho sequer uma opinião forte sobre o tema e estar de acordo com o ar do tempo não deve dispensar uma avaliação criteriosa de custo-benefício. Mas não ficarei surpreendido se as reacções pavlovianas sem substância a que assistimos nas últimas semanas se revelarem tão efémeras como foram muitas a outros novos interditos. Tende a ser assim com as dores de crescimento.


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.