Vila Berta Graça Santos Populares

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Engana-se quem pensa que o arraial da Vila Berta é um dos mais jovens dos bairros históricos de Lisboa. O registo mais antigo da festa vem de uma fotografia de 1910, com a rua decorada para os festejos comandados pelo organizador do evento, o industrial Diamantino Tojal, para celebrar os Santos Populares entre os moradores da simpática vila operária que ele mesmo construiu, no coração da Graça.

“É suposto, porém, que tudo tenha começado ainda antes”, acredita o bisneto de Diamantino, André Tojal, 40 anos, responsável, décadas depois, por recuperar a tradição dos Santos Populares ali, interrompida após a morte do patriarca.

A nova fase do arraial começou em 2009 – e daí a impressão de ser um evento recente – e dez edições depois já ganhou a fama de ser um dos mais animados arraiais de Lisboa.

A integração entre os vizinhos é o elo entre o passado e o presente do arraial. Assim como na foto de 1910, os cerca de 200 moradores das 80 casas da vila continuam a participar ativamente na preparação e na condução dos dez dias de festa. “Os mais jovens ficam com o trabalho pesado e os mais velhos ajudam em serviços mais leves, como a decoração”, conta André.

O empenho dos moradores tem um bom motivo, afinal, o dinheiro arrecadado durante os festejos é revertido para a reabilitação da vila. Foi com os fundos das edições anteriores que as fachadas das casas foram pintadas, os azulejos reparados e os cabos elétricos expostos substituídos por uma fiação no subsolo.

A decoração para os Santos Populares é realizada pelos moradores da Vila Berta.

Cenário de filme que se transforma em arraial

Construída no início do século passado, a Vila Berta foi planeada para alojar os funcionários das indústrias administradas por Domingos Tojal, com uma peculiaridade: do lado ímpar, estavam as casas dos operários e, do par, onde podem ser vistas as moradias com varandas, viviam os patrões.

A arquitetura típica das vilas lisboetas do século passado ainda hoje chama a atenção e a pequena rua é constantemente cortada por tuk tuks com turistas. A Vila Berta também serviu de cenário para anúncios de televisão e foi o set para o filme e a série O Pátio das Cantigas.

José Malhoa abriu a programação da Vila Berta este ano. Foto: Líbia Florentino.

Desde 2009, em junho, esse cenário transforma-se no arraial da Vila Berta, que se estende pelos 200 metros da rua, vizinha à via principal da Graça. A entrada oficial dá-se por um arco e segue por entre as bancas de bebidas, bifanas, petiscos, doces e bolos e, é claro, de sardinhas, todas sob a responsabilidade dos vizinhos, que se revezam no atendimento e preparação.

André Tojal, responsável por manter viva a tradição do arraial na vila. Foto: Inês Leote

A participação dos moradores também é a garantia de que nenhum deles irá protestar por causa do barulho das festas noite adentro.

No centro da vila fica o palco principal, reservado para as atrações diárias, entre elas o cantor José Malhoa, que abriu a programação na noite de sexta-feira, 3 de junho.

O dia 5, o domingo marcou uma das peculiaridades da Vila Berta, o Arraial dos Miúdos, exclusivamente dedicado às crianças, a partir das 16 horas. No dia 9, é a vez da Noite do Fado Vadio, sob a responsabilidade dos proprietários da Tasca do Jaime, também na Graça.

Outra tradição desta nova fase do arraial é a cabine do DJ, instalada no jardim de uma das casas, onde o DJ residente Cota Ruisadas recebe convidados para batalhas na pick-up, entre as apresentações no palco principal, sempre a tocar música portuguesa. “Oitenta por cento do repertório é pimba, embora haja espaço para outras faixas do pop português”, explica André.

A variedade das atrações talvez seja o segredo de o arraial da Vila Berta ser considerado o mais animado de Lisboa, o que desde já vale uma visita para comprovar também a fama de bons anfitriões dos moradores.

Atenção, apenas, para um detalhe importante: ao contrário da maioria dos arraiais lisboetas, a Vila Berta não abre as suas portas durante o mês de junho todo, mas apenas até o dia 12.

Afinal, o que é bom dura pouco.

As sardinhas, o petisco rei das Festas Populares, também marcam presença nas grelhas da Vila Berta. Foto: Líbia Florentino.

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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