Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Tenho por mau defeito dizer que há gente que vive chorando de barriga cheia. Bom, primeiro, a frase é retirada da música do Zeca Pagodinho: “Na vida, a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia.” Fico eu a pensar: Portugal já resolveu todos os seus problemas para haver um partido que anda a lamentar-se por causa de um certo tipo de carne? Se é halal, se não é, se é boi ou vaca, se o animal morreu de cabeça virada para Meca ou para o Santuário de Fátima. Epá, estas coisas causam-me sempre impressão.

Numa dessas vezes, a caminhar pelo Chiado, vi um, dois, três mendigos na rua. Ah, desculpem-me: vi duas mulheres e três homens com latas à frente, com um cartaz a pedir ajuda para o cão. O texto era mais apelativo do que isso. Olhei, e eles iam fazendo festinhas aos cachorros que definhavam a olhos vistos. E eu ali, com a consciência a pesar, a pensar se devia dar 1 euro (cerca de 75 meticais) para ajudar o cão mendigo ou se devia dar para um Homem mendigo em Maputo que precisa de um pão de 10 meticais (0,15 euros). Mas não será por isso que a África Subsaariana é a periferia do mundo? Em África, os cães têm o que comer e não precisam de mendigar. Em Portugal, as pessoas comem e os cães é que ficam de pata estendida.

Desculpem-me a confusão. Falávamos dos que morrem de medo de um dia ser proibido comer carne em Portugal para não insultar os muçulmanos. E não lhes cabe na cabeça que já há quem não coma carne por opção?

Fomos dar uma volta à A Vida Portuguesa. Foi num sprint, como tudo em Lisboa — uma cidade à velocidade do Metro. Lisboa parece viver entre a memória e a pressa. Entre aquilo que quer preservar e aquilo que já não consegue parar. Foi bonito ver todo aquele passado vívido, a cintilar de brilho e a ostentar uma vida abundante. O que era precariedade, se pensarmos num candeeiro petromax ou aquelas panelas de barro, hoje é rústico.

Tu sabes que eu ando sempre a pé, não sabes? Sabes que, se não vou a pé, vou de machimbombo, não sabes? E que não gosto nada da ideia de andar por debaixo da vida, nos confins do mundo, ou a zanzar pelos abismos, como é viajar de Metro na cidade. Vícios de quem vem de uma cidade onde há possibilidade de encontros.

Cresci numa casa onde as religiões fazem festa. Avós na presbiteriana, pais católicos, sobrinha muçulmana, cunhada Testemunha de Jeová. Houve tios que se meteram nas evangélicas que queimam Satanás com azeite e água com sal. E eu, a andar por aí a faltar à catequese, até que fui fisgado por um padre que me pôs na primeira fila para o baptismo, por rebeldia — porque a igreja é para os pecadores e para aqueles que não acreditam. Epá, granda lata do Padre João.

Então, rezar para mim, desde o berço, foi sempre um exercício de liberdade.

Falemos então de comida que não me faço de rogado a bons temperos. Os coentros tenho-os plantados no quintal. A Malika rega-os quando lhe apetece. Ela acaba de sair de umas amigdalites que lhe iam dando cabo da vida. E tem graça que só nestes dias ela descobriu o que são omeletes: ovo batido. De castigo por me fazer passar essa vergonha, no fim-de-semana, fizemos omeletes e metemos coentros. Foi maningue giro. Agora, esses são os coentros da minha casa; a ver vamos o que virá das tascas portuguesas ou da casa da Cátia.

Enquanto a Malika ia vendo a vida a afogar-se naquela garganta inflamada, o rosto vermelho, a raiz dos olhos a partir-se em linhas de sangue, o corpo inerte, disse para mim mesmo: ninguém me disse que ser pai incluía andar com a criança ao colo na pediatria do maior hospital do país, com a médica de plantão numa wella, dezenas de bebés aos gritos, ratos a passearem e o pessoal da saúde a mandar emojis no WhatsApp. Deram a isso o nome de greve silenciosa. São anos nisso e já perdi a ideia do que reivindicam. À minha volta era um Deus nos acuda, e fiquei a imaginar os curandeiros aos batuques, naqueles gritos de fim do mundo das crianças. E aquele rato que, ao ressuscitar, a Malika chamou de javali — onde terá ela visto algum dia um porco-do-mato?

Desesperado, fui à clínica quase à meia-noite. Lá se foram dez mil e a criança retornou do vale da sombra da morte. De facto, Ana Bárbara, não basta ter dado um gâmeta; isso não é o mesmo que ser pai. É tanta energia gasta a tentar ser feliz que acabamos por nos poupar a sê-lo.

Prometi-te que vou comer sushi quando estiver de volta a Lisboa, mas também não é para tanto. Beringelas, quiabos, melancias e um chinês? Fico-me pelo melão, que é uma coisa deliciosa que nunca tinha comido até o teu primo Pedro, bom homem, portista e campeão, me ter dado a provar. Enquanto me lambuzava, fazia questão de anunciar que a China é o maior produtor de melão do mundo. Imagine: mais de 14 milhões de toneladas por ano. O gosto subiu-me ao juízo e fiquei a sentir-me um génio. Fogo: comi o meu primeiro melão em Portugal e a China produz o suficiente para alimentar mais de metade do planeta.

Vá lá, anima-te: trocamos as beringelas por melão e eu como sushi.

Imaginas, numa cerimónia de lobolo, servir-se sushi? Acho que a festa terminava antes mesmo de começar. O que as famílias precisam, em troca da noiva, são dinheiros, vacas, cabritos, galinhas e bebidas. Se se assinam papéis no lobolo? Quem os iria assinar, os antepassados? É que, vê lá: apesar de a negociação e o peditório serem feitos e destinados aos vivos – familiares da noiva -, a oferenda é para os antepassados. Portanto, o lobolo é a aliança que se sela entre os antepassados das duas famílias, para que estes aceitem que a sua filha seja levada para outra família e até procrie e faça crescer o nome e a descendência dos outros.

Soube de histórias de mulheres que foram ao lar e não conseguiram ter filhos, alegadamente por não se ter feito o lobolo. Outras histórias são de filhos que tiveram de lobolar as próprias mães porque o pai não o fez e, por isso, as suas vidas andam desgraçadas. Também já vi mulheres a serem loboladas dentro de um caixão porque a família não aceitava que fossem enterradas sem que esse compromisso tivesse sido cumprido, mesmo tendo vivido maritalmente e tido filhos. Tudo a cumprir-se com o rigor das pessoas mortas. Tudo a proceder-se na ganância dos vivos. Tudo acontece sem documentos assinados e, mesmo assim, com uma seriedade que muitas vezes nem se empreende sobre compromissos selados em papel perante a lei. A feita pelos homens, a quem muita gente desobedece e prospera. Problema mesmo é com a lei dos mortos; com esses não se brinca.

Uma vez escreveste-me sobre Lisboa, morgue de amores antigos, mas eu acho que é muito mais do que isso. No dia em que ia dar aquela entrevista à Comunidade, Cultura e Arte, nos jardins do Goethe-Institut, fui atraído pela estátua do Dr. Sousa Martins. Não conhecia. Mas reparei quando vi duas mulheres diante dele a fazer o sinal da cruz, depois de mãos ao peito e aos prantos, em oração. Pensei que devia ser algum santo qualquer – afinal, aquilo é a Freguesia de Santo António.

Aproximei-me e vi inúmeras placas de mármore a agradecer ao senhor doutor por isto e por aquilo: por ter salvo um filho, uma mãe, por ter curado uma doença qualquer ou feito algum milagre que devolveu a felicidade a sabe-se lá quem. Fiquei ali a ler mensagem após mensagem. Vi velas acesas, flores, vestígios de que não há um dia em que alguém não se lembre do senhor doutor. Mais tarde fui pesquisar e descobri que era um médico que tratava os pobres, que se suicidou para escapar a uma morte dolorosa provocada pela tuberculose e a quem, a dada altura, começaram a ser atribuídos poderes de cura milagrosa.

É bonito ver que, mesmo em frente à Faculdade de Medicina e a poucos metros do Hospital de São José, há um Campo dos Mártires da Pátria onde se canalizam energias entre a ciência e a fé. Entre a oração e a medicação.

Pode ser que ali pertinho, no Intendente ou no Benformoso, haja uma vidente, uma cigana talvez, daquelas que disseram ao Ventura que teria vida curta. E quanto a mim, foi uma revelação: Lisboa não fica assim tão longe de Maputo.

Tens ouvido falar dos atrofiamentos dos órgãos genitais? Ficamos a saber os dois através do Mia sentados numa padaria em Alcântara. Quando cheguei a Maputo não se falava de outra coisa. Atrofiamento de órgãos genitais! Acho que entendes que a fatalidade vem do facto de se tratar de um pênis, não é? Já sobre mutilação genital não há linchamentos, comícios populares, nem manchetes. Adianto-me a falar-te sobre isso antes que me perguntes, cá por mim ainda não espreitei para dentro das calças, deve ser só por baixa autoestima do que por descrença.


Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *