Se me pagassem por cada vez que digo que vou jantar ao Barbeiro, não estaria rica, mas certamente já teria bem mais poupanças de lado. Não gastaria aqui nada num corte de cabelo arrojado, que nesta casa já não existem navalhas nem espumas de barbear desde os anos 80. Esta casa é um negócio familiar, gerido por José Ramos, o famoso “Zé do Barbeiro”, onde se servem pratos do dia que contam o meu passado.

Registo dos encontros entre amigos n’O Barbeiro. Foto: DR

Tal como o meu pai, cresci nas “barbas” deste restaurante. Durante anos, às sextas, foi o ponto de encontro com as minhas amigas de infância: primeiro jantava-se, só depois vinha a brincadeira. À mesa, os adultos ocupados com longas conversas. E nós lá andávamos escada acima, escada a abaixo, como se estivéssemos em casa.

Sei de cor: o cheiro a vinho e a comida, o barulho ensurdecedor dos pratos e as cascas de amendoins espalhadas no chão (que o Zé acabou por abolir porque era um “grande chiqueiro”).

Hoje já não passo lá as sextas-feiras.

A globalização fez-nos querer estar sempre a experimentar coisas novas. Mas digo-vos: quando lá volto tenho o sentimento imediato de “lar, doce lar”. Cumprimento quem lá está, conheço todos aqueles rostos e eles o meu. Quantas pessoas podem dizer o mesmo de um lugar em Lisboa?

O Zé recebe-nos sempre da mesma maneira: com a sua camisa branca, pergunta se queremos ficar na sala de cima ou na de baixo e, enquanto vai pondo os icónicos toalhetes de papel – onde tantas vezes me descobri artista de lápis ou caneta –, recita-nos os pratos do dia. Tal e qual, como se fossem poemas do bairro.

Antes sequer de nos sentarmos, a passagem pela cozinha é obrigatória, para cumprimentar a cozinheira que trabalha lá há quase 30 anos, a Sandrinha. A minha avó de coração. E uma das primeiras pessoas a saber que o meu embrião era feminino.

Há dias em que O Barbeiro se transforma num painel de comentadores desportivos. Quando joga o Sporting e o Benfica, é um clássico ali também. As mesas não têm flores nem pratos bonitos; o que as enfeita são cervejas (que “a água é para os peixes”, como se lê numa das paredes), pires de caracóis e tremoços. As vozes aumentam de tom, mandam-se comentários para as outras mesas e, assim que há lance polémico, a discussão vira um acontecimento coletivo. Tantas vezes o clima aqueceu de tal maneira que o Zé acabou por desligar a televisão.

Foto: Tatiana Martins

No Zé, come-se um menu de almoço com pão, sopa, prato principal, sobremesa e café por 12 euros. Mas n’O Barbeiro não é tudo sobre alimento. É sobre pertença. O lugar onde até deixamos lá as nossas chaves de casa.

Num tempo em que Lisboa tenta redescobrir os restaurantes tradicionais e até se fazem “tascómetros” pelas redes sociais, há lugares que nunca passaram por tendência nenhuma, mas são constantes nas nossas vidas. N’O Barbeiro, há quatro décadas que a única tendência é a de ser-se família.


Tatiana Martins

Nascida e criada nas ruas de Lisboa. Encontra no simples “bom dia” e na conversa de café a matéria-prima para a sua escrita. Para ela, contar histórias começou na vizinhança.É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Lisboa e está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *