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Nos mapas oficiais, ruas e monumentos, das cidades de Lisboa e Hamburgo, dois históricos centros nevrálgicos do colonialismo europeu, a história é contada, até hoje, do ponto de vista dos colonizadores. Mas são cada vez mais as vozes que exigem trazer à luz os outros lados da história: o dos que resistiram, o dos que foram feitos escravos, o dos que viveram e vivem, construíram e constroem, todos os dias, estas cidades.

Foi dessa urgência que nasceu o ReMapping Memories Lisboa-Hamburg: Lugares de Memória (Pós)Coloniais, uma iniciativa do Goethe-Institut, em Lisboa, através do qual se recriam, através de textos, artigos, entrevistas e obras gráficas, novos mapas das cidades, contextualizando lugares de memória e repensando a relação das mesmas com o colonialismo, a resistência anticolonial e a presença africana, de maneira a inscrever outras histórias na memória coletiva e a encontrar estratégias de descolonização das cidades.

O projeto assinala agora dois anos de reflexão, com uma grande festa, que só não é um grand finale porque a ideia é que Lisboa (e Hamburgo) pegue no ReMapping Memories e lhe dê continuidade, tornando-se assim “Cidade Igualitária: Lisboa por vir”. A diretora do Instituto, Susanne Sporrer, e Marta Lança, coordenadora do projeto, explicam a importância de descolonizar a cidade.

Contribuir para descolonização de Lisboa e Hamburgo, através do remapeamento de memórias das duas cidades. É este grande objetivo do projeto ReMapping Memories. Como surgiu a ideia?

Susanne Sporrer – A ideia surgiu em 2018, quando a discussão em Lisboa sobre o Museu das Descobertas estava ao rubro. Na Alemanha, também havia uma discussão intensa sobre o novo Fórum Humboldt no reconstruído Palácio da Cidade, em Berlim, e, em França, o presidente Emmanuel Macron tinha acabado de encomendar uma pesquisa sobre a restituição do património africano roubado.

Era a primeira vez, na minha perspetiva, que em vários países da Europa se discutia a descolonização, não apenas no meio académico. A discussão tinha chegado à política e aos media e envolvia a opinião pública, as pessoas.

No Goethe-Institut trabalhamos sempre de forma bilateral e por isso achámos que era boa altura para fazer uma comparação entre uma cidade na Alemanha e uma cidade em Portugal sobre os vestígios e monumentos, coloniais e pós-coloniais, e que era boa ideia envolver no projeto uma série de pessoas de áreas diversas que refletem ou trabalham sobre estas questões.

Susanne Sporrer é a diretora do Goethe-Institut Portugal, com sede em Lisboa. Partiu dela a ideia do projeto ReMapping MemoriesLisboa-Hamburg: Lugares de Memória (Pós)Coloniais. Foto: Rita Ansone

E porquê Lisboa e Hamburgo e não Lisboa e Berlim?

SS – Ambas são cidades portuárias e muito marcadas pelo colonialismo. Berlim foi muito importante para o colonialismo alemão, mas em termos económicos, Hamburgo foi a cidade chave. As ligações coloniais entre Hamburgo e Lisboa remontam ao século XVI e havia um forte intercâmbio comercial entre as duas cidades.

Por outro lado, hoje, Hamburgo é muito interessante para esta questão porque é a primeira cidade na Alemanha que está a desenvolver um conceito para a descolonização da cidade. Os poderes públicos perceberam que tinham que trabalhar esta questão do processo de descolonização em todas as áreas da esfera pública e foi criado um conselho consultivo para o efeito, constituído especialmente por pessoas racializadas e ativistas.

Marta Lança, diretora do portal Buala, é a coordenadora em Lisboa do projeto ReMapping Memories Lisboa-Hamburg. Foto: Rita Ansone

Marta Lança – Por exemplo, em Hamburgo há um monumento enorme a Bismark, que está a ser recuperado, envolvendo um grande investimento, mas ao mesmo tempo começaram uma discussão pública com Kiluanji Kia Henda, o artista cujo projeto Plantação venceu o concurso para o Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas em Lisboa, por considerarem que Hamburgo pode aprender com este processo participativo que teve lugar em Lisboa.

SS – Esta é uma discussão que está a acontecer em toda a Europa, e o nosso projeto, com o foco em Lisboa e Hamburgo, mostra as ligações e os paralelos entre dois centros do sistema colonialista, que foi um projeto europeu. Temos que aprender uns com os outros como fazer a descolonização das cidades.

Em que sentido é que remapear as memórias coloniais das cidades contribui para esse processo?

SS – A descolonização da cidade é o coração do nosso projeto. Queríamos que não fosse um projeto académico e que estivesse relacionado com as pessoas e as suas vidas. A discussão sobre a restituição do património cultural é muito importante, mas, para a maioria das pessoas, na Europa, é muito abstrata.

As nossas cidades europeias estão cheias de memórias coloniais. Estátuas, nomes de ruas, de monumentos, edifícios, inscrições. Estes representam a nossa história, incluindo a nossa história violenta, e moldam as nossas sociedades. O que fazemos com esta herança? E como podemos criar um “sentimento contínuo de perturbação” – uma expressão de Carsten Brosda, Senador da Cultura de Hamburgo – quando passamos por estátuas que não representam valores democráticos, mas sim desprezo pela humanidade, violência? E o que fazemos com todos os lugares e pessoas que hoje já não são lembrados: os heróis da resistência, pessoas racializadas, que construíram as nossas cidades como escravos, que aqui viveram, que moldaram e enriqueceram as cidades, mas que não foram homenageados com monumentos? No fundo: o que fazemos com esta história esquecida?

ML – A nossa metodologia de trabalho tem sido ouvir as pessoas. Começámos com entrevistas a pessoas com backgrounds muito diferentes, no sentido de perceber o que sentiam em relação a Lisboa, que lugares têm falta de memória pública e deviam ser alvo de memorialização, contextualização, de crítica, de sinalização. Há imensos edifícios, ruas, monumentos, que têm um significado colonial que as pessoas não conhecem.

Por exemplo, a Casa dos Estudantes do Império, quem passa por ali não sabe a história e o significado que aquele edifício teve e então procurámos perceber como devia ser memorializado. A partir dessas vozes, que fomos ouvir, apontámos 25 lugares de memória, em Lisboa, que iriam ser trabalhados ao longo do tempo. Em Hamburgo, o método foi semelhante.

Há a mesma abertura, nas duas cidades, para esta reescrita da história?

ML – Acho que o que é interessante no ReMapping Memories é inscrever a descolonialização de Lisboa numa discussão internacional, abrir-lhe mundo, mostrando que não é uma discussão de meia dúzia de iconoclastas que estão a querer agitar o império português e a sua memória, que faz parte ainda hoje da narrativa nacional e se mantém nos nossos manuais escolares. Fazendo este paralelo com outros exemplos europeus, ajuda a esclarecer que pensar o passado e o presente da Europa, interracial, intercultural e democrática, é um projeto coletivo, no sentido de contribuir para um presente em que as pessoas se sintam representadas.

O ReMapping Memories quer contribuir para a questão da representação e da representatividade, exortando à participação na cidade e valorizando histórias que têm sido omitidas, nomeadamente a dos trabalhadores que construíram Lisboa e que são na sua maioria trabalhadores negros da periferia, que não se reveem nesta memória pública. Trata-se de contar a história da presença na cidade e que é pouco valorizada.

Não tem só que ver com os monumentos e esse lado mais óbvio, mas com as ligações à colonialidade, que não respeitam só ao período colonial, mas ao que ficou dessa matriz colonial no presente, a colonialidade como um processo que ainda está em curso. Para pensar em respostas é preciso  envolver investigadores, jornalistas e ter uma forte participação de afrodescendentes.

SS – Trata-se de repensar mesmo a história. Temos uma história que é branca, masculina, e em que parte da sociedade não existe e o que nós queremos é contar a história dos que ficaram apagados, através de lugares que já não existem, como o Bairro do Mocambo, mas que foram uma parte muito importante da cidade para os africanos. No nosso projeto, procurámos incluir todos os especialistas nesta matéria, e o mais possível pessoas negras e afrodescendentes, para perceber as diversas variáveis e o lado dos que não fazem parte da história oficial. Esta é uma questão essencial. Como é que a história é ensinada nas escolas? Há muito trabalho a ser feito e há um caminho longo a percorrer.

Susanne Sporrer e Marta Lança esperam que o projeto ReMapping Memories Lisboa-Hamburg: Lugares de Memória (Pós)Coloniais ganhe raízes e futuro. Foto: Rita Ansone

O que é que já conseguiram?

ML – Esta metodologia está a ser muito interessante e surpreendente, no caso de Lisboa. Por exemplo, como é que uma pessoa racializada vê o Padrão dos Descobrimentos? Essa interrogação colocada a pessoas que normalmente não são convocadas para pensar isto foi muito enriquecedora para o projeto.

Temos textos sobre como se construiu a Expo’98 do ponto de vista dos operários negros e o que isso significou em termos de políticas migratórias, com a abertura excepcional à legalização de imigrantes só porque era preciso mão-de-obra, toda a narrativa dos oceanos e a simbologia das navegações que com outras roupagens remete para o colonialismo, a toponímia da cidade, os institutos coloniais.

Outro exemplo, um dos antropólogos entrevistados diz que gostaria de ver um monumento nas Portas de Benfica, que é a linha divisória entre Lisboa e essa imensa periferia de pessoas racializadas que trabalham em Lisboa. Acho bastante enriquecedor ter estas visões tão diversas.

É uma ideia de descolonizar a cidade, encontrando ferramentas, através da educação, dos manuais, do debate público sobre estes assuntos, para que os lisboetas, e os turistas que nos visitam, saibam, através do nosso site, que há outras leituras sobre determinados símbolos e lugares da cidade com que sempre conviveram ou que veem pela primeira vez, mas de uma forma contextualizada, para não perpetuar uma imagem redutora e direcionada para determinadas ideologias.

Tem havido alguma resistência, nomeadamente em Portugal, onde se fala de apagamento da história. A ideia não é apagar, é contextualizar, resgatando a possível justiça histórica, não é?

A memória convoca mais subjetividade do que a História. Não existem factos neutros, será sempre conflituosa. Acho estimulante que Lisboa esteja a viver essas disputas de memória. O status quo reage muito ufanamente a qualquer confronto à narrativa nacional, tão sólida e incutida, dos Descobrimentos e outras glorificações. As camadas de leitura da cidade têm de se dar a ver, e essas multivisões, não têm como se esquivar ao conflito. Reconhecer que houve muita gente omitida na construção da cidade enquanto tal já é um passo importante.

Lisboa não se resume a uma certa ideia de cidade, toda a área metropolitana e as pessoas dessa grande Lisboa fazem parte. Quisemos aprender mais sobre lugares fundamentais da cidade, como o bairro de Santa Filomena, a Cova da Moura, a Estrada Militar, as Portas de Benfica, em paralelo a Belém ou os lugares mais óbvios da colonialidade. A Lisboa de hoje, pós-colonial tem que ser pensada, nas relações com a história e outros campos.

SS – Em Hamburgo, existem os mesmos conflitos, mas há a consciência de que temos que lidar com este assunto de uma forma nova porque a forma como lidámos até aqui não permite um caminho para um futuro mais democrático, não racista e igualitário.

As cidades são organismos vivos. Na Alemanha, discute-se renomear algumas ruas. Se vivemos numa sociedade democrática e passamos num monumento ou numa rua com o nome de alguém que é contrário à democracia e aos direitos humanos e à igualdade, precisamos mesmo do tal “sentimento contínuo de perturbação”, é preciso que esses monumentos sejam contextualizados, é preciso que outros monumentos ou intervenções artísticas sejam criados. O Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas, em Lisboa, neste sentido foi muito inspirador para Hamburgo e há o projeto de fazer uma coisa parecida lá.

Nós, no Goethe-Institut, queremos desenvolver esta reflexão e discussão e pensamos que este projeto, o ReMapping Memories Lisboa-Hamburg, pode contribuir para isso. Muitos destes monumentos de que falamos, enquanto lugares de memória, são pontos de passagem obrigatória para o turismo, tanto em Lisboa como em Hamburgo.

Que balanço fazem destes dois anos de projeto?

SS – Na verdade, preferia falar de um balanço intercalar, mais do que de um balanço final. O coração do projeto, o site, não está finalizado, tal como a análise do tema, e talvez nunca o esteja. Se o trabalho no site acabasse agora, não seria mais do que um arquivo. Mas se tiver continuação em ambas as cidades, pode desempenhar um papel importante num debate vivo e multifacetado sobre o passado colonial e na discussão sobre um futuro descolonizado.

O site está cheio de informação, linhas de ligação entre as duas cidades, é um tesouro de conhecimentos, perspetivas e referências cruzadas. Por isso, estamos imensamente gratos a todos os que apoiaram o projeto em Lisboa e Hamburgo: o conselho consultivo, que nos aconselhou tão ativamente, os autores, os entrevistados, os artistas, mas também a equipa, sobretudo a Marta Lança. Foram os seus conhecimentos, as suas perspetivas que pudemos reunir no projeto. 

O que importa agora é expandir este conhecimento, mas também trazê-lo para as sociedades das duas cidades, para as instituições educativas, para as escolas, seja através da disponibilização dos textos como podcasts, seja através de projetos educativos e explorações urbanas que se baseiam nele. Um trabalho que, nomeadamente, já foi iniciado nos últimos meses.

Para que não acabe agora, estamos atualmente em discussão com parceiros em Hamburgo e Lisboa sobre como este projeto pode ter continuidade em ambas as cidades. Também o diálogo que se iniciou entre Hamburgo e Lisboa poderia ser intensificado ainda mais. As duas cidades podem aprender muito uma com a outra ao lidarem com o passado colonial.

Por exemplo, o processo participativo que levou à conceção do memorial de homenagem às pessoas escravizadas em Lisboa encontrou ressonância muito positiva em Hamburgo. Por outro lado, o objetivo de Hamburgo de desenvolver um conceito para a descolonização da cidade como um todo, ao nível do Senado, e que contou com uma abordagem participativa, teve eco positivo em Lisboa. Para nós, enquanto Goethe-Institut, o importante foi estabelecer estas ligações, tornar estes processos cívicos visíveis e fortalecê-los.

ML – Durante estes meses de conceção e dinamização do site ReMapping Memories, posso afirmar, orgulhosa, que as várias questões abordadas no dão corpo ao grande tema do projeto que é a relação da cidade com a colonialidade.

Penso que os contributos que se encontram disponíveis no site tornam o debate da “descolonização das cidades” menos abstrato ao fornecerem textos de autor com reflexões, de pendor histórico e jornalístico, assim como opiniões. No seu conjunto contribui-se para o diálogo alargado sobre uma cidade onde todos se sintam representados.

Da coordenação de Lisboa, o resultado é extremamente positivo. Em primeiro lugar pelas 15 entrevistas a personalidades que já têm trabalho efetuado e militância comprovada sobre as políticas de memória e pensamento sobre a cidade, foram fundamentais para identificar os lugares a memorializar. Muitas outras haverá a fazer na próxima fase mas procurei um leque de posicionamentos e campos de trabalho diverso.

Depois os 18 lugares de memória publicados, mais três que estão a sair (que é o caso de Belém, a estátua do Padre António Vieira, e o B.leza – discotecas africanas) são sinal de um grande empenho. Estes artigos fazem um profundo estudo a partir de determinado lugar, escrito de modo acessível e inteligível para o leitor, tentámos evitar o estilo demasiado académico. Também se denota a preocupação por ser abrangente em termos espaciais e temporais.

Foi muitíssimo impulsionador de toda esta reflexão coletiva, as ilustrações de Francisco Vidal, as imagens de Rui Sérgio Afonso e o ciclo de debates “Memoralizar e descolonizar a cidade (pós)colonial”, organizada pelo Goethe-Institut Portugal, que está online e vale a pena rever.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 46 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu um ano no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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1 Comentário

  1. Estou de acôrdo com a “A ideia (de que) não é apagar, é contextualizar, resgatando a possível justiça histórica…”

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