Lobo Mau restaurante Chef Hugo Guerra, Sucena da Costa
A avozinha Dona Cena e o Lobo Mau Hugo Guerra: uma história de amizade que brotou num jardim no coração de Lisboa. Foto: Rita Ansone.

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Era uma vez um Lobo Mau que um certo dia encontrou uma avozinha num bosque e então… ficaram amigos. Tão amigos que a avozinha ofereceu as frutas e verduras do bosque para o lobo usar nas receitas do seu restaurante e, em troca, o lobo – que, apesar da fama de ter olhos, boca e dentes tão grandes, tinha mesmo era um grande coração – agora passa manhãs e tardes agradáveis na companhia da avozinha.

A releitura da conhecida fábula tem como cenário um prédio em Lisboa, em Arroios, e conta a história de amizade que brotou entre os vizinhos Hugo Guerra e Sucena da Costa.

Ele, um jovem chef de cozinha, 35 anos, dono do restaurante Lobo Mau, e ela, a inacreditável vizinha, a vigorosa mulher que aos 90 anos assumiu sozinha a manutenção do logradouro do prédio, ignorado pelos demais moradores, transformando a área num colorido misto de jardim, horta e pomar.

“Todos os dias, a madrinha desce as escadas das traseiras, agarrada ao corrimão, devagarinho, parece um caracol, para cortar uma coisita aqui e plantar outra lá”, conta Hugo Guerra, que tem o curioso costume de atribuir um grau de parentesco ao seu círculo de amizade: a vizinha Sucena é a madrinha, o peixeiro do mercado de Arroios é o mano, a fornecedora de funchos da Cova da Moura, a prima, e por aí vai.

Uma constante nestas definições: a proximidade. É assim, indo buscar produtos próximos que Hugo tem garantido a qualidade do que serve à mesa do restaurante na semicave de um prédio de 1910, na rua Pascoal de Melo, 71A, ao pé do Jardim Constantino.

Um espaço que se estende da porta de entrada até o jardim cultivado por “Dona Cena” em cerca de 150 metros quadrados de decoração elegante e jovial, apto a receber 54 clientes por noite.

O chef e a sua alcateia

O Lobo Mau é o primeiro restaurante capitaneado pelo chef Hugo Guerra, que se estreou no ofício em 2010. Até abrir o seu próprio espaço, em novembro de 2019, Hugo cumpriu a sua jornada de autoconhecimento por diversas funções em ainda mais diversas cozinhas, entre elas a do Bica do Sapato, El Clandestino, Arola, Il Mercato e no conceituado Martin Berasategui, no País Basco.

“Sou hiperativo e não gosto de estar preso a ninguém. Então, um dia parei e pensei que deveria começar a cuidar do que é meu”, conta o chef, sobre a decisão de abrir finalmente o seu próprio restaurante.

Numa das paragens gastronómicas anteriores, um dos patrões observou que Hugo tinha o espírito dos lobos, a proteger os colegas de trabalho como numa alcateia. Vem daí a inspiração para o nome do restaurante, registado não apenas na bela placa que adorna a entrada no estabelecimento, mas na pele do chef, na tatuagem que traz oculta na jaleca, onde se pode ler “Lobos Loucos” escrito sobre uma feroz efígie lupina.

O Lobo Mau Hugo Guerra e a sua alcateia; a união como segredo do negócio e na ajuda mútua entre os funcionários. Foto: Rita Ansone.

Foi esse espírito de alcateia – e algumas tantas garrafas de vinho, é bem verdade – que norteou o pacto quase de sangue firmado entre os integrantes da primeira formação de lobos loucos do restaurante: os cinco tatuaram o desenho igual ao que hoje se vê no braço de Hugo. “A irmã de um dos funcionários era tatuadora e, numa tarde, após uns copos, fomos lá, e fizemos todos a mesma tatuagem”, diverte-se.

O mesmo espírito de alcateia levou-o também a acolher a vizinha dois andares acima, que conheceu logo após a abertura de portas do restaurante, numa das pausas da frenética rotina da cozinha para um cigarro no jardim.

Desde então, ele e os outros lobos protegem a avozinha, trazendo o seu lixo para despejá-lo na rua ou no sentido inverso, ajudando-a a carregar até o apartamento o que for preciso.

Dona Cena, uma flor de vizinha

A vizinha agradece a ajuda da alcateia, embora descer ou subir com as coisas não seja nada que essa nonagenária de Rio Maior não conseguisse fazer sozinha. A força de Dona Cena contrasta com a delicadeza da origem do seu nome, Sucena, escolhido pela mãe e inspirado numa flor, a açucena.

A falta de precisão do tabelião fez de açucena Sucena, mas a referência à flor sempre a acompanhou, na beleza da juventude que a fez Miss Chita na sua cidade natal, no sorriso que até hoje mantém estampado no rosto e na delicadeza das suas atitudes.

Em retribuição, Dona Cena plantou no seu jardim um pé da flor que traduz a própria essência.

O mesmo jardim onde um dia um Lobo Mau resolveu abastecer-se.  “Ó, madrinha, posso levar umas coisas”, disse o lobo, e a avozinha que nunca teve medo de nada, logo consentiu, mas com uma ressalva que espelha o seu sentido de humor.

Dona Cena abraça o coelho branco, um dos animais que vivem no seu quintal, além de gatos, cães e tartarugas. Foto: Rita Ansone.

“Levas tudo o que quiseres, só não me levas a mim, que estou velha”, lembra, abrindo novamente o cativante sorriso.

Dona Cena vive no mesmo prédio há 70 anos, um universo que naturalmente conhece como ninguém. Quando lá chegou, era a “menina Cena”, bem-disposta e habilidosa nos trabalhos manuais, constantemente requisitada pelos vizinhos para as pequenas reparações, como dar um jeito na torneira que insistia em pingar ou na lâmpada que subitamente se apagara.

“Chamavam-me Furacão, onde passava nada ficava como antes”, conta, as memórias a abrirem-lhe novamente o sorriso que esconde o peso da difícil rotina, dividida entre as tarefas domésticas e os constantes cuidados com o filho, acometido de problemas motores.

O intervalo dos afazeres diários acontece justamente quando Dona Cena lentamente desce até o jardim para sua terapia matinal.

“Este é o meu paraíso”, confessa, enquanto afaga um coelho branco no colo. O roedor é um dos animais que circulam pelo sítio, na companhia de gatos, cães, pássaros, que já descobriram este oásis, e também de um trio de tartarugas, as novas moradoras do prédio.

“Eram da escola da minha neta e quando veio a pandemia não tinham para onde ir. Agora, cá estão”, conta a dona do jardim.

Quem também acabou de chegar foi uma vibrante coluna de girassóis, plantada à revelia da proprietária do lote, uma das poucas vizinhas a torcer o nariz às atividades de Dona Cena. “Mas não suportava ver aquele espaço vazio, sem nada. Além do mais, eu gosto tanto de girassol”, justifica.

A horta urbana contra a guerra na Ucrânia

As frutas e verduras do jardim de Dona Cena entram e saem da ementa do Lobo Mau, sinalizadas com a advertência “da horta”. Antes de virar uma moda entre os seus pares, Hugo diz sempre ter dado preferência aos produtos da época e a alternância das estações tem servido de sinal para os pratos também mudarem, assim como mudam as folhas das árvores e a tonalidade do céu.

O respeito pela essência natural pontuou o almoço servido no dia da visita da Mensagem, preparado num piscar de olhos, quando boa parte da conversa à mesa gravitou sobre o modo de servir as favas.

Com a semente entre os dedos, como um arqueólogo a dissertar sobre um dobrão de ouro, Hugo falou da importância do ponto certo de cozimento, a fim de lhe manter os nutrientes e o sabor original.

O chef Hugo Guerra, dono do restaurante Lobo Mau, cujas receitas contam com frutas e verduras colhidas do quintal de uma flor de vizinha. Foto: Rita Ansone.

Mas não é só a natureza que rege os pratos da ementa. As ações do homem também são responsáveis pelos ajustes, como a recente guerra na Ucrânia, que forçou a mudança de filosofia na cozinha, em função do aumento do preço dos produtos, como o óleo de cozinha.

O resultado é a redução dos fritos e o aumento das saladas e legumes, além da aposta em carnes consideradas menos nobres.

“É possível, por exemplo, a partir de uma bochecha de vaca, fazer excelentes preparações”, garante. O custo do óleo alterou até a “decoração” dos pratos e as filigranas feitas com frituras deram lugar às flores do jardim de Dona Cena.

As frutas colhidas no pomar de Dona Cena e que não tarda farão parte das receitas do restaurante. Foto: Rita Ansone.

A menção à vizinha leva à questão se a avozinha um dia terá um prato com o seu nome. O Lobo Mau acha a ideia interessante. “Nunca tinha pensado nisso”, confessa.  

Ele, pode ser que não, mas Dona Cena, sim, e já sabe até o prato que gostaria de ser. “Um panado de couve”, revela, sem titubear, e preparado com as couves colhidas no seu “paraíso”, diz.

Impetuosa como de costume, o Furacão de vizinha não se intimida em ditar a receita ao jovem chef, num tal de faça isso e não aquilo, corte a couve assim e não assado, use esse molho e não aquele, na divertida inversão de papéis dessa fábula lisboeta que, diferente da mais famosa, ainda não se sabe como termina.

Embora, pelo jeito que o Lobo Mau e avozinha se dão, suspeite-se que será do tipo “e viveram felizes para sempre”.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.


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