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Naquele dia, a aula não começou com sílabas soltas escritas a preto no quadro branco, mas com dois nomes: Catarina e Inês. A professora Marília Laranjeira começa a lição do dia com a apresentação das jornalistas ali presentes. Uma boa oportunidade para fazer as alunas juntar sílabas que nunca juntaram. “Ca-ta-ri-na. Catarina”, respondem as alunas à professora. Mesmo que seja mais pequeno, é o nome da nossa fotojornalista que fica à espera da leitura correta: Inês. É o acento circunflexo que as confunde.

O que parece simples para a maioria, é para estas mulheres imigrantes um exercício maior. Porque, de onde vêm, ou não se falava português ou elas nunca tiveram acesso à escola para aprender a ler e a escrever. Foi em Lisboa que a mudança começou. E, para muitas delas, aos mais de 40 anos de vida.

Estamos numa ação de alfabetização do CEPAC – Centro Padre Alves Correia, uma instituição sem fins lucrativos que presta apoio a pessoas imigrantes na Estrela, Lisboa. Era a penúltima aula desta turma que, há cerca de três meses, chegou aqui sem saber ler nem escrever. Uma delas nem o próprio nome.

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A professora Marília Laranjeira, as assistentes sociais e as alunas Maria Augusta e Sida Bidan Na Dafá explicam o impacto das aulas de alfabetização. Vídeo: Inês Leote

“Gato” surge no quadro e Marília desenha pontes entre sílabas. Sílaba a sílaba, letra a letra, é assim que escolhe ensinar português. Mas porque nem todas têm o português como base da língua materna, de repente, a aula torna-se morada de outras línguas. Como o curdo de Zanoub, vinda da Síria, que explica como “mişk” pode ser o contrário de “gato” – rato.

Ao lado, Maria Augusta percorre as sílabas escritas no caderno com os olhos para descobrir a pronúncia certa para “rato”. “Ta, te, ti, to, tu. Rato”, decifrou. “É uma estação de metro em Lisboa”, lembra a professora. Aqui não se trabalham significados, apenas a leitura e a escrita, mas todas as oportunidades são boas para lhes lembrar do que se fala.

E se as palavras parecem muito difíceis, é preciso retroceder e voltar às vogais. Letra a letra: “a, e, i, o, u”, leem. E escrevem. “Sobe, volta, desce” diz a professora à aluna N’Simble. Parece um exercício de ginástica, mas é só um método para que N’Simble aprenda a desenhar um “r” à mão. Para que esteja mais perto de dar indicações quando a partida ou o destino passarem pelo Rato.

Maria Augusta já sabe. Chegou a Lisboa, vinda de São Tomé, a 15 de setembro de 2018, com uma filha nos braços, à procura tratamento para uma deficiência ocular da pequena. “Lá não têm tratamento para ela” – lá, onde Maria deixou os outros quatro filhos. Assim que aterrou, percebeu que também ela tinha problemas na vista, que a forma turva como via a vida não era como ela é realmente. Por isso é que a vemos de óculos, hoje.

Maria Augusta chegou de São Tomé há quatro anos, para tratar a doença de uma das filhas. Em Lisboa, conseguiu finalmente começar a ler e a escrever. Foto: Inês Leote

Por não saber ler, Maria sempre contou com o irmão para decifrar as cartas que chegavam do hospital. Um irmão que já mora em Lisboa há cerca de 30 anos, também ele à procura de tratamento. Maria tem a 2.ª classe. “Mas aquilo não foi mesmo a 2.ª classe, porque eu saí sem saber nada”, confessa. Antes da ação do CEPAC, tudo o que sabia era escrever o nome e “mandar mensagem no telemóvel”.

Agora, Maria consegue decifrar melhor as cartas que chegam. Até os anúncios de emprego que diz procurar de forma persistente.

Como a dela, a vida das outras sete mulheres desta turma de alfabetização também mudou. A maioria vem dos PALOP, sobretudo da Guiné. São só mulheres e isso é sintomático – a cultura e as fracas possibilidades que enfrentavam nos seus países deixavam a educação do sexo feminino para segundo plano.

São também quase todas de meia-idade. Salvo uma exceção, uma menina de 19 anos, vinda da Guiné, que nunca foi à escola, mas quer agora, imigrada em Lisboa, integrar o mercado de trabalho, para ajudar a família. Depois de aprender o “sobe, volta e desce” que as letras pedem, o próximo passo é integrá-la no sistema nacional de ensino.

A gramática é, para todas elas, o caminho para a vida ativa e a integração numa cidade que só há pouco se tornou delas.

É a primeira vez que a professora Marília trabalha com pessoas analfabetas. Foto: Inês Leote

“Quando me chamaram, eu tinha esta visão romântica de que ia ajudar a mudar o mundo. Depois, entro aqui e vejo que estas são pessoas reais com problemas reais, que eu não deveria estar aqui, não há nada de romântico”, lembra a professora Marília Laranjeira.

Problemas reais como o da aluna que faltou às aulas porque o senhorio ameaçou tirá-la de casa e ela enclausurou-se lá, com medo de sair e já não ter casa no regresso.

Habituada a lecionar português a estrangeiros, é o primeiro curso de alfabetização que tem nas mãos. Por isso, chegou com uma ideia de aulas que rapidamente se viu obrigada a mudar – os métodos e o ritmo. “Elas tinham a noção da letra, mas não conseguiam conjugá-las.” Assim sendo, optou pelo método silábico e por isso é que a vemos a fazer pontes entre letras, no quadro branco.

Em 2011, a taxa de analfabetismo em Portugal era de 5,2%. Foto: Inês Leote

“Eu pensava: se calhar, somos a última geração que vai conhecer analfabetos.” Em Portugal, a taxa de analfabetismo passou de 25, 7% em 1970 para 5,2% em 2011, segundo o Censos. A avó de Marília era analfabeta e ela imaginava que a lista de analfabetos conhecidos nunca iria além dos familiares mais antigos. “Afinal, não.”

Ainda assim, um analfabetismo diferente, lembra. “Estas pessoas sabem mexer no telemóvel, porque se guiam por símbolos. Mas não sabem ler nem escrever.”

A dignidade de saber apanhar um autocarro

Passados uns dias, na mesma sala, Maria Augusta entrou a dançar, de fones nos ouvidos. Não sabemos que música ouvia ela, sabíamos, sim, que aquele era um dia feliz: ao fim de três meses, no dia 30 de abril, estas mulheres preparavam-se para receber um certificado por terem completado o curso de alfabetização. Aos colegas da turma de literacia digital, também presentes e prontos para ficar certificados, mostraram através de cartazes coloridos tudo o que tinham aprendido ao longo deste trimestre.

De repente, o que antes eram letras soltas formavam-se agora em palavras longas e frases de agradecimento.

A turma de alfabetização lê os cartazes onde mostram em palavras e frases tudo o que aprenderam a ler e escrever. Foto: Inês Leote

Para a professora, a alfabetização é “uma questão de dignidade” para estas mulheres para quem apanhar um autocarro ou assinar o nome num documento era um exercício difícil, por não saberem ler nem escrever.

A assistente social Carla Mendonça, do CEPAC, vê-as a ler os cartazes coloridos e levanta a mão para lembrar como Sábado “chegou aqui e não conseguia escrever o nome, por isso, assinava com o dedo”. Sábado levanta os braços em jeito de festa e diz: “muito obrigada”. “É por isso que isto também é uma questão de autoestima”, diz Sofia Tenreiro, outra das assistentes sociais do CEPAC presente naquele dia.

Sofia que, neste dia, lembrava também o impacto direto que estas ações podem ter na vida de imigrantes. Como o de uma senhora, encaminhada para o CEPAC por uma entidade externa, para integrar a ação de alfabetização. “Disponibilizámos a morada e ela disse que ia pedir transporte para chegar ao CEPAC. Mas uma vez que não sabe ler nem escrever, perdeu-se e regressou a casa, sem nunca ter chegado cá”, conta.

A turma de alfabetização da CEPAC recebeu os diplomas de conclusão no passado dia 30 de abril. Foto: Inês Leote

Em videoconferência, o presidente da instituição, padre Hugo Ventura, explica que estas aulas acontecem para que os imigrantes “não fiquem à margem” e se sintam “em casa”. “Porque só nos sentimos em casa quando estamos confortáveis, quando conseguimos comunicar e compreender. Hoje, este certificado não é só um papel, é uma chave para outra porta desta casa.”

E “a diferença não é problema, é uma riqueza grande”, frisa o diretor. Aprender a atuar com as diferenças é desafio para todos os que recebem estes imigrantes. Sofia Tenreiro exemplifica como a integração pode ser tão mais difícil se os anfitriões não se dotarem de cultura e compreensão pelo outro: “Na Guiné, as pessoas guiam-se maioritariamente pelo Sol, não têm relógio. Mas depois dizemos com toda a facilidade: ‘ah, não sabem chegar a horas’. Há que compreender”.

Por isso também, tem sido tão difícil para estas mulheres integrar o mercado de trabalho. Ainda que todas acreditem estar hoje mais perto, depois deste curso. Um curso que a professora Marília diz ser curto demais. “Como é evidente, não foi suficiente. As crianças precisam de um ano letivo e nós tivemos um terço desse tempo.”

Mesmo com pouco, Marília sabe ter testemunhado muito. “Estas mulheres são a minha vaidade”, confessa em frente a todos. Sábado já assina, Maria Augusta sabe ler as cartas do hospital e a mais nova aluna de 19 anos pode finalmente entrar na escola.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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