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Há um segredo indizível dos jardins lisboetas na primavera. Serão vários os segredos dirão, mas o cordão que tecem forma um corpo único de várias cabeças.

O segredo dos jardins de Lisboa não poderia ocorrer nos jardins românticos de Paris, arranjados para ir ao baile como arbustos domados por gostos snobes ou esborratados nos quadros do Monet, já sem as devidas fronteiras.

Também não é segredo que aconteça nos jardins de Londres, previsíveis na patricidade anglo-saxónica do sapato raso. Ninguém perde um chaveiro ou encontra um milagre naqueles relvados aplanados.   

O segredo indizível fala várias línguas e tem crianças de colo de roda dele. O segredo indizível são elas, as amas de Lisboa, que – como malhas de meias – descem pelas pernas da cidade para se agruparem junto aos baloiços, perto dos bebedouros, ainda cedo, quando o sol queima sem provocar constipações e o almoço já espera dentro do forno. O almoço que elas cozinharam, naturalmente, seguindo à risca a receita mecânica de um robot de cozinha.   

Um ditado asiático sustenta que é preciso uma aldeia para criar um filho e ali estão as suas aldeãs. Estranhamente, pertencem à mesma comunidade, vestem-se de forma idêntica, até aquelas que não usam batas largas às riscas sobre a roupa mostram no traje o uniforme do uso. Mas têm as origens mais distintas.

Yana é de Odesa, a guerra trouxe-a. Jamile é muçulmana e, às vezes, ergue os olhos ao dobrar dos sinos da Basílica da Estrela, perdida na contagem do tempo sem o chamamento do Imã para as orações. Não é que não saiba ver as horas, que disparate, falta-lhe antes o tempo interior, aquele que se confunde com o batimento cardíaco. Márcia é cabo-verdiana e é a primeira a descalçar-se quando chega ao parque. Arranhando a gravilha com os dedos ossudos, até um pouco deformados, calcorreia com os pés à procura de uma morfologia de afetos. A última que chega é viúva, que é uma maneira diferente de se perder um país. Chama-se Manuela.

Nem todas se entendem, mas todas se compreendem. Há uma linguagem universal nos cuidados que prestamos às crianças dos outros.  

Nunca deixam as crianças dos outros derramadas no chão, possuídas por um choro de origem difuso, mas egoísta, que faz voltar cabeças. Não assoam as crianças dos outros com a fronha da camisa ou limpam-lhes o rosto com a própria saliva. Raramente tratam as crianças dos outros com severidade e gerem entre elas a diplomacia da partilha de brinquedos, baloiços, bolas de sabão, que os mais pequenos são incapazes de adestrar.

Não há comunismo inato, já a propriedade privada é congénita. O que as liga às crianças dos outros é o amor receoso de perderem o pouco que têm e a sombra dos filhos que nelas encontram, deixadas até tarde nas escolas, com vizinhos, entregues a irmãos mais velhos, para que possam cuidar das crianças dos outros.

O segredo indizível dos jardins de Lisboa não participa na vida comunitária dos jardins que frequenta. Passeia as crianças, mas não se passeia; responde, mas não é questionado. É degrau, transporte, baia de segurança. Uma sinalização de cuidado na rua em crescimento, que o tempo cuidará de afastar.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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