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O mural, danificado outra vez. Foto do facebook de Jorge Carvalho Mourão.

É um ex-libris. Uma banda desenhada sobre a história de Lisboa, feita num dos mais concorridos lugares da cidade, as Portas do Sol, Alfama, pelo desenhador Nuno Saraiva. E tornou-se um dos mais fotografados spots de Lisboa. Há uns anos, o salitre da exposição e o vandalismo de alguns grafitis danificaram-no.

Este verão, Nuno Saraiva e uma equipa de jovens aprendizes restauraram-no, devolvendo-lhes as cores originais – as suas, fortes – e os detalhes. O trabalho terminou “há sete dias”, diz o artista. “Foram quase três meses”. E numa noite, menos de 15 dias depois, voltou a ser arrasado, desta vez com um enorme e selvagem tag em grafiti.

“Toda a parte de baixo da segunda metade ficou ilegível”, diz o autor, que se confessa furioso com a destruição de uma obra que lhe é muito querida – há quem diga que ele é o cartoonista de Lisboa, de tal maneira a cidade lhe é musa inspiradora (desenhou várias vezes os cartazes das festas da cidade e tem várias obras publicadas, além de ser o ilustrador da Mensagem.

Nuno Saraiva, o ilustrador, no mural, antes de ser restaurado. Foto: Rita Ansone/People of Lisbon

“O que mais me custa foi todo o trabalho que os jovens que me ajudaram tiveram”, diz Nuno, também professor desta arte. Envolvidos no restauro estiveram Ana Casimiro, Catarina Chaves, Daniela Augusto e Diogo Dionísio da ESAD − Escola Superior de Artes e Design

Este cartoon é, como Nuno Saraiva explica, “uma singular interpretação da história da cidade em 24 quadros a jeito de banda desenhada, que vai desde a Allis-Ubbo Fenícia até ao 25 de Abril de uma criança.” Aqui entram as histórias que Nuno foi apreendendo ao longo da sua paixão pela cidade.

Nuno com os jovens aprendizes, depois da obra feita. Foto:

“Aproveito para sinalizar curiosidades como a da expressão A Ver Navios que nasce quando o general Junot chegou à cidade ainda a tempo de ver os navios portugueses a pisgarem-se, por exemplo, ou as piadas do Bocage, ou ainda o Salazar. Este quadro do 25 de Abril deixei-o em branco e foi a minha filha que desenhou os cravos, ela tinha 8 anos na altura”, conta.

No restauro, Nuno tinha também feito “um trabalho de ampliação”. “No entusiasmo, resolvi acrescentar aqui alguns novos dados, nomeadamente nos episódios Marquês de Pombal, Eça e engenheiro Duarte Pacheco”, conta ele no Facebook.

A fama do mural, “ultrapassou-me”, confessa. “É delirante estar a ouvir guias turísticos a usarem as minhas palavras. É tudo certo, só que são piadas, minhas, escolhidas por mim. É uma interpretação satírica da história e até crítica.”

Além disso é das paisagens mais fotografadas – e instagramadas – da cidade, e está na lista de segredos dos guias turísticos. “Na verdade foi feito muito muito antes do boom turístico e foi feito a pensar nos lisboetas”, conta o Nuno. O mural foi uma ideia do presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, do PS, que tinha visto o trabalho do desenhador nas escadinhas de São Cristovão, e resolveu convidá-lo, em 2016, para desenhar neste local.

Desta vez, a remodelação também foi promovida pela Junta.

Uma boa parte do mural estava estragado pela humidade e teve de ser arranjada a parede antes de se iniciar a pintura. Foto: Equipa de Nuno Saraiva

O mural já teve um proteção de acrílico, nas Festas de Lisboa, mas foi retirada quando se começou a pensar no restauro, depois ficou assim durante os confinamentos, e acabou por não ser reposto antes que mãos selvagens o atacassem de novo, destruindo uma obra artística – sem nenhum objetivo que não a mera destruição.

Veja aqui o vídeo da reconstrução:

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2 Comentários

  1. Na inauguração do mural em homenagem aos cem anos de MANDELA , no Campo Grande em Lisboa , fiz uma entrevista ( ammagazine.pt) ao autor da obra , Nuno Saraiva, pedindo a sua opinião sobre os pseudos “grafiters” que estragam o trabalho de quem trabalha . Desta vez a vítima foi o Nuno. LAMENTÁVEL !

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