Carlos Botelho
Ilustração: Nuno Saraiva

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Carlos Botelho (1899-1982). Um influencer na sua época. Ilustrador, pintor expressionista e caricaturista, foi também um dos pioneiros da Banda Desenhada em Portugal. Ainda hoje é o recordista: é quem mais banda desenhou em Portugal. Amália Rodrigues, (não a mulher, mas o fenómeno pop-star do regime), ia-lhe acabando com a carreira. E há um Bairro em Lisboa com o seu nome, onde hoje habita uma polémica.

Foi no “Sempre Fixe”, o semanário humorístico lisboeta que mais durou até hoje, que foram publicadas as páginas da série “Ecos da Semana”. Durante 22 anos, de 1928 até 1950, este ilustrador que também pintava nas poucas horas livres e tinha atelier na Mouraria à Costa do Castelo, na Calçada Marquês de Tancos, manteve a crónica ilustrada que “deu quadros, quadras e fitas”.

Oito mil páginas onde observou acontecimentos nacionais e internacionais, atento às transformações da sua cidade. Nestas análises críticas criou personagens como o “Parecemal” – o tipo nacional a quem tudo parece mal, o “Escarr&cospe” – alfacinha que escarra por hábito e cultura, a “Dona Encrenca” – a Censura que “se atravessa no trânsito e na vida de toda a gente” e o “Piu” – a mascote do autor que existia para lhe lembrar os censores: “- Caluda!” ou “- Nem um piu!”.

Contemporâneo de outros desenhadores multifacetados que foram simultaneamente designers, arquitectos, pintores ou cineastas e que eram, tal como ele, grandes ilustradores humoristas – como Almada Negreiros, Cottinelli Telmo ou Stuart de Carvalhais – Carlos Botelho foi nesta área do humor desenhado, um pouco bem mais além utilizando a banda desenhada como instrumento de crítica social e política.

Carlos Botelho foi um influencer na sua época. Sabia que a sua pena mordaz e o seu pincel assertivo chegavam a toda a gente que lia, aos que liam mal ou simplesmente aos que não sabiam ler, mas descodificavam pelos bonecos (a força de um cartune, ainda hoje!). A sua opinião era escutada, absorvida por milhares, o que lhe abria espaço para, de vez em quando, partir a louça indo contra a corrente.

Nos finais da década de 1940 meteu-se com o maior fenómeno popular nacional, ia-lhe saindo caro.

Ao contrário de Stuart, que, ao longo da sua carreira enquanto ilustrador e cartunista, fez toda uma reportagem gráfica do Fado e dos fadistas, Botelho odiava o Fado. Quando a rádio multiplicava o “Fado-canção Nacional”, fez questão em ecoar o seu “ódio de morte” satirizando-o nas suas BDs:

-“Não haverá um raio que o partisse?”

Amália Rodrigues já não era só a voz multiplicada na rádio, ou a estrela residente dos melhores restaurantes do Bairro Alto, tinha chegado ao cinema e assim a todo o Portugal.

Os êxitos de “Capas Negras” (Armando Miranda, 1947) e “Fado, história d’uma cantadeira” (Perdigão Queiroga, 1947) levavam o povo a cantarolar Amálias pela rua a toda a hora. Irritado, Carlos Botelho inventa o termo “Amálialite”, doença sofrida de manhã à noite e “que já deita por fora”, num “Ecos” que é publicado em 1948.

A seguir ao atrevimento, a Censura do Estado-Novo caiu-lhe em cima, perdendo algumas semanas de edição, voltando ao trabalho após acordar com a direcção do jornal não voltar a meter-se com Fados e Amálias.

Até à sua última publicação, arriscou-se sempre, não fosse toda a sua vida uma soma de riscos contínuos, leves e escorreitos, mas afiados e cortantes, chegando a criticar até os amigos arquitetos e engenheiros modernistas durante construção massificada de uma nova Lisboa que abria avenidas e edificava em altura despejando os mais pobres e expropriando pequenos proprietários.

Não será por acaso que alguém, no ano da Expo’98 resolveu batizar com o seu nome o Bairro Carlos Botelho. Junto à Estrada de Chelas, freguesia do Beato, este pequeno bairro de 20 edifícios camarários, desolado e vazio de infraestruturas, alberga desde 2000 toda a população vinda dos antigos bairros do Casal do Pinto e da Quinta dos Embrechados.

Embrechados… curioso eufemismo que poderia ser um apanhado de um cartune de Botelho. Palavra que se traduz em “hóspede indesejável, empecilho”.

É que no momento em que escrevo/desenho esta crónica visual, várias famílias estão a ser despejadas do Bairro Carlos Botelho de forma criminosa em nome da legalidade habitacional. Não se trata de um exercício de higienização por uma Lisboa fashion. Nem se trata de expulsar para construir de novo. Não se trata.

– “Não se trata assim um povo. Piu!” – desenharia Carlos Botelho, o influencer da Lisboa de 1940.


Nuno Saraiva

Lisboeta empedernido, colaborou praticamente em toda a imprensa nacional. Cartunista político, o seu traço é o traço de Lisboa, é o autor das imagens das Festas de Lisboa de 2014 a 2017, criador dos troféus das marchas, e há 10 dos seus murais nas paredes da cidade. O seu livro Tudo isto é Fado! ganhou o prémio do Festival internacional de BD Amadora. Dá aulas na Lisbon School of Design e na Ar.Co. São dele todos os desenhos na homepage da Mensagem.

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