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Inauguro esta crónica desenhada com uma Grande Alfacinha que tudo tinha para ser alvo de toda a discriminação, mas tudo fez para a combater: Grandes Alfacinhas. Virgínia Sofia da Guerra Quaresma nasceu no Alentejo, no Largo de São Domingos, Elvas, numa família de militares de fortes convicções republicanas e descendente de escravos africanos – o que, nos primeiros anos do século passado resultava numa mistura altamente inflamável.

Blindada perante todas as dores de crescimento e ventos contrários, foi umas das primeiras mulheres a tirar o Curso Superior de Letras da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e de seguida tornou-se não só a primeira jornalista portuguesa como um dos mais inventivos e originais repórteres da sua época.

Mas acima de tudo, esta “primeira jornalista portuguesa, que era republicana” foi pioneira do Feminismo negro, e numa época de impossíveis procurou tornar possível o debate e a luta por causas que hoje consideramos como fracturantes: a violência doméstica, a igualdade de género, o racismo ou a liberdade sexual.

E mais, Virgínia Quaresma teve a coragem de concretizar um autêntico regicídio à sociedade católica e conservadora do seu tempo ao assumir-se, publicamente, lésbica, antes de 1908! Por tudo isto e mais, seria hoje estandarte dos movimentos LGBT.

Nesta semana do Dia da Mulher (não serão todos os dias?) aqui inauguro esta série dos Grandes Alfacinhas com esta grande lisboeta que morre com 90 anos na sua casa na rua do Salitre. E porque, curiosamente e só mesmo por curiosidade, Virgínia Quaresma era o nome da minha avó, uma Quaresma de Cacilhas que até era um bocado retorcida e bastante conservadora. Mas gostava muito dela e… tenho-lhe muitas saudades.


Nuno Saraiva

Lisboeta empedernido, colaborou praticamente em toda a imprensa nacional. Cartunista político, o seu traço é o traço de Lisboa, é o autor das imagens das Festas de Lisboa de 2014 a 2017, criador dos troféus das marchas, e há 10 dos seus murais nas paredes da cidade. O seu livro Tudo isto é Fado! ganhou o prémio do Festival internacional de BD Amadora. Dá aulas na Lisbon School of Design e na Ar.Co. São dele todos os desenhos na homepage da Mensagem.

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