A rua Jau, em Alcântara, é uma homenagem ao escravo de Camões. Foto: Inês Leote

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Há exatamente 450 anos, as páginas d’Os Lusíadas saíam fresquinhas da tipografia do impressor António Gonçalves, na Costa do Castelo, em Lisboa. Camões é o poeta da nação, celebrado com grande fervor. Mas há uma personagem, bem presente na sua vida, que foi esquecida pelas páginas da História: Jau.

Esquecida das páginas da História, mas não das ruas de Lisboa: em Alcântara há uma “rua curiosa”, como lhe chama o professor António Martins Gomes, do Departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL). É a rua Jau, do Hotel Pestana Palace, no histórico Palácio do Marquês de Vale Flor.

Se as ruas fossem encarnações das figuras que lhes dão os nomes, Jau estaria no sítio certo. Afinal, nas suas proximidades está a rua dos Lusíadas e a rua Luís de Camões. Estes três arruamentos juntos formam uma tríade entre poeta, obra e escravo.

Passados tantos anos, a rua Jau é uma homenagem ao homem escravizado que – especula-se – terá ajudado Camões a completar a sua obra magistral. Mas dos escritos do poeta – alguns dos quais se diz terem sobrevivido a um naufrágio – nada resta sobre ele.

A não ser um documento. Uma missiva em que Camões, condenado à pobreza e à solidão, desabafa que se não fosse o seu António, nome cristão que fora atribuído a Jau, não conseguiria sobreviver. A carta seria enviada a Rui Dias da Câmara como justificação para o atraso na entrega de uma tradução.

“Era mancebo quando fizera os cantos, farto e namorado, querido e estimado e cheio de muitos favores e mercês de amigos e de damas, com que o calor poético aumentava. E que agora não tinha contentamento nem espírito para nada. Porque ali estava o seu Jau, que lhe pedia duas moedas para carvão, e ele não tinha para lhas dar. […] se não tevera hum Jau, chamado António, que da India trouxe, que de noyte pedia esmola para o ajudar a sustentar, não podera aturar a vida; como se viu, tanto que o Jau morreu, não durarà ele muitos meses!”.

A missiva de Camões para Rui Dias da Câmara reproduzida por Pedro de Mariz, o mais antigo biógrafo de Camões, em 1613.

É curioso que nada mais reste, e António Martins Gomes fala disso mesmo no seu trabalho A Bárbora e o Jau: a escravatura em Camões, onde analisa um poema que Camões dedica a uma mulher escrava exótica, Bárbora. “Camões escreve-lhe uma homenagem. A Jau, que o acompanhou durante 10 anos, não deixa nada”, denuncia o professor.

Assim de imediato, pode causar algum espanto que o grande nome da língua portuguesa, um progressista do seu tempo, tenha cedido à realidade da escravatura. “Camões, apesar do seu intelecto e do seu humanismo, acabou por ser pragmático”, diz António Martins Gomes. “Mesmo pobre, não prescindiu de ter um escravo para fazer os trabalhos menos nobres”.

Como surgiu o nome de Rua Jau

Mas a Lisboa de Camões era também outra. Na época moderna, Portugal terá tido a maior concentração de escravizados do Ocidente europeu, muito graças à expansão marítima, com a chegada dos portugueses à costa guineense e a assinatura do Tratado de Tordesilhas.

Lisboa, no panorama nacional, dominava. Em 1551, segundo a avaliação de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, guarda-roupa do arcebispo da cidade, seriam 9 mil 950 os escravos em Lisboa – quase 10% da população.

A descrição de Nicolau Clenardo, um humanista flamengo, sobre a Lisboa quinhentista tornou-se até bastante conhecida: “Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou quase em crer que só em Lisboa há mais escravos e escravas, que portugueses livres de condição”.

Jau seria um desses, anónimo na cidade como todos os outros. Sabe-se que foi comprado por Camões na ilha de Moçambique quando o poeta regressava de uma longa viagem à Índia ao serviço da Coroa e seria oriundo da Indonésia, da ilha de Java (na altura, haveria alguma confusão entre o “v” e o “u”) – e daí ter-lhe sido dado o nome “Jau”.

À entrada de Portugal, Jau terá passado dias à espera para poder pisar território lusitano, um pouco como acontece hoje com os refugiados – mas em diferentíssimas circunstâncias. Em Lisboa, foi batizado António (o batismo era obrigatório para todos os escravos), e tornou-se o escravo do poeta. O resto, pode-se imaginar: Jau devia cuidar da casa de Camões, fazer-lhe recados, vender produtos, limpar as ruas.

Como a maioria dos escravizados, seria esquecido, apagado pela História. Até ao ano de 1885 quando, por deliberação camarária, lhe foi dado o nome, na rua do bairro do Calvário. O porquê daquela mesma rua ter ficado Jau, não se sabe com certeza. Manuel Lopes, um fascinado pela toponímia de Lisboa sobre o qual a Mensagem escreveu, diz mesmo: “As explicações às vezes nem existem”.

Mas António Martins Gomes tem uma teoria: em 1880, celebrava-se o terceiro centenário da morte de Camões. Este centenário tinha uma particularidade: era celebrado numa altura do século XIX em que o Partido Republicano Português se servia do patriotismo como arma. Camões e a sua obra eram então exaltados, inaugurando-se a estátua do poeta no Chiado e trasladando-se os seus supostos restos mortais (que teriam sido perdidos no terramoto de 1755 e depois encontrados) para o Mosteiro dos Jerónimos.

Se Jau permanecera nas sombras, a verdade é que o próprio Camões acabara também por ser esquecido: morrera na pobreza, sem o reconhecimento devido e fora altamente censurado ao longo da História da língua portuguesa, especialmente durante a Inquisição. Finalmente, no século XIX, Camões tornava-se o centro das atenções, e até lhe seria consagrado um feriado.  

Jau e Camões: “O mito de uma amizade singular entre senhor e escravo”

Com esta celebração da obra do poeta, a curiosidade em relação a Jau começou a crescer. Até porque em 1888 se abolia a escravatura no Brasil e o século XIX se pautava pela defesa da liberdade. O escravo anónimo passava então a suscitar fascínio nos portugueses.

Mas como a História não conseguiu dar respostas ao mistério de Jau, os românticos portugueses enveredaram pelo único caminho possível: o da imaginação, criando “o mito português de uma amizade singular entre senhor e escravo”.

A morte de Camões, esboço de Domingos de Sequeira

É assim que se multiplicam as representações de Camões e Jau: em 1824, Domingos Sequeira expunha o quadro A morte de Camões no Louvre. Em 1825, Almeida Garrett escrevia Camões. Em meados do século XIX, o pintor francês Simon Guérin compunha Mort de Camoëns. Em 1853, Francisco Augusto Metrass pintava o quadro Camões na gruta de Macau. Em 1861, surgia uma litografia de Camões assinada por Cupertino e, em 1880, Gomes Leal editava A fome de Camões.  

Mort de Camoëns de Simon Guérin. Foto: Biblioteca Nacional Digital

Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,

O seu amparo e seu bordão no mundo,

Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,

No seu peito deixando um vacuo fundo.

Hoje pois triste, velho, sem abrigo, faminto, abandonado e vagabundo, tenta esmollar tambem pelas esquinas.

Ó lagrimas!.. Ó glorias!.. Ó ruinas!..

A fome de Camões, Gomes Leal

«Oh meu amigo, oh meu António» disse,

No remendado seio a face altiva

Escondendo, o guerreiro. «Oh! esta noite

Aonde, em que poisada a passaremos?»

— «Meu bom senhor, um gasalhado tenho

Achado já; que bem vi que não íeis

Nunca mais ao mosteiro. Digno, certo,

De vós não é; mas sabeis…»

— «Sei, amigo,

Que só tu, neste mísero universo,

— E o sepulcro também — alfim me restam»

Camões, Almeida Garrett

Mas é importante não esquecer que, apesar deste súbito interesse em atribuir uma identidade a este Jau esquecido, Portugal continuava a ser um país colonial. “O romantismo também tem este lado perverso da pátria, do império”, explica António Martins Gomes.

E por isso nestas obras reforça-se a devoção que se imaginava Jau sentir para com o seu senhor – em algumas delas, acompanha-o na hora da morte. Mas Camões é também um amigo dedicado ao seu súbdito, grato pelos seus esforços. “É a ideia romântica do herói solitário que é acompanhado por uma figura menor”.

Camões na gruta de Macau de Francisco Metrass. Foto: Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

Mas será que a ficção ecoa laivos de realidade? O professor tem algumas dúvidas. “Não há provas rigorosamente nenhumas”, diz. “Camões é tão apelativo por isso mesmo: dá azo à especulação, a várias leituras”.

O mais provável é que a relação entre Camões e Jau fosse bastante prática, e por isso é que não há nenhum poema ou reflexão sobre ele. E assim Jau acaba por se esfumar, tornando-se fruto da imaginação daqueles que não o quiseram esquecer.

A não ser que num passeio, em Alcântara, alguém dê de caras com um rua de nome estranho e vá investigar este homem, escravizado, um estrangeiro em terras portuguesas. Um homem sem liberdade, mas de tal modo ligado ao seu senhor que esmolava para lhe dar de comer.

Quem andar pelos lados do bairro Santo Amaro, em Alcântara, encontra outros nomes ilustres estampados nas suas placas toponímicas: João de Lemos, Filinto Elísio, João de Barros, Soares dos Passos, Sá de Miranda, Pedro Calmon, Gil Vicente. Poetas, dramaturgos, jornalistas, professores, historiadores.

Numa Lisboa de homens brancos, a rua Jau é, de certa forma, uma homenagem aos escravos que em tempos povoaram a cidade.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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