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Cometi o erro de perguntar ao Manel se tinha comprado a casa renovada. A partir daí, tive o serão estragado. Um sim ou um não não bastariam para a história, e a ele juntou-se o Rodrigo no desfiar das mágoas.

“O gajo que morava cá destruiu a casa toda”, dizia o primeiro, e o segundo esbracejava, “Como é que no século XXI alguém faz isto?” E repetia tudo, o inconcebível, o século, o XXI, como quem diz que nos tempos dos neandertais é que podia ser.

Não conheciam bem os contornos do caso. Na Graça, os vizinhos eram velhos, metidos para dentro e não falavam do assunto, e custou a um e a outro começarem a juntar os pontos. O Manel dizia que não se sabia se havia violência doméstica, mas no fundo sabia-se. No terraço em frente a casa, o homem, abandonado pela mulher com quem casou, acendia velas.

Uns dias a Deus, para ela voltar. Outras ao diabo, para a matar.

Ela não veio e ele começou a fazer poucas e boas, e essas muitas e más sobraram para os meus amigos, que compraram a casa e tiveram de renovar, tudo, “tudo, tudo! Até as fechaduras!”

O homem, despeitado, tinha andado a escrever com spray nas persianas e na casa. Não digo o quê, que não sou de palavrões.

No terraço, vestia-se como um padre e então urrava. Pontapeava as portas, dava com um martelo na tijoleira, arrancava as gavetas dos armários da cozinha. Pegou fogo à madeira da sala, quando queria lume em toda a casa. Por todo o lado, ainda havia caruma de pinho em baldes e acendalhas, pregos e latas para explosão. Sem querer saber do futuro, já aí pensava em matar-se.

Se aquilo era mau para os vizinhos (o senhor Alfredo, depois de ganhar confiança com o Rodrigo, depois de um bagaço lá contou), pior ainda era para quem o seguia no Facebook.

Um homem é uma coisa frágil, incapaz de lidar com a dor. Séculos de história conduzem ao clichê: muita força nos braços, pouca na cabeça. E bem se sabe que o sofrimento de amor nos avaria acima do pescoço, mas o homem avariou em todo o lado.

Pôs-se a fazer post atrás de post, “Fui abandonado por ela, ai que ela não me quer”, “A Emília da Costa Ribeiro Alves fez-me isto e assado”, “Não previa nada disto, sempre nos demos tão bem, na cama era do melhor que há”, “Sou uma vítima, sou um coitado, como é que alguém foi capaz de me largar?”, “Ora bolas, e logo no dia em que fui ao dentista, ainda fiquei abandonado como um cão enquanto tomava Clonix para as dores.”

Alguém lhe foi dizer “Mulheres é o que não falta.” O problema é que homens ressabiados também não. E lá continuou durante dias: “Ela não apenas era isto como também era aquilo”, “Exponho, sim, exponho o nome da Emília da Costa Ribeiro Alves para que saibam que tipo de pessoa é que ela é. E que tipo de pessoa é ela? Que tipo, santo Deus? Como é que alguém é capaz de [me] fazer isto?”

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O coração desfeito era o baluarte do amor, a taça erguida no final da Champions, a meta rasgada com o peito em chamas. Ela era a crápula. O ogre que o tinha comido. O João Moutinho a falhar o penalty. O Maradona a marcar com a mão. O craque que se faz expulsar a meio da primeira parte na final da taça UEFA. Ela era a portuguesa que preferia o Messi ao Ronaldo.

A culpa da dor do mundo era dela porque não o quis, e na cabeça de quem sofre não se pode culpar um homem despeitado. Na cabeça de quem sofre, não sobra força para o impulso. Na cabeça do Quim, não valia a pena o esforço, não havia um bem sei, mas mesmo assim, a culpa era das mulheres e pronto. Ele era um bebé carente, ela uma besta por não lhe ter mudado as fraldas. Ele adorava-a tanto que se vingava na Internet. Ela era o cubo de gelo que não quis o seu coração ressabiado.

Uma pessoa lê histórias, ouve fado, anda na rua, fica com a ideia de que o que não falta em Lisboa é peixe. O Quim não ia nessa, peixe só havia um, que se lixasse o cardume, ainda que garantisse na Internet que já várias senhoras se tinham mostrado disponíveis. Ali, era uma vítima, sempre a insistir na lengalenga, sempre a dizer que não percebia porque é que ela o tinha deixado. Dentro de casa, era um monstro. Deixou aquilo num canho. Ela bloqueou-o no Facebook.

O agente de execução fez o leilão e o Quim executou-se. Saiu do carro na ponte 25 de Abril com uma corda, pronto para a meter ao pescoço, para respirar o Tejo nunca mais. Não conseguiu fazer o nó e atirou-se à água. Era sábado, meio de Agosto ao fim da manhã, os lisboetas que fugiam para a Costa da Caparica ficaram a curtir o trânsito, alguns deles sem ar condicionado.

E o Manel e o Rodrigo compraram a casa. Ainda investiram uns milhares em pintura, armários da cozinha, portas novas. Não mudaram a tijoleira, que ainda hoje tem buracos. “A Graça está muito in, mesmo neste estado ainda nos custou um balúrdio”, justificavam-se os dois.

Faltou dizer que havia um sótão, coisa que nem viram nas duas primeiras visitas. Era encantador, uma matriosca: abria-se uma porta, havia outra, e depois havia outra de pedra. Já irritados com a vida, mandaram chamar o pedreiro.

Ora, o pedreiro estava apaixonado por uma mulher que estava no Brasil. Passava o dia no WhatsApp e o servente é que fazia tudo. Como tinha pouca experiência, mexeu onde não devia e quase deu cabo da casa toda. Meteram para lá uns pilares para que o tecto não lhes caísse em cima e continuaram a explorar a sós.

No meio do entulho, estava uma campa de mármore. Isso, uma dos mortos, com inscrição e foto. “Caraças, Manel, caraças”, dizia o Rodrigo. O coração batia e o Manel aproximou-se. Achou que a fotografia seria do Quim ou da mulher, que planeava o suicídio ou o assassinato. Respirou de alívio ao ver a fotografia de um gato.

Mas um gajo desconfia. A propriedade era dele, o cadáver também seria. Não iam sujar as mãos com sangue derramado por um morto. Lá se mandou chamar a polícia, que veio a sério, em grupo, forças especiais, cães, um gajo que parecia o Robocop, outro que não se apresentou e passeava com uma pasta e que o Manel insistia que talvez fosse do Ministério Público.

Tudo por causa de um gato chamado Delícia que tinha morrido em 2001.

O mais gordo dos GNR só dizia “Desculpe, mas eu precisava de cá vir para um dia contar a história ao meu neto.” Que avô não quereria, em frente à lareira, embalar o filho da filha numa história sobre uma campa de gato selada com silicone?

Tudo isto se passava ao lado de uma estante só com banda desenhada pornográfica – incluindo zoofilia, cavalos e cães. E, do outro lado, também havia silicone, mas nos peitorais das senhoras e nos glúteos masculinos.

Passaram ali uma tarde, com o Manel e o Rodrigo já em desespero. Era muita gente, muitas pegadas, muita coisa para arrumar. E depois de tanto tempo tinha de vir crime dos grandes. Ao fim da tarde, a tropa toda foi embora. E o Manel dirigiu-se a um deles: “O que tinha a campa?” E o gajo: “Não sei, não abrimos.”

Perante a estupefacção, o GNR confortou-os: “Aquilo há-de ser um gatinho. Com 20 anos, são só ossos. Deite fora e faça de conta que é um frango.”

O problema do cadáver felino da Graça não ficou resolvido. Continuavam a ter uma campa selada, talvez um cadáver. Era preciso que alguém tomasse as rédeas, não se desse por vencido. E, pela primeira vez, o Rodrigo abriu um caixão. Lá dentro, havia um saco de plástico. Dentro do saco, havia uma moldura. Dentro da moldura, estava a fotografia de um cão.

Confuso com isto, meteu o entulho todo em sacos, morto por não mais olhar para nada. Partiu a lápide com um martelo, juntou o resto da tralha, foi acumulando tudo no passeio. A vizinha, que é uma besta, fez queixa à junta por resíduos espalhados na via pública e os meus amigos foram multados.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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