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O padre Jorge, pároco da Igreja da Graça, indica as áreas de infiltração no teto do prédio. Foto: Inês Leote

O padre Jorge aponta o indicador para o teto, onde se vê a Virgem Maria, acompanhada pela Santíssima Trindade e os apóstolos. Mais ao alto, Jesus e Deus esperam-na no céu. A cena pintada no século XVIII por Pedro Alexandrino de Carvalho retrata a assunção de Maria e contém ainda as alegorias típicas da época, como nuvens e querubins.

Nos últimos anos, porém, a enorme pintura no teto da Igreja da Graça ganhou imensas manchas brancas, uma intervenção “artística” não prevista por Pedro Alexandrino de Carvalho – espécie de Michelangelo português, responsável pela ornamentação de dezenas de igrejas – mas borrões que representam a força da natureza e a fraqueza dos homens.

“São manchas causadas pela chuva, provocadas pelas infiltrações no teto”, explica o padre Jorge Dias, 48 anos, um homem de voz calma e sorriso acolhedor, que assumiu a Paróquia da Graça em 2016 e, desde então, carrega a cruz para que os querubins, os apóstolos, a Santíssima Trindade, a Virgem, Jesus e até Deus não desabem na cabeça dos fiéis.

O padre Jorge Dias, o pároco da Igreja da Graça: desde 2016, luta para que um dos cartões postais de Lisboa seja restaurado. Foto: Inês Leote

Parece um exagero, mas a Igreja do Convento da Graça literalmente já começou a ruir. Na área do coro, junto a um dos três órgãos – que, assim como os outros dois, não funciona por falta de manutenção – a parede cedeu e o padre Jorge não recolheu as pedras, talvez para garantir que, para aqueles como São Tomé, haja o que ver para crer.

E não é por falta de olhos. Na última Procissão dos Passos, em 11 de março, estiveram na igreja, onde o cortejo termina para a tradicional bênção à cidade, o antigo e o atual presidentes da Câmara de Lisboa, Fernando Medina e Carlos Moedas, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e outras eminências da política portuguesa.

Olhos que se fecharam para a igreja, erguida no século XIII no sítio onde as tropas de D. Afonso Henriques tinham acampado durante o cerco a Lisboa em 1147, parte do convento classificado património nacional desde 1910 – ainda durante a monarquia – e um dos cartões postais lisboeta, com direito a miradouro com vista para outros cartões postais da cidade.

A Igreja da Graça foi retirada do lote que se beneficiará dos investimentos a serem realizados na construção do hotel. Foto: Inês Leote

Um potencial turístico que em 2019 levou o Estado português a negociar os cerca de 15 mil metros quadrados da área do convento com o grupo Sana, em troca de 1,79 milhões de euros por ano pelo arrendamento da estrutura, nos próximos 50 anos. Os investidores também revelaram a intenção de gastar 40 milhões na reforma do espaço.

Os valores são milionários, mas não há previsão de que um único cêntimo do arrendamento recebido pelo Estado ou do investimento do Sana caia no cofre da sacristia da igreja, obrigada a ver ao seu lado a aurora de um moderno hotel de cinco estrelas com 170 quartos, enquanto lentamente testemunha o próprio crepúsculo.

A parte superior da ala dos claustros do Convento da Graça abrigará parte dos 170 quartos do hotel. Foto: Inês Leote

Sinais e sustos vindos dos céus

Nascido em Torres Vedras, o padre Jorge Dias fez a formação religiosa em três seminários. Em nenhum deles, porém, teve lições de engenharia. “Aprendi no ofício. Não sei que sinais dos céus são estes, mas em todas as paróquias por onde passei, enfrentei problemas com o teto das igrejas”, conta o pároco, que antes da Graça guiou, entre outros, o rebanho de Queluz.

A verdade é que a experiência enviada pelos “sinais dos céus” lhe tem valido na missão de manter a enorme estrutura da Igreja da Graça de pé. “No fim do verão peço sempre a uns pedreiros experientes para darem uma volta ao telhado. Fazerem uma limpeza, pequenos reparos e recolocarem as telhas deslocadas pelo vento, à espera do inverno”, explica.

A estratégia tem evitado o pior, mas não sem sustos. Para além máculas que ameaçam a ascensão da imaculada Virgem e da derrocada das pedras na parede do coro, um dos janelões laterais da nave abanaram com o vento e, graças a uma intervenção de última hora, os fiéis, já habituados às goteiras, não foram apanhados por uma chuva de vidros e aços.

A infiltração provocada pelas chuvas tem minado as estruturas de partes do teto da Igreja da Graça. Foto: Inês Leote

O esforço concentrado no teto da igreja, porém, relegou o resto do prédio ao deus-dará. Diletante, o padre Jorge conduz a reportagem da Mensagem por uma visita de inspeção ao interior da Igreja da Graça, parcialmente destruída no Grande Terramoto de 1755 e novamente sob ataque das intempéries da força da natureza.

Uma viagem por corredores escuros de paredes húmidas que interligam as divisões da igreja através de imensas e sisudas portas de madeiras, que se abrem e fecham e deixam transparecer tanto os sinais de riqueza no dourado a reluzir num ornamento de um altar como as marcas da decadência em cada azulejo que se desprendeu de um mural.

Na área do coro, as pedras de um desabamento do teto ainda permanecem espalhadas pelo chão. Foto: Inês Leote

Guia sagaz, o padre deixa o melhor para o fim. A subida em espiral por degraus de pedras irregulares termina numa porta que, modesta, contrasta com a grandeza do tesouro que guarda: a vista a partir do amplo telhado da igreja é um miradouro sobre o miradouro da Graça. A dezenas de metros do chão, da torre do sino, Lisboa revela-se ainda mais bonita.

Do alto, o sino também é testemunha das falhas do telhado gasto. “Basta um vento mais forte para as telhas voarem”, lamenta o padre Jorge. No regresso, uma outra porta não se abre para a nossa passagem. “Desta, já não tenho a chave”, explica o nosso guia espiritual-turístico. “A partir daí, já não é da igreja. É do hotel.”

De um lugar de culto a atração cultural

O hotel é fruto da inclusão do Convento da Graça no programa Revive, uma iniciativa lançada em 2016 pelo Estado português para disponibilizar imóveis que fazem parte do seu património a projetos turísticos. Os cerca de 15 mil metros quadrados negociados com o grupo Sana incluem os cinco pisos do prédio, desde o térreo ao terceiro andar, além de uma cave.

Considerados “sem vocação turística”, a igreja, a sacristia e o claustro foram excluídos das áreas contempladas no programa Revive. O que não deixa de ser uma ironia. “Atualmente, a Igreja da Graça é menos um espaço de culto e mais um espaço cultural, visitado mais por turistas do que por fiéis”, lamenta o pároco, sem esconder uma certa frustração.

Considerados “sem vocação turística”, a igreja, a sacristia e o claustro foram excluídos das áreas contempladas no programa Revive.

A título de comparação, na paróquia anterior do padre Jorge, em Queluz, cerca de 600 crianças frequentavam a catequese. Na atual, que centraliza os serviços paroquiais não só da Graça, mas também de São Vicente de Fora e da Irmandade do Senhor dos Passos – em outras palavras, congrega três paróquias numa só – o rebanho infantil é dez vezes menor.

A baixa frequência não é apenas entre os mais novos. “Por dia, podem vir 200 ou mais turistas. Já as missas atraem cerca de 50 fiéis durante a semana e, aos sábados e domingos, talvez uma centena”, continua o padre. “Já houve quem sugerisse a cobrança de entrada aos turistas como forma de receita, mas sou contra que se pague para entrar na casa de Deus.”

Desde 1834, com a extinção das ordens religiosas em Portugal, o convento deixou de exercer suas funções originais e o antigo espaço consagrado à paz passou a acolher militares. Foto: Inês Leote

Da porta da “casa de Deus”, o ruído da construção do futuro funicular subitamente interrompe a conversa. A obra irrita o religioso de forma particular, não por ser mais um investimento turístico que se aproveitará da igreja sem trazer benefícios financeiros diretos, mas por ter sido o palco do dia em que o padre caiu no conto do vigário de um político.

“Ainda na gestão passada da Câmara, um vereador com pelouro prometeu-me que aproveitariam os operários para repararem o teto da igreja. Pois, quando a obra começou, fui tratar do assunto, mas ninguém havia ouvido nada a esse respeito. Ficaram todos a olhar para mim e só não pensaram que era mentira porque quem estava a falar era um padre.”

O jogo do empurra

No início do ano, porém, a iniciativa solitária de um político – sem pelouro e de um partido sem representação no Parlamento – tentou recolocar o mau estado da Igreja da Graça em discussão pública. A iniciativa foi do deputado municipal do MPT, José Inácio Faria, que enviou uma recomendação à CML solicitando cuidados especiais com o património.

O deputado municipal José Inácio Faria tenta recolocar o mau estado de conservação da Igreja da Graça na pauta política. Foto: Inês Leote

“A Igreja e o Convento da Graça não estão no raio de atuação da Câmara Municipal de Lisboa, mas a Câmara tem meios de viabilizar o restauro, como aconteceu com a Igreja de Santa Clara, no Porto”, justifica o deputado, recorrendo ao modelo de “mecenato” adotado pela autarquia e pela diocese local, que angariou 2,5 milhões de euros para a obra.

A iniciativa de José Inácio Faria não foi além de uma recomendação à CML, mas foi através dela que a Mensagem soube dos problemas enfrentados pela Igreja da Graça. A expetativa do deputado é dar um novo fôlego ao antigo problema e que a Câmara e o Patriarcado de Lisboa unam esforços em busca de uma solução.

O telhado da Igreja da Graça à espera de ser substituído e os janelões laterais que costumam abanar com a força do vento.. Foto: Inês Leote

Contactado pela Mensagem, o Patriarcado de Lisboa recorreu a um conhecido gesto bíblico e lavou as mãos em relação à manutenção da Igreja da Graça. “O Patriarcado de Lisboa esclarece que o Convento da Graça, classificado como Monumento Nacional desde 1910, é propriedade do Estado Português”, disse a sucinta nota enviada à redação.

O que é verdade. Desde 1834, com a extinção das ordens religiosas em Portugal, o convento deixou de exercer suas funções originais e o antigo espaço consagrado à paz passou a acolher militares, primeiro como quartel do Exército e depois da GNR. Tanto que o texto do programa Revive refere-se ao prédio como “antigo convento, atual quartel”.

As ampliações realizadas para servir o quartel durante esses anos, entre elas a oficina de calçado, a barbearia, as instalações sanitárias e o estacionamento dos oficiais, estão na lista de edificações que devem ser removidas na reforma do futuro hotel, áreas disponíveis para a instalação de serviços lúdicos, como piscinas e campos de jogos.

As paredes do Convento da Graça, que serão restauradas junto com toda a estrutura interna para abrigar um hotel de luxo. Foto: Inês Leote

O documento sugere ainda que o acesso ao futuro hotel dar-se-á pelo Largo da Graça, beneficiando da entrada original do convento, que permite aceder ao claustro central e alas adjacentes do prédio. O texto prevê também que o atual proprietário amplie os lugares de estacionamento, junto à rua Damasceno, para servir tanto aos hóspedes como à população.

A reportagem entrou em contacto com a Direção Geral do Património Cultural (DGPC) sobre a falta de conservação da Igreja da Graça, mas não obteve resposta.

Quem também não respondeu ao contacto foi o atelier de arquitetura Frederico Valsassina, associado ao projeto do novo hotel Sana, originalmente previsto para começar a operar no fim de 2022, prazo que seguramente não será cumprido, pois não é visível qualquer movimentação referente a obras no local.

O padre que perdeu a fé

A única certeza é que o verão se aproxima e será a hora de os pedreiros darem uma nova “volta ao telhado” da igreja. “O trabalho do ano passado foi bem feito e não sofremos com infiltrações este inverno”, reconhece o padre Jorge, sem esconder o desânimo de lidar com questões tão mundanas. “Não fui feito para isso, mas para a vida paroquial”, desabafa.

O padre disse ter perdido a fé nos homens: “Por mais que se estenda a mão, não se recebe nada”. Foto: Inês Leote

Mesmo assim, por iniciativa própria, o pároco solicitou um orçamento a algumas empresas de engenharia para a reparação apenas do telhado da Igreja da Graça. O valor, a rondar os 500 mil euros, impresso nas propostas não tem qualquer serventia prática, a não ser a de responder aos curiosos sobre quanto custaria a paz de espírito do responsável pela paróquia.

Apesar do bom trabalho, as marcas de invernos anteriores mantêm-se no teto pintado por Pedro Alexandrino de Carvalho, o mais importante pintor português da segunda metade do século XVIII. Os traços que adornam a Sé de Lisboa, o Palácio de Queluz e mais uma dezena de monumentos portugueses são o melhor exemplo do chamado “ilusionismo romano” no país.

Por sua vez, o padre Jorge não tem ilusões. “O padre perdeu a fé. Sei que estas obras já não são para mim. Não a fé em Deus, mas nos homens, pois por mais que se estenda a mão, não se recebe nada”, confessa, observado ao alto pelos querubins, apóstolos, a Virgem, Jesus e até Deus, todos a dependerem do esforço deste homem para não despencarem do Céu.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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