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Para quem tem filhos pequenos e vive no centro de Lisboa, as bicicletas não são propriamente veículos que se passem para as mãos dos miúdos com a maior das tranquilidades. Sabendo muitos de nós, adultos, que andar de bicicleta na infância (e nomeadamente poder ir para a escola neste maravilhoso veículo de duas rodas) é uma experiência maravilhosa, é, no entanto, quase impraticável na cidade por colocar em perigo a integridade física das crianças.

Mesmo com as ciclovias, que cada vez há em maior número e com melhores condições, ainda é perigoso andar de bicicleta em Lisboa, mesmo para os mais crescidos. Sei porque fi-lo recentemente. E pude confirmar que temos muitos automobilistas insanos a circular diariamente por todos os cantos da cidade.

Descobri recentemente um programa da Câmara Municipal de Lisboa e pensei logo na minha filha de dez anos, que tem sido privada de circular de bicicleta pela cidade tanto quanto eu gostaria. Chama-se Programa de Mobilidade Escolar e faz com que os alunos vão de bicicleta para a escola acompanhados por monitores. «Tal como um “comboio” normal, tem uma linha/percurso e horários definidos. A participação é gratuita, mediante inscrição obrigatória.»

Obviamente que se trata de um programa que visa sensibilizar e promover a adopção de hábitos de mobilidade activos e sustentáveis nas deslocações para a escola, capacitando as crianças para o uso utilitário e autónomo da bicicleta em contexto citadino. Infelizmente, ainda só algumas escolas é que aderiram a este programa e não me é possível inscrever para já a minha filha. Andar de bicicleta é uma das cenas melhores da infância, seja ou não em contexto citadino.

Conseguir andar de bicicleta costuma ser dos desafios mais difíceis para uma criança pequena. Parece que ficamos imediatamente mais crescidos quando pedalamos o icónico veículo de duas rodas sem as ridículas e tão rapidamente esquecidas rodinhas de apoio.

Comigo não foi diferente, tinha cinco anos quando decidi que estava preparada para me fazer à estrada, ou mais propriamente à praceta asfaltada do bairro, que perfazia no máximo uns 800 metros de caminho em círculo. Disse determinada ao meu pai: «Podemos tirar as rodinhas, eu consigo! Sonhei que já sabia andar sozinha, pai.»

Os meus pais, pouco crentes na minha vidência onírica de autonomia precoce, ainda insistiram que talvez fosse melhor dar mais umas voltas com as ditas rodinhas de apoio postas. Recusei-me determinantemente; pelo menos foi o que me disse anos depois a minha mãe, porque eu, sinceramente, já não me lembro com clareza deste momento.

Como calculam, dos 5 aos 44 anos passaram, entretanto, muitos quilómetros de situações na minha vida. O meu pai acabou por ceder à minha determinação e retirou as ditas rodinhas da bicicleta. A verdade é que ainda me seguiu segurando no banco durante alguns metros, enquanto eu pedalava e me aventurava na nova fase de velocípede crescida, mas acabou por me deixar seguir sozinha. Ficaram ambos estupefactos quando me viram circular pela praceta sem dar um trambolhão durante umas duas voltas de seguida.

Descobri cedo que pedalar era umas das melhores coisas do mundo, talvez só equiparável à alegria de ir à praia, mais propriamente de mergulhar com os meus primos no mar. Depois dessa bicicleta das rodinhas tive a bicicleta mais fixe do mundo: uma BMX vermelha e amarela. Um presente dos meus pais quando passei de ano escolar, da 2. ª para a 3. ª classe. Foi o presente que mais gostei de receber e que lhes custou muito comprar. Era um brinquedo demasiado caro para a carteira pouco farta dos meus progenitores.

Andar de bicicleta era, sem dúvida, uma das melhores coisas do mundo. Ainda hoje acho o mesmo. Há uns anos, voltei a ter uma bicicleta, comprei-a na altura que estava a tirar o mestrado em Filosofia, na FCSH. Voltei a sentir a mesma sensação de liberdade quando ia a pedalar à noite para a escola. Acontece que o dito veículo não durou nem três meses.

Numa das noites em que saí de uma aula de Questões de Antropologia Filosófica, decidi ir ver um filme ao El Corte Inglès, já não me lembro qual. Deixei o meu novo meio de transporte, a minha coqueluche, presa com o cadeado junto ao dito centro comercial. Quando saí da sessão, a bicicleta tinha desaparecido.

Que desolação, senti-me triste como se me tivessem roubado um pedacinho da infância. Vá, talvez esteja a exagerar, mas custou-me, pronto. Fiquei sobretudo lixada por me terem levado a bina nova.

Depois deste episódio ainda não adquiri outro veículo. Ando a pé ou de carro, e de vez em quando alugo uma Gira. Mas espero conseguir muito em breve um lugar para a minha filha neste «comboio de bicicletas de Lisboa», tenho a certeza de que vai passar a ver a cidade com outros olhos.

Talvez seja piroso mas era o que eu sentia quando era miúda: andar de bicicleta dava ânsias de correr o mundo.


* Cláudia Lucas Chéu nasceu de madrugada na mais célebre maternidade lisboeta, em 1978. Cresceu na margem Sul, mas viveu parte da adolescência enfiada no King. Quase todos os momentos emocionantes da sua vida se passaram em Lisboa: perdeu a virgindade nas Laranjeiras, foi assaltada no Cais do Sodré, subiu ao palco pela primeira vez como atriz profissional na Praça de Espanha, publicou o primeiro livro no Rossio e deu à luz uma filha no Alto dos Moinhos. Vive há mais de duas décadas em Lisboa. Não contempla morar noutra cidade.

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1 Comentário

  1. Farta desta catequização contra os carros , desta manipulação que chega ao ponto de impor ciclovias nas grandes vias de circulação que servem as pequenas empresas, o comércio, os trabalhadores que se deslocam para o centro da urbe (depois de serem expulsos por não terem dinheiro para um casa no seu interior.), das famílias. Força, matem a economia da cidade, mantenham o cerco à livre circulação de bens, serviços e pessoas. Aliementem as empresas digitais que exploram os emigrantes que usam as suas próprias bicicletas porque não têm motas. Isso! Força! destruam a cidade, o seu comércio, as suas gente que agora vivem na periferia. O vosso egoísmo tão pueril é devastador.

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