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1.

Há certas coisas que não é suposto acontecerem em Lisboa: nevões, tornados, poeiras do deserto.

Também não é suposto acontecerem guerras. Nem pandemias.

Quando as coisas duram um determinado número de anos parecem-nos que são para sempre.

Talvez seja isso que para a escala humana quer dizer para sempre: um número de anos suficiente para nos sentirmos seguros.

2.

A minha filha mais nova usa a palavra sempre para dizer que gosta de mim. Mas também de doces. Para dizer que algo se repete ou não tem interrupção.

Recentemente, talvez por ter percebido precisamente que as coisas não duram para sempre, gosta particularmente de usar a palavra.

3.

Cada dia em que o céu está amarelado e que não se vê o sol porque o Saara movimenta as suas areias, penso que Lisboa é o cenário perfeito para uma história. Que é nesse dia que vou começar a escrever um grande romance. Talvez um romance em que o inesperado acontece, uma catástrofe, uma ameaça que não se tinha previsto, uma situação em que se joga o melhor e o pior da humanidade.

Mas é possível que, uma vez começando a escrever, rapidamente, no romance, as poeiras se dissipassem. E logo as personagens se esquecessem e continuassem a viver como se não tivesse acontecido nada e como se não pudesse voltar a acontecer. E não mostrariam o melhor nem o pior de si, com grandes gestos heróicos ou acções terríveis, mas estariam limitadas a pequenos gestos diários para mostrar a sua humanidade.

4.

Sempre gostei dos relatos de Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial. Não pelo ambiente de espionagem, romântico, que evoca a Casablanca de Hollywood ou os romances de agentes secretos ingleses, mas pela ideia da cidade como espécie de grande estação.

As pessoas chegavam, suspensas entre a sua vida passada e um futuro desconhecido, e esperavam o momento de partir ou de retomar a vida. Lisboa era o local de paragem da História.

5.

Não sei se os refugiados que chegam hoje a Lisboa vêem a cidade como um lugar de chegada ou como um apeadeiro.

Uns vão voltar para casa. Outros vão escolher novos destinos. Uns, com certeza, vão apaixonar-se por alguma coisa ou alguém, aqui, e ficar. Outros talvez se distraiam com tudo o que se passa na estação e em redor dela e não cheguem a tomar decisão nenhuma.

6.

“E viveram felizes…” E a pequenina completa: “… para sempre.” Uma noite normal com um conto antes de dormir. Pergunto-me se é assim que ela aprende a expressão. Ou se eu a uso mais vezes do que suspeito.

7.

Já muitos escritores fizeram o exercício de imaginar o que aconteceria aos príncipes se a narrativa continuasse, depois de irem viver juntos, depois de terem filhos, depois de os anos se acumularem. O final não seria tão feliz, mas eu gosto de pensar que aquela memória do momento do beijo, ou da aventura que tinham tido, sim, sobreviveria para sempre.

8.

Os meus pais, que viveram sob guerra na cidade deles, em Luanda, uma guerra da qual Portugal não estava isento de culpas, sempre me disseram o quão seguro era o lugar onde eu cresci.

Cresci com esse mito de que Lisboa é a capital de um lugar onde nada de extremo pode acontecer. Um lugar suficientemente afastado dos pólos, dos trópicos, de vulcões, de falhas tectónicas teimosas, das grandes tensões políticas do mundo, de fronteiras disputadas à exaustão, de alvos nucleares.

E eu, agora, digo exactamente o mesmo às minhas filhas, esperando que elas não percebam que nada é para sempre e que seremos sempre apanhados de surpresa pelos acontecimentos.

9.

Enquanto algumas crianças fogem da guerra, outras fazem amigos e continuam as suas vidas. Essa é a enorme perplexidade de estar vivo num mundo onde constantemente sabemos das vidas dos outros.

10.

A partir de certa idade sabemos que o amor é para sempre mas também a desilusão. Que a felicidade é para sempre mas também o sofrimento. A partir de certa idade, começamos a repetir erros e também sucessos. Já sabemos que a eternidade reside na repetição.

11.

Sabemos, por exemplo, que um único homem, pequeno, banal, até um pouco ridículo, pode mudar o curso da história. Uma e outra vez.

12.

A ideia de que algo poderá vir a acontecer: um terramoto, uma guerra que passe várias fronteiras, uma tempestade tropical fora da sua geografia, não muda em quase nada a maneira como vivemos.

Continuamos a contar histórias aos filhos à noite e a fazer tudo com normalidade. E talvez, quando o desastre acontece, o que queremos é continuar a poder contar histórias aos filhos à noite e que nessas histórias, pelo menos, se veja o melhor de nós.

13.

A cidade fica diferente. Uma outra cor abate-se sobre nós porque alguma coisa se passa, longe, no Saara. Nesse instante, estranho, parece que algo inimaginável pode acontecer e é bom de vez em quando, em Lisboa, sentir esse sobressalto. Perguntarmo-nos se estamos realmente a salvo. E se não estamos, o que fazer?


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