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Há um mês, Anna Borsuk fazia uma vida tranquila na região ucraniana de Kherson, numa casa apenas abalada pela agitação habitual e infantil da filha mais nova, Karyna. Um abalo pequeno, tão ténue como o cair de um grão de areia na terra, quando comparado com a primeira explosão daquela madrugada de 24 de fevereiro. Foi quando esta mãe de 33 anos acordou com uma chamada que marcou “um antes e um depois” na sua vida. Quatro horas da manhã. Era da empresa: “a guerra começou”. Deu 30 minutos às filhas, de sete e 14 anos, para fazerem as malas. Estavam de partida da Ucrânia.

Não discutiram o que fazia falta levar, não houve tempo. Só na chegada à fronteira com a Polónia, quando abriu as malas, é que Anna percebeu que tudo o que as filhas tinham levado não dava para enfrentar o Inverno polaco: lá dentro, só havia biquínis.

“Fui levada por anjos”, acredita. Senão, como poderia sobreviver a um cenário em que, presa numa fila de carros durante horas, via “de um lado, a cidade em fogo e, do outro, os aviões russos a atacar”? “O choque e o medo que prendem o corpo são simplesmente impossíveis de transmitir.” Mas Anna não parou, não olhou para trás.

Foi a primeira vez que saiu da Ucrânia.

De repente: Polónia, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Espanha e, finalmente, Portugal.

“Sinto-me culpada por estar segura, mesmo tendo tirado as minhas filhas da guerra.”

ANNA BORSUK
Assim que a guerra rompeu, Anna Borsuk abandonou Kherson em direção à Polónia. Nas malas, as filhas levavam apenas biquínis. Foto: Líbia Florentino

Todos os dias têm sido de espera, desde então. Naquele em que a encontrámos, era sábado e Anna aguardava numa longa fila no terceiro piso de um edifício da Escola Básica Pedro de Santarém, na freguesia de Benfica. Há já vários dias que pousou as malas em Lisboa, com as filhas e uma tia, depois de uma prima ter conseguido alojamento numa casa de cidadãos portugueses. Só por isso teve como destino Portugal, país sobre o qual nada sabia, senão o quão longe está da guerra que se abateu sobre o seu país.

Em Kherson, deixou a mãe, enfermeira que escolheu ficar “porque tem muitas vítimas para ajudar”. A avó, uma senhora “já de idade, que nem sequer aguentaria a viagem”. E a irmã, que ficou numa outra cidade, estudante de jornalismo, agora abrigada num bunker, porque a velocidade com que as bombas chegaram à cidade não permitiram a fuga.

“Sinto-me culpada por estar segura, mesmo tendo tirado as minhas filhas da guerra.”

À procura de um pouco de normalidade, veio inscrevê-las nesta que é uma das muitas “escolas de sábado” ucranianas do país, onde alunos com raízes familiares na Ucrânia vêm aprender mais sobre a língua e a cultura, da primária ao ensino secundário.

Desde há dois sábados, chegaram mais de 50 novos alunos, refugiados da guerra que acontece na Europa. Anna lá esperava, olhos no telemóvel, alheia ao burburinho que se fazia nos corredores. Só levantando os olhos quando ouvia a corrida de Karyna fazer chiar as solas das sapatilhas no ladrilhado do chão da escola.

Ali estava ela, a fazer crer que aqui, com a companhia de outros que falam a mesma língua e escrevem no mesmo alfabeto, pode voltar a haver normalidade nos dias desta família.

É este o plano de Pavlo Sadokha e Kateryna Ostrovska. Ele presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, desde 2000 imigrado em Lisboa. Ela a irmã, psicóloga de formação e refugiada aqui desde que a guerra na Ucrânia começou. Nesta escola ucraniana de Benfica, criada há 17 anos pela associação de Pavlo, querem construir um centro de integração para os refugiados deste conflito armado. Com aulas de português para as crianças e para os adultos, com apoio psicológico, mas também com distribuição de refeições.

O bom anfitrião

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Vídeo: Líbia Florentino

O sol que ilumina Lisboa não é por acaso. “Este clima [meteorológico] que temos em Lisboa e o clima das pessoas é igual. É quente, é tranquilo, é aquele que dá para esquecer esta tragédia.” É nisto que Pavlo Sadokha acredita e já o comprovou por duas vezes na vida: quando chegou a Lisboa, no ano 2000; e agora, ano em que Lisboa acolhe pessoas fugidas da guerra que está a acontecer na Ucrânia. O país e esta cidade já têm a fama de bons anfitriões.

Por isso é que, para este homem de 52 anos, não foi uma surpresa ver o efeito desta crise na vida dos portugueses, que se mobilizaram em massa para ajudar, até abrir as portas das casas. “Foi assim connosco. E eu e outros fomos outro tipo de emigrantes, emigrantes económicos. Agora, todos veem imagens do que se passa na Ucrânia e a onda de solidariedade é maior, é normal. Mas, para nós, não foi uma surpresa, porque connosco foi igual.”

Pavlo Sadoka, em Fátima, no ano em que chegou a Portugal. Foto: DR

Foi igual naquele ano de 2000, quando lhe deram a mão e, sem que Pavlo soubesse uma única palavra em português, lhe estenderam um avental e um emprego num restaurante no Parque das Nações.

Ele, que na Ucrânia vestia fato e gravata e trabalhava como economista num banco.

A deficiência profunda do sobrinho, com epilepsia e afasia, justificou a mudança de farda. “Numa reunião familiar, resolvemos que alguém tinha de ir ganhar dinheiro para ajudar”, nas despesas, nos cuidados. O dinheiro “era difícil de ganhar na Ucrânia”, conta. Pavlo era novo e ainda não tinha aliança no dedo. Contactou uns amigos que já tinham emigrado para Portugal e seguiu-lhes o rasto.

“Mesmo que muitos portugueses gostem de dizer que está tudo mal, nós achamos que é um país de oportunidades e, se tens força e vontade, consegues realizar-te.”

PAVLO SADOKHA

Do restaurante, saltou para as obras. “Fiz muitas, onde se ganhasse dinheiro.” Sujeitou-se a tudo quanto pôde, desde que o dinheiro não parasse de entrar. Hoje, já é economista numa empresa de comércio e, por isso, vê Portugal como um país de muitas oportunidades. “Mesmo que muitos portugueses gostem de dizer que está tudo mal, nós achamos que é um país de oportunidades e, se tens força e vontade, consegues realizar-te.”

Ainda que nem a mesma língua se fale. Pavlo começou assim. “Lembro-me bem: até pedir alguma coisa no café, ir tratar assuntos no banco, abrir conta, isso era muito difícil fazer, porque eu não conseguia ler.” Valeu o apoio de portugueses, vizinhos de bairro e colegas de trabalho. Numa altura em que “a internet não era tão desenvolvida, não havia Google Translate”. Mas sempre houve “dicionários”, ele não dispensava um debaixo do braço e os portugueses não lhe dificultaram a vida pelas traduções palavra a palavra.

Pavlo Sadokha é presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal. Foto: Líbia Florentino

Talvez por isso tantos fiquem, diz. “Na altura, quando nós [ucranianos] começámos a chegar, não vínhamos para aqui para viver para sempre. Se naquela altura perguntasse a um ucraniano se ele ia viver aqui ou regressar, todos diziam que queriam regressar à Ucrânia. Era só para ganhar dinheiro e regressar. Só que, depois, a vida faz a sua correção.”

As estatísticas do SEF lembram-no e Pavlo repete-as: “Em 2008, nós tivemos quase 80 mil ucranianos com estatuto de residência cá em Portugal. E, agora, antes de começar a guerra, éramos 27 mil. A Ucrânia também começou a crescer economicamente, já começou a funcionar como um país social e as pessoas começaram a regressar.”

Pavlo ficou, formou aqui família e arranjou forma de dar aos ucranianos aqui imigrados o que ele não teve: uma associação, a Associação dos Ucranianos em Portugal, fundada em 2003, que pudesse ajudar na integração desta comunidade.

Sem imaginar que, 19 anos depois, esta seria tão importante para segurar os estilhaços de uma guerra. Nas escolas de sábado ucranianas e no projeto de um centro de integração ali mesmo, em Benfica.

E sem imaginar que ele voltaria a tocar a fronteira da Ucrânia, em 2022, para recolher a família de uma guerra no seu país. “Sem emoções, sem chorar”, ligou para o telemóvel da irmã, Kateryna. “Preparem-se.”

“Escolheram Portugal porque sentiam que é um país muito confortável, onde eles sentem toda esta tolerância e solidariedade”

PAVLO SADOKHA
Kateryna Ostrovska deixou a Ucrânia no início desta guerra, mas agora quer vir fazer a diferença para Portugal. Foto: Líbia Florentino

Ela, o marido, os filhos e os pais vivem agora numa casa em Castelo Branco, até que Pavlo consiga trazê-los a todos para Lisboa. Kateryna chegou mais cedo à capital, para trabalhar num gabinete de apoio psicológico para refugiados, um projeto em parceria com a Junta de Freguesia de Benfica, que lhes está a ceder instalações. Já leva anos de experiência neste campo. Na Ucrânia, era presidente da Kolping Family Society, doutora em Psicologia e chefe do Departamento de Educação Especial e Serviço Social da Faculdade de Educação Pedagógica, Universidade Nacional Ivan Franko de Lviv.

Podiam ter escolhido “qualquer outro país com um maior nível de vida”, Alemanha ou França, diz Pavlo. Lugares onde têm contactos científicos que estabeleceram ao longo dos anos, ela como especialista em Psicologia, o marido como Físico. “Mas escolheram Portugal por duas razões: está aqui a família, estou eu; mas, mais importante, eles sentiam que é um país muito confortável, onde eles sentem toda esta tolerância e solidariedade.”

Uma nova forma de escrever o nome

Toca a campainha e Anna vai procurar as filhas. A pequena Karyna de sete anos deambula pelos corredores como se sempre aqui tivesse estudado. Ainda não começou a fazer as perguntas difíceis. Mas, agora que a campainha tocou, pedem-lhe silêncio.

O corredor enche-se e as crianças e os jovens, do 1.º ano ao ensino secundário, unem-se, calados, com o corpo virado para a diretora da escola, Iryna Shnayder. Levam a mão ao peito e, como é habitual em todos os intervalos, rezam juntos. Uma oração que há um mês tem um final diferente: “Slava Ukraine”, repetem. “Glória à Ucrânia e glória a todos os que estão a combater.” Pequenos ou graúdos parecem perceber o real significado destas palavras.

No corredor da Escola Pedro de Santarém crianças e jovens oram em conjunto pela Ucrânia. Foto: Líbia Florentino

Seguimos a adolescente de bandeira azul e amarela que lhe abraça o tronco e se fecha em nó junto ao pescoço. Um nó no pescoço. Taras Shevchenko teria palavras para isto, para quem vagueia com as cores da Ucrânia às costas. Acertaria nos versos e talvez viesse parar a este quadro branco, na sala onde Liliya Pasakas, 14 anos, se senta para uma aula de literatura ucraniana. É sobre ele que falam.

Ele, poeta ucraniano, símbolo da luta pela liberdade no seu país, depois de libertado da agricultura pelo jeito para as artes, escritor do povo oprimido e com estátua deitada sobre o Tejo, na Praça Itália, no Restelo.

Corre água até mar azul“. Assim começa um dos poemas de Taras Shevchenko e a história de Sergiy Teleshek (Сергій Телешек) em Portugal – com o mar. Tem 15 anos e era um dos novos três colegas de Liliya na sala de aula da escola de sábado.

À esquerda, Sergiy, no primeiro dia dele nesta escola, depois de ter fugido da guerra na Ucrânia com a mãe. Ao lado, as colegas de turma Liliya e Sofia. Foto: Líbia Florentino

Era o primeiro dia dele, acabado de chegar a Lisboa, vindo de Kharkiv, uma cidade que já não existe como ele a conheceu. Sergiy ainda não sabe como escrever o nome num alfabeto que não o ucraniano, recorre ao telemóvel para transformar um reto ”й” num latino ‘y’. Mas sabe dizer, com todas as letras, num ucraniano que adivinhamos perfeito, como o encantou o mar de Portugal. “Quando viu o oceano, queria mergulhar”, traduz a colega Liliya.

É ela e a amiga Sofia quem traduzem a conversa. Vivem cá desde que se lembram de existir, mas têm família na Ucrânia e, por isso, dão às palavras de Sergiy o peso que ele lhes quer dar. Saiu de Kharkiv para Lviv e de Lviv para a Polónia, onde “todos ficavam de pé umas sete horas, pelo menos”, conta. “Não havia mesmo onde sentar, porque por todo o lado havia muitas pessoas.”

Ele e a mãe, contra o mundo. É assim desde há pouco mais de uma semana, quando partiram. Lá, ficou o pai, “porque os homens não podem sair da Ucrânia agora”, por força da lei marcial. É um dos combatentes por quem estes alunos e professores rezam nos intervalos das aulas. “Ele [o pai] não queria mesmo sair. Mas não está muito bem. Há bombardeamentos diários, andam lá os russos que atacaram, estão a roubar casas e a tirar tudo o que as pessoas já tinham. E há pouca comida.” São as notícias que vai recebendo.

“É-me indiferente, se vai
Esse filho orar, ou não…
Mas não me é indiferente,
Como a Ucrânia é adormentada”

Taras Shevchenko

Naquele dia, Sergiy também orou.

Outra História para contar

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Nelya Pidperyhora, ucraniana imigrada há 17 anos e há 15 professora de História na Escola Básica Pedro de Santarém. Vídeo: Líbia Florentino

Há anos que os livros e a matéria de História não mudavam. Agora, Nelya Pidperyhora tem de incluir uma História diferente nas aulas que leciona. Uma triste e próxima de todos ali. E que está a chegar às cadeiras da sala de aula, na figura de crianças e jovens refugiados da guerra. É ucraniana imigrada há 17 anos e há 15 professora desta disciplina na escola de sábado em Benfica.

Nelya estava sentada ao lado de Anna, a mãe recém-chegada a esta escola, para ajudar na tradução. Assim que Anna terminou de falar, Nelya suspirou, massajou os olhos e sabemos que, ali, viu contada um pouco da sua história também.

Na Ucrânia, deixou os pais e o irmão, na cidade central de Dniprodzerzhyns, “mais segura agora, por enquanto”. “Só teve ataques no primeiro dia. Por isso, dentro do possível, estão a fazer a vida normal.” Por isso é que eles escolheram ficar.

Já ela decidiu abandonar há quase duas décadas, para vir juntar-se ao marido, que já contava alguns anos em Portugal. “Quando nasceu o primeiro filho, o objetivo era comprar uma casa maior, então ele veio trabalhar um bocado para ganhar dinheiro e voltava. Mas depois eu percebi que ele estava a gostar de Portugal e eu vim.” Hoje, não voltam, não pensam sequer nisso, e o filho é estudante do 4.º ano de licenciatura de Ciências Farmacêuticas.

Fila de alunos do 9.º ano desta escola de sábado ucraniana. Neste dia, falavam sobre o mais conhecido poeta ucraniano, a quem foi dedicada uma estátua em Lisboa. Foto: Líbia Florentino

A mais de quatro mil quilómetros da terra natal, a professora de História nunca pensou ter a Ucrânia aqui tão perto. São dezenas de refugiados do seu país que lhe entram pela sala dentro desde há duas semanas. E como é que se fala de História numa altura destas?

“Acho que nunca contei tanta História, como nas últimas semanas, aos meus colegas portugueses”, conta. “E agora sempre alerto os meus alunos que o que está a acontecer na Ucrânia tem raízes na nossa história. Porque isto não poderia acontecer de um momento para o outro. Isto sempre tem história e as raízes são muito fortes do porquê de a Rússia estar a fazer isto.”

Uma história que não conta aos mais pequenos. “Tento protegê-los e fazer umas aulas mais divertidas, digamos assim, para eles se sentirem um bocadinho mais leves. E sentir aquela paz que nós temos aqui, graças a Deus”, suspira.

Anna Borsuk pressentiu a paz a fugir-lhes entre os dedos dias antes. A cidade de Kherson, de onde vem, está muito perto das fronteiras com a Crimeia, por isso, sabiam que se passava algo do outro lado, no território disputado entre russos e ucranianos em 2014. “Ainda que ninguém pensasse que eles podiam começar a fazer uma guerra com a força toda”, confessa.

Um gatilho puxado pelos russos, mas nunca pela sua terra, da qual diz estar orgulhosa. “Quando ficou bloqueada começaram logo a sentir falta de alimentos, falta de medicamentos. As tropas russas entraram, começaram logo a oferecer alimentos e medicamentos para os cidadãos, mas ninguém quis levar, mesmo a sofrer de necessidade.” Ninguém se rendeu, diz Anna. Em vez disso, uniram-se, “estão a juntar alimentos e medicamentos para dividir com outros que têm mais necessidade”.

Ao lado de Neyla, fala de uma outra luta, que a perseguiu até Portugal. A filha mais velha “parece estar com uma depressão”, por força da mudança radical de vida. Só a mais pequena, Karyna, tem permitido à família momentos de sorriso aberto. Um pequeno furacão, sempre ativa e otimista, repetindo várias vezes que vai ficar tudo bem. É nestes ombros pequeninos que jaz a esperança da mãe e da irmã. “Neste momento, é um grande apoio para a família toda.”

Karyna é a filha mais nova de Anna e este foi o primeiro dia de aulas nesta escola em Portugal. Foto: Líbia Florentino

A professora Nelya lembra que há tempo para compreender as linhas que hoje se estão a escrever no mundo. Para já, a prioridade é cuidar. “Eu compreendo muito bem como eles vão precisar de apoio. Não só em termos de ensino, em termos psicológicos, de tudo, integração na comunidade portuguesa. Por isso, nós, cá, estamos abertos para os pais, para os pequeninos e maiores que entraram para a nossa escola. Não é só hoje, é durante o tempo que precisarem. Vão ter sempre o nosso apoio.”

Recomeçar em Lisboa

Quando Anna chegou a Portugal, vinha com a matéria fiscal portuguesa toda na ponta da língua. No caminho entre a Polónia e Portugal, não agarrou em mapas ou abriu o telemóvel à procura de notícias. Anna fez a viagem a ler sobre impostos em Portugal. “Percebo muito bem que tenho duas filhas para criar e preciso de pensar como vou viver.” Ouviu dizer que em Portugal eram mais baixos. “Agora sei que, em Itália, ainda são mais baixos”, ri.

Não são só as filhas que vieram estudar. Ela mesma faz por estudar todos os dias sobre como trazer o negócio para cá. Anna trabalhava numa firma de segurança na agricultura, que vendia drones que auxiliam na distribuição de sementes em terreno agrícola. Exercia um cargo na área de expansão de vendas. Enquanto a solução não chega, dedica-se ao voluntariado aqui em Portugal. “Combino pedidos de ajuda das pessoas e aqueles que estão prontos para ajudar.”

Kateryna trabalhava como psicóloga numa Universidade em Lviv e agora quer ajudar os refugiados chegados a Portugal. Foto: Líbia Florentino

Kateryna Ostrovska escolheu o mesmo caminho: não parar. Quando se formou em Psicologia e, depois, tirou um curso de especialidade em traumatismo pós-guerra, a irmã de Pavlo Sadokha não esperava vir aplicar os conhecimentos numa pequena freguesia portuguesa chamada Benfica, a tantos quilómetros de casa.

“Ainda que tenhamos imenso apoio por parte da Ordem dos Psicólogos em Portugal, a língua dificulta muito, porque apoio psicológico é conversa. Então, em breve, vamos concretizar este apoio psicológico aos refugiados”, anuncia o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal. Um serviço que Kateryna já está a prestar informalmente ao telefone, em casa e até na rádio. A psicóloga recém-chegada a Lisboa tem o seu momento na nova emissão da Rádio Comercial em ucraniano, onde presta apoio aos ouvintes.

Pavlo conta ainda que a Ordem dos Psicólogos, com quem esteve reunido neste dia, pretende abrir vagas para psicólogos ucranianos. “Não que já estejam cá, porque são poucos, mas que pretendem vir para aqui. Uma das ideias era criar uma linha especial do SNS de apoio psicológico, dedicada em parte para aqueles que recebem refugiados, para saberem como lidar com uma pessoa que veio de uma zona de conflito”.

A Kateryna preocupam-na sobretudo os pais de crianças com deficiência, como ela. Não só pela dimensão da mudança, mas porque estes são pais “que não podem livremente ir trabalhar porque estas crianças têm de ficar em algum sítio”.

Pavlo e Kateryna reunidos com a Junta de Freguesia de Benfica e a Ordem dos Psicólogos para definir os próximos passos na resposta aos refugiados da Ucrânia. Foto: Líbia Florentino

O que chega estes dias a Benfica é apenas uma parte do que está por resolver. “Slava Ukraine”, ora-se nos corredores da escola, à procura de uma força maior que ajude a estancar este pulmão em ferida.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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2 Comentários

  1. Sou antiga moradora de Benfica, fiquei muito feliz por saber como tudo está a correr bem para este povo lindo que estamos a acolher, sejam felizes no meu País e na minha localidade

  2. Resido em Benfica gosto de saber que a junta de Freguesia está a apoiar toda esta comunidade em tão triste momento. Muito obrigada.
    Maria Teresa Táboas

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