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Ana Isabel Queiroz e Daniel Alves escolheram ser fotografados no Terreiro do Paço. Não foi uma escolha ao acaso. É que dia 24 de março celebra-se um número curioso: 17 500 dias de democracia. Exatamente mais um dia do que aqueles que foram vividos em ditadura. E os investigadores do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL) sabem bem o valor dos lugares nesta história.

Há 48 anos, na manhã do 25 de Abril de 1974, os militares irrompiam por esta praça bem conhecida de todos os lisboetas e é nela que os investigadores querem evocar essa memória. Escolheram-na entre os lugares que mapearam nessa revolução. Ana Isabel e Daniel selecionaram 23 livros escritos até 2013 que retratassem a “semana dos prodígios” (da véspera do 25 de Abril até 1 de maio de 1974) e fizeram um levantamento dos sítios, símbolos e emoções presentes nessas obras.

O resultado foi o estudo Walking Through the Revolution: A Spatial Reading of Literary Echoes realizado no âmbito do projeto Atlas das Paisagens Literárias que deu origem a este mapa:

O roteiro literário do 25 de Abril, como proposto por Ana Isabel Queiroz e Daniel Alves.

A memória coletiva

Isto é importante porque se hoje ainda há muitos que se lembram do dia da revolução vai chegar um dia em que não restará ninguém para contar o que ali se passou. Terão então José Saramago, Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Mia Couto, Alice Vieira e José Cardoso Pires, alguns dos autores que perpetuaram a revolução e os dias exaltantes que se lhe seguiram nas páginas dos seus livros para que não fossem esquecidos.

Daniel Alves e Ana Isabel Queiroz acreditam que são estas histórias – estes livros – que poderão manter as recordações vivas. “A literatura vai deixar essa memória, esse registo quase histórico”, diz Daniel Alves.

Há que desenvolver um olhar crítico em relação ao que a literatura conta, claro. Um livro está sempre enviesado pela memória do próprio autor – pelas vivências, pela época, pela própria história do livro, diz Daniel Alves.

Mas estes 23 livros, com as suas histórias fictícias, colocam as personagens e os seus dilemas imaginários no dia da revolução – e aquilo que é retratado não difere muito de livro para livro. “De todas as etapas da revolução, podemos interpretar que a prevalência na literatura de algumas confere-lhes um momento de estatuto social”, explica Ana Isabel Queiroz. “Alguns símbolos produzem memória”.

Daniel Alves vai ainda mais longe: “Todos eles retratam mais ou menos as mesmas coisas. Acabam por se transformar numa fonte histórica”. Ou melhor, “numa memória coletiva” do que se viveu há 48 anos.

O Largo do Carmo

Em 12 dos livros escolhidos, há um lugar que se repete: o Largo do Carmo. Foi ali que, pelas 12h30 do dia 25 de abril de 1974, o capitão Salgueiro Maia e os seus militares cercaram o Quartel do Carmo, onde Marcelo Caetano procurara refúgio. Os ultimatos foram gritados, o povo cantou o hino nacional, voaram cravos e os tanques encheram as ruas.

Pelas 19h30, Marcelo Caetano e os membros do governo rendiam-se finalmente. Entravam no chaimite “Bula” e eram transportados para o Posto do Movimento das Forças Armadas (MFA) na Pontinha. Um dos grandes objetivos da revolução era cumprido.

Os 10 lugares mais referidos na literatura do 25 de abril.

“Salgueiro Maia avançou para o Carmo. O povo enchia as ruas. O Rossio. Soubera-se que Marcelo Caetano se refugiara no Quartel da Guarda. Seria lá que tudo se iria dar. Resolver. Ninguém queria perder o momento. Ficar longe. Subia-se a Rua Nova do Almada, a do Alecrim, Ferragial. Cantava-se. Grândola, Vila Morena”.

Filomena Beja em Bute Daí, Zé!

“Aí, Chiado, Largo do Carmo, quartel-general da Guarda Republicana, os ditadores em fuga estavam cercados”.

José Cardoso Pires em Alexandre Alpha

Os soldados na rua, os tanques ali no Largo do Carmo (…) as pessoas a mandarem cravos para cima dos tanques e dos chaimites, as pessoas a gritarem ‘o povo está com o MFA’…”.

Alice Vieira em Vinte Cinco a Sete Vozes

As emissões radiofónicas

Recuando no tempo, até ao dia anterior. Às 23h da noite do dia 24 de Abril de 1974, soava na Rádio Renascença Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, a segunda das senhas para o arranque da revolução.

São seis as obras que se referem à canção revolucionária. José Saramago e Álvaro Guerra chegam mesmo a transcrever os seus primeiros versos em A Noite e Café 25 de Abril.

A mesma repetição acontece com os comunicados do MFA. Às 3h20 da manhã, um grupo de oficiais comunicava ao Posto de Comando que havia ocupado as instalações da Rádio Clube Português, tal como previsto.

Às 4h26, o jornalista Joaquim Furtado lia o primeiro comunicado. Não é o comunicado mais citado nas obras literárias, provavelmente pela sua hora tardia, mas o quinto e o sexto, transmitidos às 7h30 e 8h45, figuram em 14 obras.

“Os mortos-vivos de ontem escutando a rádio em ansiedade, nas suas casas, vão tornar-se pessoas diferentes. Alguns até se hão-de mascarar de democratas”.

Urbano Tavares Rodrigues em Último dia e o primeiro
Às 4h26 da manhã, foi feito o primeiro anúncio do MFA pelo jornalista Joaquim Furtado

O povo nas ruas

Às 5h45 da manhã do dia 25 de abril, a coluna da Escola Prática da Cavalaria ocupava o Terreiro do Paço. Os seus militares cercavam os ministérios e vários outros pontos da baixa de Lisboa. O “maior de Charlie Oito” comunicava ao Posto de Comando: “Ocupámos Toledo”. O capitão Salgueiro Maia tinha chegado ao Terreiro do Paço. Instalam-se ali 220 militares e os escritores recordam a enchente de gente.

“De qualquer modo alguém informa que na zona da Praça do Comércio há muita confusão de tropas. Sabe-se que alguns ministros já estão presos, outros fugirão por um buraco aberto numa parede (…)”.

Germano Almeida em Dona Pura e os Camaradas de Abril

“Passara já pela redacção do República onde a afluência de democratas punha à prova o soalho decrépito. Descera o Chiado, a Rua Nova do Almada, até à Praça do Comércio, onde as tropas de Cavalaria 5 defendiam tão timidamente o regime que começavam a passar-se para o outro lado, com blindados e tudo”.

Álvaro Guerra em Café 25 de Abril

As pessoas saem à rua, como a poesia, mesmo contra as ordens do MFA. Pelo Terreiro do Paço, pela rua do Arsenal, pelo Chiado e pelo Rossio, o povo canta o Grândola Vila Morena, atiram-se cravos pelos ares e há mesmo quem procure informações na redação do jornal República. O ambiente é de grande alegria e comoção.

“O olhar sem olhos dos muros tristes de ontem e anteontem transmuda-se em fragmentos de luz, as próprias pombas do Camões e do Rossio obedecem, no seu voo, a esta alegria de Abril (…) os brados de vitória pintam a hora; a vida vem, maré cheia, vaga de esperança, cobrir Lisboa, perfumada de cravos e juventude”.

Urbano Tavares Rodrigues em O Último Dia e o Primeiro

“Um mar de gente a entoar Grândola Vila Morena, um imenso coro a declarar solenemente a terra da fraternidade diante dum quartel de malditos onde se tinha refugiado o Governo”.

José Cardoso Pires em Alexandre Alpha

“Não sei descrever o dia de hoje: as tropas, os carros de combate, a felicidade, as palavras de alegria, o nervosismo, o puro júbilo”.

José Saramago em Manual de Pintura e Caligrafia.

“Esta! Esta é que é a notícia! Dizia assim: ‘Este jornal não foi visado por nenhuma comissão de censura'”.

Álvaro Guerra em Café 25 de abril

Os ecos do passado

Os livros não ficam por aqui. Muitas destas histórias relatam os tempos de ditadura que antecederam o 25 de Abril, mas também tudo o que aconteceu depois: a libertação dos presos políticos, a chegada dos refugiados, a manifestação do 1 de maio. Através de histórias fictícias, recordam outros tempos.

São representações, sim, “memórias construídas” daqueles que as viveram, mas são aquilo que de mais próximo temos do passado. Daniel Alves acredita mesmo que, se se entrevistassem 23 pessoas que não estes autores, seriam retiradas das suas memórias “as mesmas emoções, os mesmos sentimentos”.

Hoje, no Terreiro do Paço já não restam vestígios da revolução de há 48 anos, mas continuam a habitá-lo as memórias e as gentes que já cá não estão e que vivem nos livros. No dia em que a democracia suplanta a ditadura, as palavras evocam os tanques, os cravos, os militares e o povo na rua.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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