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Ver-se numa tela do cinema de São Jorge e num dos principais festivais de cinema de terror do país nunca passou pela cabeça de Dioclécio. Para ele e muitos outros jovens de Santo António dos Cavaleiros isso não era sequer uma possibilidade até surgir o “Eu Amo SAC”.

Elizandro e Dioclécio, ambos com 17 anos, inscreveram-se no “Eu Amo SAC” há cerca de sete anos. Sete anos que lhes mudaram a vida. “Estando aqui aprendemos tantas coisas em que nunca teríamos sequer pensado se não tivéssemos estado e agora chegamos ao 10º ano e já temos outra mentalidade”, diz Elizandro. Dioclécio concorda e diz que o projeto serviu muito para os fazer evoluir. “Sem este projeto, não seríamos o que somos hoje”.

Atualmente a frequentar o 10º ano num curso de teatro, tanto Elizandro como Dioclécio acreditam que isso não seria sequer uma possibilidade se não fosse o “Eu Amo SAC”. “Nunca pensei fazer nada assim. Foi só quando começámos a fazer atividades aqui que me interessei pela área”, reconhece Elizandro.

No rés-de-chão da Rua Padre António Viera, no bairro da Cidade Nova, em Santo António dos Cavaleiros, está a sede do projeto. À entrada, uma mesa de matraquilhos, em torno da qual se reúnem jovens e crianças. Atrás deles, um quadro pendurado na parede cinzenta. “Sê a mudança que queres ver no mundo” é o mote. É este o grande objetivo do projeto “Eu Amo SAC” que, desde 2010, pretende contribuir para a prevenção e diminuição de comportamentos de risco no bairro de Santo António dos Cavaleiros, em Loures, arredores de Lisboa.

Raquel Correia é coordenadora do projeto Eu Amo SAC desde 2016, mas trabalha desde 2010 nesta equipa que procura fazer a diferença na vida dos jovens mais carenciados de Santo António dos Cavaleiros. Foto: Inês Leote

Raquel Correia, técnica do projeto desde 2010 e sua coordenadora desde 2016, conta como nasceu o “Eu Amo SAC”.

“Percebemos que os mais vulneráveis desta comunidade eram os jovens e crianças, com a sua desocupação, falta de interesses e falta de oportunidades”, diz, contando que foi a consciência deste problema que, há cerca de 15 anos, numa primeira iniciativa para intervir na comunidade, levou a associação ABA – Associação Beneficente de Ajuda -, em parceria com a Igreja local – Igreja Reviver -, a iniciar treinos de competências com um grupo de crianças das ruas da Cidade Nova.

Eles acabam por desabafar connosco coisas importantes da vida deles, conseguem encontrar em nós esse porto de abrigo

“A primeira vez que o fizemos juntámos 100 crianças. E, durante dois ou três anos, fomos fazendo um treino duas vezes por ano”, recorda Raquel. Em 2010, a associação ABA, com a intenção de focar o seu apoio no público juvenil, decidiu concorrer ao Programa Escolhas que, desde então, financia o projeto “Eu Amo SAC”, em que estão também envolvidos dois Agrupamentos de Escolas da localidade – General Humberto Delgado e José Afonso -, a Câmara Municipal de Loures, a União das Freguesias de Santo António dos Cavaleiros e Frielas, a Comissão de Proteção de Crianças e a Igreja Reviver.

“Abrir os horizontes” aos jovens da comunidade

Por ser um projeto financiado pelo Programa Escolhas, Raquel realça a importância de que tudo o que fazem seja gratuito: “Estamos aqui a falar de igualdade de oportunidades. A quem não tem oportunidade para pagar atividades extracurriculares ou, às vezes, até uma ida ao cinema, nós damos resposta, o que é extremamente importante, especialmente, nestas idades, para abrir um bocadinho os horizontes”.

Como uma grande parte do público alvo do projeto é imigrante com famílias monoparentais ou em que os pais passam muito tempo ausentes, para Raquel Correia é essencial o papel da equipa enquanto mentora e figura de referência na vida dos jovens.

“Eles acabam por desabafar connosco coisas importantes da vida deles, conseguem encontrar em nós esse porto de abrigo e nós podemos, então, transmitir-lhes alguns valores e princípios que os ajudam a tomar decisões mais conscientes e equilibradas para a vida deles”, diz.

“Nojo”: De SAC para o mundo

Aberto de segunda a sexta-feira, o projeto oferece cerca de 12 atividades regulares que vão desde o apoio escolar, com ênfase no apoio digital, a sessões de cidadania e aos lab film com atividades audiovisuais, formação de fotografia e produção de vídeo.

Para além disso, o projeto tem, desde 2017, o grupo de teatro “A Voz do Bairro”, do qual Elizandro e Dioclécio fazem parte. “Quando entrei no ‘Eu Amo SAC’, era muito tímido e depois decidi ir para o grupo de teatro e isso ajudou-me imenso. Tirou-me, praticamente, a timidez toda”, conta Dioclécio.

Raquel explica a importância de atingir os objetivos do projeto através de uma intervenção pelas artes, principalmente, por estas serem uma forma de expressão que produz resultados visíveis. “Eles conseguem perceber o fruto do esforço e do empenho e acabam por deixar um legado. Deixam uma coisa que pode ser vista, revista, que pode ser apreciada e que pode até transmitir uma mensagem”.

Desse legado nasceu “Nojo”, uma curta-metragem que acabou por fazer parte do programa do premiado Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa MotelX, em 2019.

“Quando recebemos a notícia foi uma grande surpresa. Claro que trabalhámos para isso no sentido de inscrever a curta em vários festivais não só em Portugal, mas, também, internacionalmente”, conta Raquel Correia.

Realizada por Pedro Mira, que trabalha no projeto desde 2010, o filme é o resultado de um dos bootcamps que o “Eu Amo SAC” organiza nas pausas letivas dos jovens. “São geralmente dois dias em que vamos para fora com pernoita e fazemos treinos específicos de alguma coisa”, explica. Com a intenção de proporcionar aos jovens práticas de cinema, quer seja dentro ou fora de cena, a curta-metragem foi inteiramente executada pela equipa e jovens do “Eu Amo SAC”.

Enquanto Elizandro fez parte da equipa de luz e som, Dioclécio foi um dos três atores em cena, contracenando com Joel e João. O jovem, na altura com 15 anos, conta como, ao mesmo tempo, “queria e não queria” participar na curta. “Tiveram de me pressionar muito para participar porque era muito tímido”, confessa. Contudo, é por ter ultrapassado essa timidez que hoje pode dizer que fez parte de um projeto que atravessou, também, oceanos.

Dos Estados Unidos ao Brasil e à Austrália, “Nojo” viajou pelo mundo e com ele levou os jovens do “Eu Amo SAC”. “No início dá sempre trabalho e tu pensas sempre ‘não sei se vai dar certo’, mas quando me disseram que foi para o estrangeiro, eu fiquei tipo…”, recorda Dioclécio, com um brilho nos olhos, a experiência que, até hoje, ainda lhe tira as palavras da boca.

Raquel percebe porque sabe que, enquanto os adultos tinham algumas expectativas, os jovens estavam longe de imaginar este resultado. “Eu acho que eles nunca sequer sonharam. Nós sim, mas eles não estavam longe de pensar chegar a esse alcance”, conta.

Durante três dias e três noites, entre diretas e erros técnicos inesperados, todos se orgulham do trabalho que fizeram. “Houve uma primeira tentativa que correu mal, em que só depois é que reparáramos que o som estava muito baixo. Acho que só à terceira é que deu tudo certo”, lembra Dioclécio. “Foi muito cansativo. Várias horas seguidas a gravar, gravar, gravar, mas valeram a pena todos esses dias”, diz Elizandro.

“Eles verem o resultado do seu esforço, estarem presentes no festival, perceberem a dimensão… acho que foi realmente um marco que os fez acreditar que os sonhos são possíveis e que vale pena correr atrás deles”, congratula-se Raquel.

“Eu, Nós, Todos”: um lema que a pandemia veio reforçar

Para além de “Nojo”, os jovens do “Eu Amo SAC” produziram e realizaram vários vídeos, documentários e, também, outras duas curtas-metragens: em 2018, estreou “Nas Entrelinhas” – que se pode ver no canal de YouTube do “Eu Amo SAC” – e, mais recentemente, em 2020, “Refém”. Esta última curta ainda não estreou, mas Raquel revela, com entusiamo, ter surpresas guardadas para a estreia.

Nojo, Entrelinhas e Refém são três das curtas-metragens realizadas pelos jovens do Eu Amo SAC. Foto: Inês Leote

Ainda têm muitas histórias para contar e uma delas começou as gravações no primeiro dia de dezembro de 2021. Trata-se do novo projeto “Malmequer”, financiado pelo Programa Bairros Saudáveis. É uma série de oito episódios que, retratando a vida de uma jovem adolescente chamada Margarida, pretende explorar o impacto da saúde mental nos jovens, um tema visto como essencial e urgente, especialmente durante a pandemia.

Uma pandemia que, como conta Raquel, deixou muitos jovens do bairro desamparados. “Percebemos que realmente a falta de informação era uma dificuldade. Nós dizíamos ‘Tens de usar máscara!’ e eles respondiam ‘Mas máscara porquê?’ Foi muito difícil, porque não tinham grande apoio familiar, até porque muitos pais continuaram a trabalhar”, desabafa.

A equipa do “Eu Amo SAC” também não parou de trabalhar e de dar apoio àqueles que mais necessitavam, mesmo à distância. “Íamos sempre tentando manter o contato com eles. Foi fácil nesse sentido porque temos canais abertos onde eles podem falar connosco. Têm os nossos números de telemóvel, temos o grupo do WhatsApp… Então ligávamos para eles e fazíamos algumas atividades e desafios diários nas redes sociais”, diz Raquel.

“Eu, Nós, Todos” é o lema do projeto que a pandemia veio tornar ainda mais pertinente. “Eu Amo SAC porque nós amamos a comunidade e porque nós amamos as pessoas da comunidade”, defende Raquel, explicando: “O Eu é o amor próprio em primeiro lugar. O Nós é o amor uns pelos outros, um amor social, e o Todos é fazermos parte de algo que é maior que nós próprios, que é a nossa comunidade”.

Video de uma campanha levada a cabo pelos jovens do Eu Amo SAC contra os vários preconceitos que sentem que existem na comunidade e em relação a esta.

É desta forma que o projeto “Eu Amo SAC” luta, também, para mudar os estereótipos e preconceitos relativos a estas comunidades. “Acho que tudo o que é desconhecido acaba por meter medo”, diz Raquel e, por isso, considera essencial criar ligações com a comunidade, conhecer as pessoas e perceber quais as suas dificuldades e necessidades.  

“Há muita riqueza na diversidade e é isso que nós temos vivido aqui e é para isso que temos tentado chamar à atenção”, diz. “Não temos que nos limitar por aquilo que os outros pensam. Tentamos mesmo mudar isso e fazemos tudo para que eles tenham orgulho de dizer que são de Santo António dos Cavaleiros.”


* Marta Pereira mora às portas de Lisboa há 22 anos, mas sempre fez a sua vida no centro da capital. É entre miradouros, vistas sobre o Tejo e dando um saltinho à cidade da bossa nova, Rio de Janeiro, onde os pais moraram durante seis anos, que se sente mais feliz. Está a terminar uma licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e estagiou na Mensagem de Lisboa. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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