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Depois de ter encontrado a minha cara-metade, cheguei à conclusão de que é realmente melhor partilhar os dias com alguém; mas, nos quase vinte anos em que vivi sozinha, a única coisa que realmente me custava era pôr só um prato na mesa e não ter companhia para jantar.

A minha mãe, que sempre adorou embonecar-se, sair de casa, visitar ou receber pessoas, vai mais longe: não só não gosta de comer sozinha, como detesta ir a restaurantes sem movimento. Isto porque, do ritual da refeição faz também (ou sobretudo) parte ver o que se passa nas outras mesas: que tipo de pessoas são, como se comportam, o que têm vestido, que pratos escolhem da ementa.

Uma vez, numa esplanada em Itália, até me fez passar uma vergonha ao perguntar em voz alta se eu achava que as jóias da senhora da mesa ao lado eram verdadeiras, pois era perigoso andar com aquela tralha toda em Roma. Como nesse tempo já ouvia mal, nem se apercebera de que a dita senhora falava a mesmíssima língua que nós…

A verdade é que, apesar de avançada nos anos, a minha mãe adora uns almocinhos de domingo em restaurantes da moda e nunca abdicou de exigir, em pleno mês de Agosto, que interrompêssemos todos as férias para a levarmos a jantar fora num sítio giro (e concorrido) no dia dos anos. Quando fez noventa, até leu um discurso escrito expressamente para a ocasião e deu uns passinhos de dança com as netas.

Porém, quando começou a ter problemas de locomoção, começámos a propor-lhe restaurantes mais pequenos e sossegados para lhe facilitarmos a vida; e, chegada a pandemia, o meu irmão mais velho conseguiu inclusivamente uma sala independente num restaurante à beira-rio para prevenir contágios no jantar de aniversário.

Mas, claro, ela detestou as inovações e reclamou que o lugar escolhido não tinha graça nenhuma. A comida era boa, mas, no fundo, faltava-lhe… o espectáculo, as outras pessoas. Porque não estamos nesta vida para andarmos sozinhos.

Muito antes de se multiplicarem os casos de covid-19 desta última vaga, num sábado em que não estava com paciência para cozinhar, fomos a um pequeno restaurante do bairro que tem uma esplanada bastante agradável.

Já não era cedo e não estávamos assim muito confiantes em arranjar mesa mas, para nosso espanto, o estabelecimento estava completamente às moscas e, enquanto almoçámos, não apareceu vivalma.

Contudo, no mesmo exacto lapso de tempo, vieram os condutores de cinco motos e uma bicicleta buscar comida. Imaginei um monte de adolescentes a comerem sozinhos em frente da televisão ou do computador, sem trocarem uma palavra com os pais, quando se sabe que é cada vez mais difícil as famílias reunirem-se fora das refeições.

Imaginei também as pessoas que vivem sozinhas a sentarem-se à mesa de suas casas sem companhia, em vez de darem um pulo ao restaurante ou ao café do bairro para verem outras pessoas. Que triste…

Já não bastava o confinamento? Estaremos condenados a comer sozinhos também nos restaurantes? Ai da minha mãe quase centenária se sabe disto…


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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1 Comentário

  1. Só agora sei como é difícil jantar sozinha. Como venho de uma família grande, refeições com muita gente faziam-me sempre desejar um bocadinho de solidão. Há um mês fiquei viúva depois de 44 anos de companhia e já tenho saudades de mais um prato na mesa.

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