Melissa, Margherita Elena e Gabriel: França, Itália e Inglaterra reunidos em torno do mais nordestinos dos ritmos brasileiros, o forró Foto: Inês Leote

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Mais do que um estilo musical, o forró é um mistério. Um ritmo que dissimula na batida festiva a melancolia e o lamento de uma legião de brasileiros massacrados pela seca e que, durante anos, viram-se obrigados a fugir do “braseiro” do Sertão, do calor que drena o rio e mata de sede o gado e a plantação, forçados a ganhar a vida nas metrópoles do Sudeste do país com a força dos músculos e o suor do rosto.

É por encerrar em letras simples a força da nostalgia que em todos os cantos do mundo o forró catalisa os saudosos não só do Nordeste, pois, longe de casa, paulistas, cariocas, mineiros ou gaúchos também são retirantes. O forró faz assim jus a uma das suas etimologias, como quando, para o olhar fascinado dos ingleses que no início do século passado abriam as ferrovias por esse mesmo desértico Sertão, era um ritmo disponível para todos, um ritmo for all.

Um ritmo tão para todos que, em Lisboa, pode ser ouvido na sanfona, no triângulo, na zabumba, na flauta e nas vozes de uma italiana, duas francesas e um inglês, que compõem o Forró da Flor. Uma iniciativa não só musical, mas sensorial, pois se de algo vale o testemunho de um repórter nordestino, mais do que tocar as músicas, o quarteto tem conseguido condensar no palco a essência do estilo.

O inglês Gabriel Walsh empunha a sanfona. Foto: Inês Leote

Os laços que uniram as italianas Margherita Lavosi e Elena La Conte e a francesa Melissa Huart, e foram urdidos ao longo dos anos por uma amizade que cruzou o mundo.

Margherita e Elena conheceram-se em Berlim. Anos depois, foi a vez de Margherita e Melissa encontrarem-se em Olinda, no Brasil, onde Melissa já havia conhecido Elena.

Estavam assim ligados os três vértices de um triângulo europeu, que, como o peculiar triângulo de aço do forró, pulsa no tom da vibrante música brasileira. “Retirante” do brexit, o inglês Gabriel John Walsh uniu-se ao trio de forrozeiras em Lisboa, após ter-se aprimorado no instrumento símbolo do estilo, a sanfona, durante uma temporada na maior cidade nordestina fora do Nordeste, São Paulo.

A capoeira como porta para os ritmos nordestinos

“Descobri o Brasil através da capoeira, aos 14 anos”, conta a italiana Margherita. Ainda na Sardenha natal, o pouco contacto que teve com a ginga foi o suficiente para que a italiana instituísse em Alghero a temporada de caça a pandeiros e berimbaus. Na companhia de um violão – como os brasileiros chamam a guitarra – passou a tirar as primeiras notas de um ritmo que a conquistou pela diversidade e alegria.

Margherita aprendeu tão bem o português – do Brasil – na Sardenha, que quase não se percebe o sotaque italiano. Foto: Inês Leote.

“Em todos esses lugares foi a mesma coisa: se achasse um brasileiro, grudava-me nele para falar português e ouvir a música brasileira. Eu queria aquilo.”

Marguerita Lavosi

A coisa começou a ficar séria quando após uma incursão nas estantes lá de casa, deparou-se com o disco As rainhas da música brasileira. “Fiquei doida!”, resume a sarda. O próximo passo foi falar português – o do Brasil – que aprendido ainda cedo garantiu-lhe uma pronúncia perfeita e quase sem sotaque, ao ponto de se duvidar se é mesmo uma italiana a cantar as músicas no palco.

Margherita: a música nordestina é infinita. Foto: Inês Leote.

Além de Berlim, Margherita viveu ainda em Bolonha e em Santiago do Chile. “Em todos esses lugares foi a mesma coisa: se achasse um brasileiro, grudava-me nele para falar português e ouvir a música brasileira. Eu queria aquilo”, conta.

Curiosamente, a italiana nunca morou no Brasil. Esteve lá apenas por dois meses, em férias, justamente quando conheceu a francesa Melissa, durante um Carnaval em Olinda.

“Infelizmente, ainda não morei no Brasil, mas, sempre que vou, quero ficar. Falo no Brasil, mas na verdade a minha vivência musical é exclusiva do Nordeste, pois a música nordestina é tão mestiça e variada que chega a ser quase infinita”, derrete-se Margherita está de volta à Sardenha, mas sempre que é possível junta-se às amigas em Portugal. “Lisboa agora é o meu Nordeste”, conclui.

Uma música que se ouve com todo o corpo

Melissa conheceu a música brasileira ainda mais cedo que a amiga italiana. Nascida em Nantes, filha de francês e de uma franco-moçambicana, a percussionista travou o primeiro contacto aos nove anos, quando um grupo de bailarinos do estado de Pernambuco apresentou um outro ritmo tipicamente nordestino, o frevo, num festival na sua cidade. Foi amor à primeira ouvida.

A francesa Melissa e a sua zabumba em ação: um caminho percussivo que começou no maracatu, hoje a serviço do forró. Foto: Inês Leote.

“É o corpo e não a razão quem reage à percussão. É como perguntar a alguém por que está apaixonado.”

Melissa Huart

“A minha mãe trabalhou como intérprete dos brasileiros e eu a acompanhei. Fiquei amiga de uma das bailarinas, a Flaira Ferro, e nunca mais parámos de nos falar”, conta Melissa que, logo no aniversário seguinte, pediu aos pais de presente visitar a nova amizade nordestina. Assim como Margherita, Melissa tratou de aprender o português brasileiro e o fez de um jeito peculiar e condizente com os seus 25 anos.

Melissa: a música é como a paixão, não se explica. Foto: Inês Leote.

“Até tive algumas aulas particulares com um professor em Nantes, mas aprendi mesmo trocando áudios pelo WhatsApp com os meus novos amigos brasileiros”, diverte-se a percussionista.

Apesar de compor um grupo de forró, a imersão de Melissa na música nordestina deu-se através de outras vertentes do rico folclore do Nordeste. “Comecei pelo maracatu, passei pelo afoxé e o coco ”, conta. Melissa não sabe explicar precisamente o que a atraiu na música nordestina. “É o corpo e não a razão quem reage à percussão. É como perguntar a alguém por que está apaixonado.”

Um forró de resistência ao machismo

Foi em Olinda, na casa da amiga pernambucana, a passista de frevo Flaira Ferro, que Melissa conheceu Margherita e a italiana Elena. A residência olindense tornou-se assim o berço do Forró da Flor, não necessariamente pensado para ser “o forró dos gringos”, como destaca a francesa. “A ideia era formar um coletivo musical de mulheres, mas as circunstâncias levaram-nos a adaptarmo-nos”, explica.

A flautista italiana Elena La Conte, um dos vértices do triângulo que uniu europeias apaixonadas pelo ritmo nordestino. Foto: Inês Leote.

“Pensámos numa formação feminina, pois o meio do forró tanto lá no Brasil como aqui, infelizmente, ainda é muito machista.”

Melissa Huart

A princípio, a sanfona empunhada pelo inglês Gabriel estava destinada à brasileira Vitória Faria, mas os entraves comuns a um imigrante, como as partidas e chegadas nos aeroportos, além de atrasos provocados pela burocracia, impediram-na de comparecer aos primeiros concertos lisboetas.

A formação flexível do grupo permite a troca de experiÊn

“Pensámos numa formação feminina, pois o meio do forró tanto lá no Brasil como aqui, infelizmente, ainda é muito machista. Era a oportunidade para que mulheres como a Elena, mestre e professora de flauta, e Vitória, uma das poucas sanfoneiras em Portugal, mostrassem o seu trabalho. Mas não é nunca uma iniciativa que exclua os homens, tanto que acolhemos com todo carinho o Gabriel”, conta Melissa.

A partida de Margherita para a Sardenha, onde faz parte de um importante grupo de teatro local, deve forçar a novas alterações nas próximas apresentações. “Esse formato circular, antes de ser um problema, é uma experiência que pode enriquecer-nos”, afirma Melissa. A vocalista italiana também minimiza a própria ausência. “Em janeiro, estou de volta, até porque de Alghero a Lisboa já há voo direto.”

As apresentações em novembro foram no bar Samambaia e no cine-bar Camones, ambos na Graça. Em dezembro, há convites para novos concertos, inclusive num festival de forró que acontecerá em Lisboa.

Seja na versão forró dos “gringos” ou das “meninas”, o objetivo da Forró da Flor é seguir traduzindo em acordes, batidas e versos a saudade que o imigrante – nordestino, brasileiro ou europeu – sente da sua terra. Com a riqueza de o fazer não apenas através do tradicional forró “pé-de-serra” do Nordeste brasileiros, mas de uma vertente que, pela proximidade geográfica dos seus integrantes com outra cordilheira, poderia muito bem ser chamada de forró “pé-dos-alpes”.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Texto repleto de curiosidade ! Chega a ser inacreditável a circunstância que reuniu tantos talentos !!! Parabéns, Álvaro Filho.

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