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Consta que os Gregos Antigos chamavam à zona onde agora vivemos de Ophiussa, o que significa Terra das Serpentes. Parece que este local era habitado por gentes que adoravam cobras, o que se pode interpretar como uma coisa tão distante e talvez tão descabida que certamente será até motivo de gargalhadas à mesa, naquelas refeições em que puxamos de conhecimento perfeitamente inútil e o despejamos para nos enaltecermos.

Ora vejamos. A relação mais próxima que o comum português tem como uma cobra será provavelmente na televisão quando faz zapping e passa por algum documentário de vida selvagem, narrado por vozes profundas e oníricas. Isso ou quando passa por imagens do Parlamento TV ou lá como raio se chama, onde serpentes de cores diferentes trocam mordidelas mais ou menos venenosas.

Se eu lançasse aqui os resultados de uma sondagem martelada à portuguesa e dissesse que 82,7% dos Lisboetas nunca viram uma cobra ao vivo, num título escrito com letras garrafais e destacadas, acho que o leitor acabaria por concordar. Depois até podia colocar uma nota de rodapé em letras muito, muito pequenas (este estudo foi feito por mim e pelo meu sobrinho de cinco anos. O animal em questão é mesmo a serpente na sua figura animal, a serpente do parlamento é demasiado elusiva para ser vista em público).

Não se sabe ao certo por que razão os senhores da Grécia Antiga nos chamavam de ophis e a beleza deste tema é mesmo essa. Nem nós cá em Portugal temos grandes noções desses tempos nem eles lá sabem explicar muito bem essa denominação. Há quem afirme por terras helénicas que esse nome se deve até aos seus vizinhos egípcios que tinham lá uns deuses cobra que emigraram para Europa eventualmente terminando por estas zonas da Península Ibérica. Eu nunca tinha dado isto na escola e foi um amigo bêbado que me referiu isto.

Tenho um vizinho daqueles que se prezam, um homem de verdade, uma pessoa de bem. Tem o cabelo liso, de cor castanho claro e penteado para lado. Utiliza camisa azul com um blazer por cima e calças bege, ao fim de semana anda igual, apenas a ausência do blazer marca a diferença.

Durante a pandemia sentia-se ultrajado por lhe privarem o acesso à missa, gosta de touradas sem saber muito bem porquê, diz que faz parte da nossa cultura. Por outro lado, não gosta lá muito do meu amigo Kassim que tem o mini-mercado na esquina, tem medo de que este lhe roube a sua portugalidade, a sua tourada e a sua missa, afirma até que têm vindo demasiados Kassims para um sítio tão pequeno.

– Por que raio não vão eles para Espanha que está mesmo aqui ao lado? – brande ele aos céus com um esgar desesperado como quem busca por respostas divinas.  

– Glória a essa luta inglória, realmente é mesmo melhor irem para lá. Espanha, esse país sem missa nem touradas para se estragarem…” – respondo eu, em tom de gozo.

Viramos costas e vai cada um para seu lado, não sei se ele percebe o sarcasmo e a ironia, polvilhadas com o desdém que sinto por ele, espero que sim, ou melhor, não me importa… é sempre uma experiência peculiar ver estes meninos nascidos e honrosamente criados no país das serpentes, falarem cobras e lagartos de pessoas de outros horizontes e com quem coabitam aqui ao pé do Atlântico.

Cada vez que decidem esburacar Lisboa, encontramos sinais de que outras civilizações já cá andavam há bastante tempo, há mais tempo do que aquilo que nos meteram cabeça adentro nas nossas aulas de História, nada parciais.

Sempre me pareceram estranhas a certeza e a autoridade com que a minha professora me debitava coisas com o dedo indicador esticado para a minha cara e sem me dar espaço a refutar uma linha do manual. Ela já tinha a sua idade e eu nunca fui nenhum astro a matemática, mas certamente que ainda não era viva quando o quilo de serpentes ainda se contava em numeração romana e, contudo, lá estava eu a ter de decorar as linhas do livro simplesmente para poder aprovar o ano, sem contexto e sem espaço a interpretação alguma.

Ainda aqui há uns anos numa escavação na Baixa de Lisboa, encontraram uma placa com escrita fenícia, ora esta civilização é ainda mais antiga do que a Ophiussa, que por sua vez é mais antiga do que os badalados lusitanos.

A parte mais gira disto tudo é que aprendi mais sobre a história da nossa Lisboa com o Abdul, o jovem senegalês que partiu o calhau que tapava a inscrição fenícia enquanto manuseava o seu martelo pneumático, do que com aquela professora antipática.

O Abdul faz parte daquele grupo de senhores que o meu vizinho, de bons costumes, não gosta. Ele apenas tenta criar condições para a sua família poder viver condignamente, para ele, o simples facto de passar despercebido já é uma vitória e mesmo assim descobriu algo de valor histórico enquanto ajudava a construir um hotel, esse tipo de edifício que foi conceptualizado para receber visitantes.

Ironicamente, sendo este um estabelecimento de cinco estrelas, dificilmente irá receber os irmãos do Kassim ou a mãe do Abdul quando tiverem poupado dinheiro durante anos suficientes para cá virem. Este hotel é para receber estrangeiros, mas não desses, dos outros, daqueles que vão comprar a empresa do meu vizinho e vão mandá-lo para o desemprego, com toda a cordialidade.

São senhores do norte da Europa com aquele ar sem emoção, movidos a capital de uns senhores com olhos em bico que vivem longe. Eles não se importam muito de enviar tanta gente para a rua, não gostam muito deste povo sulista, acham que só bebemos vinho e chegamos atrasados a todo o lado, acham-nos demasiado pequenos e como não levantamos muito a crista, somos perfeitos para multiplicar o dinheiro deles e fazemos isso com um sorriso.

Já o meu vizinho, levou o melhor fato para a empresa hoje, os senhores europeus vêm visitar a sucursal de Lisboa e ele esteve a treinar a apresentação em frente ao espelho. Pisou cocó de cão quando saiu de casa, era um cocó de raça, francesa por sinal. Teve de voltar lá acima e trocar de sapatos, mas não havia drama, ia folgado de tempo e ainda pôde tomar o pequeno-almoço junto dos seus amigos executivos.

Ficou para o fim para poder fumar um cigarro relaxado e dar as últimas dentadas no seu éclair de café, azar o seu, pois o creme caiu em cheio na sua gravata de seda italiana. Tremeu com o contratempo, mas foi fácil de emendar pois havia ali uma Zara por perto onde ele desenrascou uma parecida de forma prática, na etiqueta dizia “100% Silk Made in Turkey”. Já ia mais apressado, com o coração a galopar e o gorgomilo apertado pelo nó feito às cegas na loja, aproximou-se da entrada do seu edifício, mas quando colocou a mão ao bolso de dentro do casaco onde costuma levar a máscara, reparou que vinha com o fato especial e percebeu que a tinha deixado em casa.

Entrou espavorido pela porta adentro, mas o porteiro indicou que mesmo sendo um lusitano de sorriso bonito, tinha de o cobrir para entrar. Os europeus já estavam na sala com certeza e ele ali fora de sorriso exposto! Olhou à volta e viu uma loja numa esquina com fruta à porta, ímanes de Lisboa para o frigorífico e garrafas de bebidas destiladas na montra. Entrou a correr, pediu uma máscara e quando ia para pagar percebeu que também deixou as moedas no casaco habitual e não podia pagar com multibanco um valor abaixo dos cinco euros. Ficou branco e a suar frio, mas o primo do meu amigo Kassim sorriu e disse que ele podia levá-la mesmo assim.

A apresentação do meu vizinho foi um sucesso, um dos senhores europeus até lhe gabou a gravata, e outro chegou mesmo a dar-lhe umas palmadas nas costas. A apresentação serviu até para catalisar a venda da empresa…

Eu passei pelo edifício num dia destes enquanto dava uma das minhas voltas. Segui Lisboa fora, imaginando ser a personagem de um filme em que nunca entrei, alguém com mais estilo, alguém a quem nada importa. Tentei meter-me nos pés dessa personagem e quiçá andar em vez de rastejar.


*João Santos Pereira vive entre o Mediterrâneo e a sua querida Lisboa. Fingiu estudar em vários sítios, de onde até um Mestrado em Gestão Desportiva surgiu, mas sempre aprendeu mais com as pessoas do que com o ensino estabelecido. Viaja pelo mundo, a pé sempre que pode, o mesmo aplica na cidade das sete colinas. Gosta de beber vinho tinto e de jogar à bola, acompanhado por gentes de falas várias, sempre que possível. Dedica posteriormente o seu tempo a escrever as aventuras que daí advêm.

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1 Comentário

  1. Maravilhoso ensinamento numa escrita fácil e emotiva que nos faz pensar….Muito bom!!

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