Costuma dizer-se que no melhor pano cai a nódoa; e, apesar de na minha infância as Avenidas Novas serem um bairro, por assim dizer, de bom tecido social, havia por lá umas manchas que não queriam sair, fosse nas imediações do Instituto Superior Técnico, fosse mais para o lado da Avenida Defensores de Chaves (onde hoje teriam muitos problemas com a ciclovia).

Talvez por isso, assim que atingi a idade de ir sozinha para casa depois das aulas, recebi um conselho: caminhar sempre pelo passeio contrário ao sentido do trânsito e nunca responder a apelos de homens que encostassem o carro com ar de quem queria perguntar alguma coisa.

Rapidamente percebi que os homens em causa não queriam, de facto, indicações sobre ruas ou direcções a tomar; circulavam a velocidade reduzida à procura de um certo tipo de consolo, que lhes era proporcionado por umas mulheres de botas pelo joelho, meias de rede e saias muito curtas e que, chegando o Verão, usavam decotes generosos em blusas que eram sempre um tamanho abaixo do que deviam.

O bairro estava acostumado à sua presença e vivia pacificamente com aquela circunstância. Um amigo nosso, que morava num rés-do-chão perto da Casa da Moeda e tinha o hábito de estudar de noite com as janelas abertas, até sabia os preços praticados e os nomes das praticantes, tendo inclusivamente tentado dissuadir da profissão mais velha do mundo uma miúda nova que, contava ele, comia uma bolacha entre serviços, para esquecer aqueles amargos de boca.

Mas que um jovem se afeiçoasse a uma prostituta não era caso inédito; inédito foi quando uma amiga da minha mãe apareceu lá em casa a meter uma cunha para que uma das prostitutas do bairro fosse vista o mais depressa possível no Instituto Português de Oncologia.

(Abro aqui um parêntese para explicar que a minha mãe, depois do divórcio, se foi completamente abaixo; e que alguém das suas relações lhe sugeriu, para a «distrair», que se inscrevesse no voluntariado da Liga Portuguesa contra o Cancro, instituição na qual ela acabou por ficar anos a fio e que, logo nas primeiras semanas, diante de situações realmente graves – como a amputação das duas pernas numa adolescente com cancro de pulmão –, a fez relativizar o seu «pequeno» drama.)

Pois bem: a amiga da minha mãe conhecia a prostituta porque esta trabalhava habitualmente à porta do seu prédio e se cumprimentavam com toda a naturalidade havia um bom par de anos. Acontecera, porém, que na noite anterior, encontrando a rapariga a chorar e interessando-se pela causa do desgosto, apurara que a pobre, tendo detectado um caroço no peito, recebera nessa mesma tarde o resultado do exame: era maligno.

A minha mãe, que sempre foi boa a mexer os cordelinhos, lá conseguiu que um médico do IPO a visse logo na manhã seguinte; e tanto ela como a amiga não a largaram um segundo antes da consulta, oferecendo-lhe mimo e colo para o que aí viesse. Porém, como a rapariga trazia ainda a indumentária do trabalho nocturno, havia quem passasse por aquele trio e se perguntasse o que fariam aquelas duas senhoras na companhia de uma… mulher daquelas.

Nenhuma, contudo, se ralou com isso; e, quando souberam que naquele caso não seria preciso tirar a mama (nesse tempo muitos corpos ficavam verdadeiramente retalhados com essa cirurgia), bateram palmas de felicidade e expressaram um grande alívio: é que, assim, pelo menos a rapariga não perderia o seu meio de sustento… No mínimo, paradoxal.

A minha mãe ainda se lembra de ir saber dela no pós-operatório e de, nos dias seguintes e durante as sessões de tratamento, encontrar regularmente a sua amiga de visita à doente. Talvez sentisse falta de a ver à sua porta…

Hoje, a Internet tornou a prostituição mais discreta e cómoda para fornecedores e clientes – e, com isso, o bairro está, nesse aspecto, mais limpo. Contudo, nas nossas memórias, as outras senhoras continuam por lá, decotadas e de pernas à mostra, enfeitando as esquinas.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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3 Comentários

  1. Que grande privilégio, ter lido esta opinião! Gosto de pensar que há Mulheres de imenso, que reavivam em nós o sentido mais profundo de sermos solidárias e humanas : Obrigada !

  2. Bela crónica de Maria do Rosario Pedreira, de que sou fã incondicional desde o 1o romance. Só tenho pena que se dedique mais à edição do que à escrita própria.

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