É durante a noite que os funcionários da Higiene Urbana da Câmara Municipal de Lisboa recolhem o lixo comum, que segue para a central de tratamento de resíduos sólidos da Valorsul. Estima-se que 240 toneladas do lixo comum indiferenciado produzido diariamente na capital sejam biodegradáveis. Apesar disso, são incineradas.

Ora, quando as matérias orgânicas são queimadas, emitem quantidades significativas de dióxido de carbono, um dos gases produzidos pela atividade humana, responsáveis pelo efeito estufa. Por cada tonelada de lixo incinerado, dióxido de carbono é libertado para a atmosfera, o que contribui para o aquecimento global.

Para reduzir o desperdício de resíduos, têm sido criadas várias iniciativas com o propósito de sensibilizar a comunidade lisboeta para a problemática ambiental. O Mouraria Composta é um desses projetos.

Trailer do documentário do BagaBaga Studios e da Renovar a Mouraria, sobre o projeto Mouraria Composta, realizado em 2020.

Inês Andrade, presidente da associação Renovar a Mouraria, conhece bem os caminhos deste bairro no centro histórico da cidade. Original de Cantanhede, mudou-se para a Mouraria em 1999, que mais tarde abandonou devido ao aumento das rendas. Mas foi a viver no bairro que se apercebeu das dificuldades e particularidades da zona, onde sentiu que seria necessária uma intervenção para transformar o território que, na altura, “estava demasiado degradado”. E assim o fez, em 2008, quando fundou a associação.

Da Renovar a Mouraria nasceu um projeto de inclusão social que procura fortalecer a integração e participação dos moradores da Mouraria na comunidade através da educação, das artes e de projetos ligados à sensibilização e preservação ambiental.

Compostagem, agricultura e cultivo de laços de vizinhança

Foi no Beco do Rosendo que a associação iniciou o combate ao desperdício dos resíduos urbanos biodegradáveis e à utilização do plástico, estabelecendo neste local o primeiro vermicompostor comunitário de madeira. Um segundo foi colocado no restaurante da Cozinha Popular da Mouraria e, posteriormente, um terceiro no Largo da Rosa.

Foi assim criado um projeto piloto, o Mouraria Composta, financiado, em 2018, pelo programa BipZip (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária de Lisboa) da Câmara de Lisboa, com a duração de três anos.

Já existem compostores comunitários na cidade, nas freguesias de Ajuda, Areeiro, Campolide e Olivais, iniciativa do programa Lisboa a Compostar, um projeto da CML, mas esta foi “a primeira rede de compostagem comunitária no centro histórico de Lisboa” e tinha o objetivo de sensibilizar a população para as questões ambientais e promover um ecossistema urbano mais sustentável.

A rede de compostagem comunitária na Mouraria é dinamizada por guardiões locais – a chamada brigada dos baldinhos. Foto: Orlando Almeida

A rede de compostores é dinamizada por uma brigada de guardiões locais – a brigada dos baldinhos – que entrega e recolhe baldes de resíduos orgânicos nas habitações, cafés e restaurantes.

A adesão à rede é voluntária e os moradores e comerciantes da zona podem contribuir com os seus resíduos. “A ideia era ter uma rede de voluntários que deposita os seus resíduos nos compostores e, após a decomposição, recolhe-os para utilizar nos seus vasos, quintas ou hortas”.

O projeto, tal como explica Inês Andrade, pretende estabelecer um elo de ligação entre as pessoas que participam na rede. Nasce, não só de uma necessidade de sustentabilidade, mas também para criar uma dinâmica comunitária, aproximando os moradores uns dos outros. “Sendo a Mouraria um bairro tão multicultural, a ideia era encontrar temas que fossem transversais e do interesse de todos, independentemente da origem”.

Para o conseguir, o Mouraria Composta trabalha também com uma escola de primeiro ciclo, a EB1 Maria Barroso. Todos os funcionários, professores e alunos receberam formação sobre compostagem e participam ativamente no projeto. As crianças tiveram oportunidade de acompanhar o processo da compostagem e foram sensibilizadas quanto às questões ambientais, “como o aproveitamento dos resíduos e utilização dos mesmos na horta”.

“Nunca se tinha feito algo desta natureza num bairro como a Mouraria”

A compostagem é uma das formas de reutilização dos resíduos orgânicos. Trata-se de um processo sustentável e de economia circular, em que os resíduos se degradam através das altas temperaturas, sendo transformados em adubo orgânico.

Foto: OrlandoAlmeida

São duas as cores para compreender o processo natural da compostagem. Os verdes são os materiais ricos em nitrogénio, como a alface, enquanto que os castanhos representam os mais ricos em carbono, como as cascas da cebola ou plantas secas. Quanto mais equilibrada for a mistura entre verdes e castanhos, mais rico em nutrientes será o composto.

O processo utilizado pela Mouraria Composta é o da vermicompostagem. Neste método, são as minhocas que fazem a decomposição dos resíduos orgânicos, acelerando o processo e tornando o composto mais fértil, criando o húmus de minhoca, “o ouro da natureza”. A vermicompostaem imita o ciclo da natureza, de modo controlado, e acresce a vantagem de não poluir e de fechar o ciclo de natureza.

Implementar este projeto num bairro como a Mouraria não foi tarefa fácil, admite Inês. “É um projeto piloto. Nunca tinham feito algo desta natureza no meio urbano e com as especificidades que o Bairro da Mouraria tem”.

Por esta razão, os membros da associação ainda tentam perceber qual é o melhor tipo de compostor. Juntaram-se ao atelier de arquitetura Parto, para desenhar um compostor com um desempenho duradouro e eficiente, adaptado à paisagem do bairro histórico.

O primeiro compostor, colocado em junho de 2018, mostrou-se desadequado a este meio urbano uma vez que, para além de um compostor funcional que cumpra os requisitos do processo da compostagem, “é preciso corresponder também às exigências estéticas e arquitetónicas do próprio bairro”.

Para além deste entrave, empreender um conceito novo “numa comunidade resistente à mudança”, como a da Mouraria, foi também um desafio. Mas, pouco a pouco, e de porta em porta, conseguiu-se que os residentes, portugueses e migrantes, aderissem ao projeto.

“Às tantas, já não conseguíamos dar resposta porque os compostores estavam sempre cheios. A associação ainda não conseguiu repensar o compostor certo para o bairro e por isso não quisemos arriscar e colocar outro”, explica Inês.

A loja-oficina, que suportava financeiramente o projeto, fechou por consequência do vírus. Por esta razão, o espaço foi cedido para implementar outro projeto piloto, da Rizoma Cooperativa Integral, uma mercearia sustentável com produtos locais, produzidos de forma sustentável.

Dos três compostores implementados no bairro, dois foram vandalizados. Um deles, no Beco do Rosendo, é agora substituído por um outro, instalado pela Rizoma, mas que ainda não está operacional. O do Largo da Rosa funciona e para já é o que importa, mas os desafios persistem. Quando o Mouraria Composta semeava os resultados de um longo processo, veio a pandemia para atrapalhar toda a colheita que o projeto cultivou.

Mas aqui não se baixam os braços e, em setembro, foi implementado o projeto Changing (H)eart, em colaboração com a Escola Gil Vicente, na Graça, onde será instalada uma agrofloresta. O objetivo é trabalhar as questões da compostagem com os alunos e a comunidade escolar, articulando com a rede de compostagem que está a funcionar no bairro da Mouraria.


* Nascida em Braga, Júlia Mariana Tavares fez de Lisboa casa, com vontade de contar histórias desta cidade cosmopolita e multicultural. Finalista de Ciências da Comunicação da Faculade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa, está a estagiar na Mensagem de Lisboa. Texto editado por Catarina Pires.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *