Lina Gomes, enfermeira do centro clínico da Assembleia da República. Foto: Rita Ansone

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A história de Tobias é a de todos os sedutores que chegam a frequentar os corredores da alta política: basta-lhe um olhar para conquistar corações e obter favores.

Caso precise de uma coligação, facilmente conseguirá apoios, à esquerda e à direita. E, no entanto, não há nele ponta de maquiavelismo, ou sequer de cálculo já que Tobias, com o seu pelo tigrado é um dos vários gatos residentes no jardim da Assembleia da República (AR).

Quem diz gatos, diz pavões, gaivotas e, naturalmente, pombos. Todos são protegidos por Lina Gomes, enfermeira do centro clínico da AR, mas acarinhados por muitos outros, desde deputados de vários grupos parlamentares a funcionários da Redacção, da Biblioteca e de vários outros serviços de apoio aos trabalhos parlamentares.

Foto: Rita Ansone

Há 21 anos, quando Lina começou a trabalhar na AR, os animais que frequentavam os jardins do Palácio de São Bento eram votados ao abandono porque, conta, “não havia autorização para que nos ocupássemos deles, até porque nessa altura não havia a mesma sensibilidade aos animais que felizmente já existe hoje. Foi precisa muita luta para que a situação se invertesse.”

Ainda assim, os gatos, com os modos subtis que os caracterizam, conseguiram vencer resistências. Maria morreu no ano passado, depois de uma invejável longevidade de 21 anos, deixando dignos continuadores em Guidinha, Tobias, Rudi, Rapaz e Tótó.

“Antes tínhamos também o Joe, mas o Tobias, que é o macho dominante, afugentou-o”, conta Lina Gomes que conhece bem as diferenças de personalidade desta família felpuda. “O Tótó, por exemplo, tem este nome porque é muito tímido e medroso. Está sempre escondido.” Um problema que não afeta o Tobias que, por sua vez, gosta de se passear pelos corredores do Parlamento, tendo chegado a ficar fechado na Sala de Senado.

Graças à colaboração da Casa dos Animais da Câmara Municipal de Lisboa, Tobias e os seus amigos estão todos devidamente esterilizados e são regularmente acompanhados pelos veterinários desta instituição.

Embora não desdenhe uma caminhada nos Passos Perdidos (sob os olhares dos grandes oradores da Nação representados nos painéis de Columbano Bordalo Pinheiro), o seu lugar de eleição, sobretudo em dias mais frios, são os grandes aquecedores junto ao posto dos CTT. Nos outros, fica-se pela sesta num vaso, junto à entrada para o jardim.

Graças à colaboração da Casa dos Animais da Câmara Municipal de Lisboa, Tobias e os seus amigos estão todos devidamente esterilizados e são regularmente acompanhados pelos veterinários desta instituição. Tudo isto é possível graças a um protocolo com a Câmara, permitida pela nova dinâmica que se criou na AR após 2015.

“Com o apoio do Gabinete do Secretário-Geral, a nossa luta passou a ser mais simples.” Assim, foi montado no jardim um abrigo para gatos, no âmbito do Orçamento participativo de Lisboa, à imagem do que tem acontecido em vários parques e praças da cidade.

Lina Gomes trabalha há 21 anos no Palácio de São Bento. Foto: Rita Ansone

Mas nem só os gatos beneficiam de cuidados “parlamentares”. Há o “estranho” caso das gaivotas Zora e Dora, que “trabalham” por turnos já que uma aparece à hora de almoço e outra ao final da tarde, e as “estrelas da companhia”, os pavões, em que se destaca, pela sumptuosidade da cauda, Chico, possivelmente um descendente dos dois casais de pavões oferecidos a Durão Barroso, quando foi primeiro-ministro.

Todos – pavões e gaivotas – não hesitam em ir pedir comida ao primeiro andar, batendo com os bicos nas janelas dos gabinetes. E, como não podia deixar de ser, na hora da distribuição de comida, os pombos também aparecem e não se fazem rogados.

Foto: Rita Ansone

O amor aos animais está na natureza desta enfermeira que, em Queluz, onde reside, se ocupa voluntariamente de três colónias de gatos. “Sempre tivemos muitos animais em casa e mesmo o meu pai, que era mais de cães, acabou por se render a um gato que tivemos chamado Édipo. Acho que são coisas que estão no ADN da família.”


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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4 Comentários

  1. Não sabia disto. Acho muito bem que se respeitem os animais dos jardins da Assembleia da República e que eles sejam devidamente tratados,cuidados e os gatos esterilizados. Parabéns à enfermeira Lina e à Casa dos Animais de Lisboa. Finalmente os animais vão tendo voz neste país, já não era sem tempo…..

  2. Uma maravilha. Se todos assim procedessem haveria muito menos gatos sofrendo nas ruas, nomeadamente de Lisboa. Eu sou voluntária da minha junta de freguesia para o bem estar animal e cuido de uma colonia de 17 gatos, devidamente registada na CML. Todos esterilizados/castrados, os mais velhos a expensas das cuidadoras, outros pela casa dos animais e os mais recentes através da junta de freguesia que estabeleceu um protocolo para o efeitos. da mesma forma quando estão doentes são capturados e tratados. Têm abrigos, neste caso fornecidos pelas cuidadoras e boa comida rejeitando a de menor qualidade. Sendo certo que o custo da alimentação é encargo das voluntárias. mas é um prazer ver estes meninos na hora do lanche. Na sua maioria são gatos meigos, adoram festas e gostam de ser escovados. Obrigada, enfermeira Lina-

  3. É com mto orgulho que leio esta reportagem, digna de alguém com um enorme coração e com uma preocupação constante. Em tempos, qdo colocada lá, ajudei a Lina a cuidar desta colonia, conseguindo aceder a locais onde jamais imaginaríamos que os gatos se escondessem. Aos fins semana alimentava a colônia, e os gatos ja vinham à minha voz. Numa situação estranha, cheguei a resgatar uma gatinha bebê tricolor que veio no motor de um carro, entrando no parque subterraneo desta instituição. Nao foi fácil o resgate prq a bebe “enfiou—se” nas tubagens e foi com grande sacrificio que a consegui puxar. Depressa foi adotada.

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