Rogério e “Maria”, sem-abrigo, viveram mais de um ano no pavilhão desportivo do Casal Vistoso, que lhes fechou as portas há um mês.

O espaço, que se tornou um Centro de Emergência para sem-abrigo no início da pandemia, foi devolvido aos atletas e fregueses do Areeiro e os velhos moradores encaminhados para casas ou unidades de tratamento.

Mas é preciso mais do que um teto para mudar uma vida.

– Estou? Rogério?

– Boa tarde, senhora jornalista… – uma voz rouca, forte, mas agoniada, do outro lado da linha. Havia más notícias.

– Já cheguei à Rua Morais Soares.

– Olhe, muitas desculpas, mas eu tive de aceitar um trabalho. São uns biscates que eu faço. E não vou conseguir estar aí tão cedo.

– Remarcamos? Para quando?

– Amanhã. E não falho. Tenho outro trabalho, mas a essa hora posso estar aí.

– Combinado. Cá nos encontramos, então.

– Sabe… a minha vida é assim, tenho de andar atrás de tudo o que apanhar. Desculpe.

Rogério Conceição tem 46 anos. Na altura desta chamada, não lhe conhecíamos ainda o rosto moreno e engelhado, a sobrancelha grossa, o andar manco e cansado. A entrevista estava marcada, mas ele falhou o lembrete na agenda.

Uma agenda que era só nossa, no fim de contas, porque os seus dias contam-se um de cada vez, uma hora atrás da outra. Se o telemóvel chama, ele tem de atender: segue até ao outro lado da margem do rio Tejo e larga dois mil panfletos com publicidade em caixas de correio e automóveis, correndo ruas e ruelas durante três ou quatro horas.

Tudo por 20 euros.

Rogério ganhou um teto próprio no dia 23 de julho, num apartamento partilhado na Rua Morais Soares. O mais parecido com uma casa, depois de mais de um ano alojado no Centro de Emergência do Casal Vistoso, na freguesia do Areeiro, e vários anos a dormir debaixo das estrelas – desde os oito que sabe o que é ser sem-abrigo.

Mas esta ainda não é uma história com final feliz.

No início deste ano, a Mensagem esteve em reportagem no Casal Vistoso. Foto: Orlando Almeida

A funcionar desde março de 2020 como resposta urgente aos sem-abrigo que viviam numa cidade que a pandemia esvaziou, o pavilhão desportivo do Casal Vistoso, no Areeiro, deixou de ser Centro de Emergência há um mês, para ser devolvido aos fregueses como aquilo para que foi originalmente edificado.

E os sem-abrigo? Com a extinção do centro, os técnicos sociais apressaram a procura por soluções para as cerca de 100 pessoas que ali residiam.

Gradualmente, até as portas se fecharem definitivamente, foram sendo encaminhadas para respostas habitacionais da Santa Casa, da Housing First, para Comunidades Terapêuticas (espaços desenhados para ajudar quem vive com dependências), para a Unidade Integrativa (com morada na Quinta do Lavrado desde junho deste ano e pensada para casais, sem-abrigo com animais ou pessoas LGBTI+), ou mesmo para outros Centros de Emergência que continuam ativos. São eles a Casa do Lago (apenas para mulheres), a Pousada da Juventude do Parque das Nações e a Casa dos Direitos Sociais da CML.

Apenas uma pessoa nesta centena que habitava o Casal Vistoso escolheu rejeitar qualquer uma das soluções encontradas e voltou à rua. Uma mulher.

Depois do “adeus”, canta Paulo de Carvalho, fica-se só. E estas dezenas de pessoas não conheceram a exceção à letra da canção. Apesar de regressarem a um lugar onde o teto não é feito de nuvens, as suas vidas navegam à deriva, à procura de um lugar na comunidade relativamente à qual ainda se sentem à margem.

Rogério, a criança sem-abrigo

A Rua Morais Soares está no bulício habitual. A toda a velocidade, ouve-se o choque entre as chávenas e os pires nos cafés, mas também os transeuntes que atendem o telemóvel para avisar quem está do outro lado da linha a que horas podem esperá-los em casa. Rogério Conceição mal sabe o que é isso de ter uma casa, quanto mais um aviso de chegada.

Mas é aqui, no meio desta algazarra, que mora desde o dia 23 de julho.

Rogério Conceição, 46 anos, sem-abrigo desde os oito. Foto: Catarina Reis

O barulho que se faz fora de portas não o inquieta. O contrário é que sim. Habituou-se a viver com o ruído da cidade, durante as décadas que passou a dormir ao relento. Por isso, quando fecha a porta de casa, ainda estranha o silêncio. Lá, partilha quarto com a namorada Sara, porque os restantes dois que fazem o apartamento são morada de outras duas pessoas também ao abrigo de respostas da Santa Casa.

Este quarto é o culminar de uma vida que já nasceu torta, diz. “Fui criado ao pontapé.” A mãe só a conheceu aos 18 anos. Nasceu numa casa onde viviam o pai e a madrasta, com a qual sempre teve um relacionamento difícil. A casa nunca foi, para si, um lugar feliz.

Samora Correia é a sua terra. Tão sua que, aos oito anos, começou a descobrir-lhe os becos e os edifícios ocos e caducos, nos quais dormia “de vez em quando”. “Lá me chateava [com o pai ou a madrasta], lá ia dormir fora.” Em sítios que se tornaram tão casa quanto aquela na qual a família tinha morada.

Ainda sem saber que estes tempos seriam a preparação para o que viria a tornar-se mais tarde a sua vida como sem-abrigo, o pequeno Rogério até dos conhecimentos de físico-química se fez valer. Casava álcool com pedra e lá aquecia comida. Sabe lá ele dizer em que momento exato descobriu que a combustão é a reação química entre dois ou mais reagentes. “Sempre fiz por estudar.” Por onde passou, quis aprender, mesmo que com atraso etário face aos colegas. Tem o 9.º ano de escolaridade.

Todos os dias eram de sobrevivência. “Costumo dizer que sou um sobrevivente e sou, desde sempre que sou.” Aos nove anos, partiu o vidro de um carro para roubar uma manta. “Tinha frio, nem pensei.” Foi a deixa para um delegado social o abordar na rua com um aviso e a proposta que esperava mudar a vida deste menino.

“O que ele me disse, assustou-me. ‘Queres acabar numa valeta morto ou na prisão?’ Disse que, se eu quisesse, ele me levava para um centro, onde me davam conforto e estudos.” O pai aceitou, Rogério quis e viajou para Lisboa, cidade “onde antes só tinha vindo para nascer”.

Próxima paragem: COAS – Centro de Observação e Ação Social de Lisboa. Uma das instituições oficiais não judiciárias com competência para responder a menores com idade inferior a 12 anos, naquele que foi “um ensaio inédito em Portugal de proteção de menores por via administrativa, evitando o recurso aos tribunais”, lê-se neste documento. É, atualmente, o Centro Educativo da Bela Vista.

Rogério esteve neste centro durante um ano. Como o nome da instituição indicava, “estávamos só lá para ser observados e, depois, levados para outros sítios”. O outro sítio deste homem, na altura apenas um menino a pré-adolescer, foi um colégio interno em Caxias. O Centro Educativo Padre António de Oliveira, um edifício que mais parece um estabelecimento prisional.

Crescer ali não foi como uma prisão, mas Rogério lembra penas e reprimendas. “Eu não era fácil, gostava muito de andar às cabeçadas.” O andar coxo começou lá. “Um dia, a cabeçada foi tão grande, que fiquei com três dentes na testa. Sofri um traumatismo craniano, andei com dores, até ter paralisado o lado esquerdo. Nunca recuperei totalmente.” Mais tarde, um atropelamento nas ruas de Lisboa piorou o que já não tinha conserto.

“A miséria nunca sai de nós”

Rogério Conceição, 46 anos

Rogério voltou a bater à porta da casa onde nasceu. Atingida a maioridade, regressou para Samora Correia e pediu teto ao pai e à madrasta. “Ela estava diferente. Já tinha tido filhos e estava melhor. Ajudou-me.” Mas era tudo o que lhe poderiam dar, um teto. O resto, ele teria de procurar sozinho.

A busca desviou caminho e Rogério cruzou o seu com a heroína, “que já tinha experimentado nos tempos do colégio”. Daí até à dependência foi um pequeno salto. E, por isso, saiu de casa e voltou aos lugares devolutos de Samora Correia. “Tinha irmãos, não queria que eles me vissem a consumir.”

A vergonha chutou-o para a rua. A mesma vergonha que traz no rosto à medida que vai contando a sua história. Os olhos prendem-se ao chão ou à mesa, pálpebras descaídas, morde o canto do lábio inferior e vai compondo o telemóvel – já composto – em cima da mesa. “É vergonha, Rogério?”. “Vergonha e raiva”, responde.

A fé, essa, ia-se recompondo com a ação de outros. Como a de um casal que, nessa altura, o salvou da dependência. Ele ao balcão de uma das “tasquinhas de Benavente” durante “as festas habituais de verão”, ela uma cabeleira. Rogério tinha 24 anos, andava a rondar as tascas para vender garrafas de álcool e ganhar uns trocos.

“Ele sentou-se comigo, perguntou sobre a minha vida, deu-me comida, o dinheiro das garrafas, mas não ficou com elas. A partir daquele dia, ia sempre lá comer.” Mas quiseram dar-lhe mais do que um prato na mesa: uniram esforços e colocaram-no numa comunidade terapêutica, para curar o vício.

Rogério Conceição vive atualmente numa casa partilhada. Foto: Catarina Reis

“A miséria nunca sai de nós.” Na comunidade terapêutica, acostumou-se à ideia de que as crises periódicas não são mito e todos a sentem: “Há uma aos três meses, outra aos cinco. Acho que é assim. Há sempre alturas em que queremos desistir e ir embora dali.”

Saiu aos 26 anos, dois anos após a entrada, “já recuperado” da dependência e com vontade de trabalhar. O temperamento intempestivo do qual leva más recordações dos tempos no colégio não mudou e, por isso, perdeu o trabalho na construção que tinha conseguido arranjar.

A viver novamente em casa do pai e da madrasta, decide voltar a mudar-se para Lisboa, acreditando que era o melhor caminho “para fugir da droga”. Corria o ano de 1999, o milénio preparava-se para virar e Rogério também queria uma mudança. Mas veio sem dinheiro nem casa. Arranjar emprego parecia tarefa impossível para um coxo, com histórico de dependência e sem-abrigo.

Improvisou um lar em Alcântara, debaixo da ponte 25 de Abril. “Foi difícil, porque em Samora Correia conhecia os sítios, aqui não conhecia nada, não sabia para onde ir.” O ganha-pão encontrou-o a esticar o braço e a sugerir estacionamento na doca do Bom Sucesso, junto ao Vela Latina. Isso e num acordo que fez com um café, que todos os dias lhe dava pequeno-almoço. As restantes refeições adquiria no supermercado com o dinheiro que a arrumação de carros lhe permitisse naquele dia. “Nunca fui às carrinhas de comida.”

Com a vida ao relento, foi inevitável perder-se nos velhos vícios. Mas estava consciente da luta que tinha pela frente e inscreveu-se num programa de terapia de substituição opiácea com metadona.

Entretanto, um albergue, em Xabregas, quatro namoradas e, depois, as ruas vazias e tudo do zero. A pandemia de covid-19, que já tinha alarmava o mundo há dois meses, chegou a Portugal em março de 2020. O país confinou e até os sem-abrigo tiveram de se abrigar.

O perigo da pandemia levou a que lugares que conhecíamos como zonas de desporto ou de estadia se tornassem a casa de centenas de Pessoas em Situação Sem-Abrigo (PSSA), como são designados todos aqueles que vivem sem uma casa. O pavilhão desportivo do Casal Vistoso, no Areeiro, foi um deles. O maior. E foi lá que Rogério foi parar.

O Casal Vistoso foi devolvido à freguesia há um mês. Foto: Orlando Almeida

“Não há comparação” na hora de medir as diferenças entre a vida que leva debaixo deste teto onde agora vive e o do pavilhão. “Muita gente, muita confusão. Agora, posso comer o que quero e à hora que quero, com as minhas regras.”

Ganha atualmente 180 euros do Rendimento Social de Inserção (RSI), sendo que 50 destes são destinados à casa – cuja renda é paga, na maioria, pela Santa Casa. “Sobram-me 130 euros para comer, para viver”, lamenta. “Para o que é que dá?”, perguntamos. “Para comer – e pouco. Mas não para viver.”

Os sonhos continuam a parecer alquimia para Rogério. Um teto não é tudo e ele já só consegue ver-se na constante iminência de voltar a ruas por onde já passou, em Lisboa ou em Samora Correia. Todos os seus tetos foram, até hoje, apenas temporários. Mesmo o da casa onde nasceu.

Através da iniciativa Porta Aberta, prepara-se agora para o segundo teste que dá acesso à profissão de coveiro municipal. A entrevista “correu bem”, mas “agora é que vão ser elas”: “Dizem que quase ninguém aguenta este teste que vou fazer. Vou enterrar um corpo. Não sei se é do cheiro, se as pessoas são sensíveis ao ver. Não sei. Eu sou rijo.”

Mas nem por isso confia no amanhã. Tudo na sua vida foi um “quase” ou uma espera e Rogério habituou-se a isso, a nunca chegar lá. Mesmo que o tempo lhe tenha trazido finalmente um teto.

‘Maria’: a morte desabrigou-lhe a vida

Uma, duas, três. “A jornalista já está cá para falar consigo.” Um médico, antes a trabalhar no pavilhão do Casal Vistoso, bate à porta e avisa ‘Maria’ da nossa chegada. “Já vou, já vou. Estou a arranjar-me.” Fá-lo no quarto número 17 da Unidade Integrativa, na Quinta do Lavrado, para onde se mudou no dia 12 de agosto deste ano, com o seu companheiro Bruno e os dois cães, Sultão e Pepa. Todos dentro destas quatro paredes.

Vamos chamar-lhe ‘Maria’, porque esta mulher de 46 anos escolheu reservar a sua identidade. Por isso também, podemos apenas descrever os seus cabelos curtos e loiros, que neste dia segurava com óculos de sol.

A vida de ‘Maria’ em nada se assemelha à de Rogério, embora ambas tivessem desaguado em algo parecido. Nascida na Ajuda, cresceu numa “família da classe média”, com um pai funcionário público, com possibilidades de lhe pagar os estudos até onde ela escolhesse ir.

As irmãs seguiram o caminho até à faculdade, mas ela escolheu ficar pelo 12.º ano de escolaridade e enveredar imediatamente pelo mercado profissional: quis ser cabeleireira, formou-se e foi este o seu primeiro emprego, num salão. Viveu serena e “feliz” e a sua história conta-se com leveza e rapidamente até ao dia que significaria o começo da sua vida como sem-abrigo.

Há cerca de dez anos, casada há 14 e com uma filha adolescente, ‘Maria’ vê o marido caído no chão de um terreno agrícola, debaixo de um trator. O óbito foi declarado no local e este foi o ponto de viragem. “O amor da minha vida morreu e a minha vida morreu com ele.”

Depois de anos a trabalhar em Angola, na construção, o marido regressa e, a determinada altura, o casal decide mudar-se para o Alentejo, onde sonhavam construir a sua casa. ‘Maria’ trocou a vida profissional pela dedicação exclusiva à educação da filha, mas depois daquela morte trágica, a filha quis regressar à base. “Ela ficou muito deprimida, porque viu o pai morrer à sua frente. Era uma ótima aluna e começou a perder-se. Então, as tias [irmãs de ‘Maria’] chamaram-na para Lisboa, para ela vir estudar para uma boa escola. Ela foi, mas não quis saber dos estudos.”

“Lembro-me de não saber que dia era. Nem de acordar nem de dormir. Bebia três a quatro litros de vinho branco de pacote por dia, fechada em casa.”

‘Maria’, 46 anos

‘Maria’ ficou a viver com a pacatez de uma zona junto ao pico montanhoso de Bicas, onde havia “meia dúzia de casas”. Acabava de perder o marido. E a criança pela qual tinha decidido largar tudo estava a vários quilómetros de distância. Os dias começavam a arrastar-se sem sentido e ‘Maria’ decidiu entregar-se ao esquecimento que o álcool lhe prometia. Preferiu viver entorpecida, até que aquele escape se tornou um hábito e, por fim, uma dependência.

“Lembro-me de não saber que dia era. Nem de acordar nem de dormir. Bebia três a quatro litros de vinho branco de pacote por dia, fechada em casa.” Na aldeia, para o bom e para o mau, tudo se sabe e dali as notícias do estado de ‘Maria’ chegaram a casa das irmãs, em Lisboa. “A minha filha soube e foi aí que nos começámos a afastar. Ela dizia que eu não prestava como mãe, que era um mau exemplo.”

Em consenso com a família, decidiu que o internamento num centro de recuperação era o próximo passo. Esteve um ano no Algarve.

Dali, saiu recuperada do velho vício e partiu para um centro onde trabalhou como auxiliar de pessoas idosas. “Sempre gostei de cuidar. Gostava muito de me formar como auxiliar, enfermeira, essas coisas. Gosto mesmo é de cuidar dos outros.” Enquanto cuidava, e sem procurar, aconteceu a ‘Maria’ o que considerava impensável: voltou a apaixonar-se.

Conheceu Bruno nesta unidade e não se largaram desde então. Mudaram-se para o Alentejo para começar uma vida a dois, mesmo com os receios que ganhavam espaço na cabeça da mulher: Bruno era esquizofrénico, embora estivesse devidamente acompanhado e medicado; o que pensaria a filha do novo namorado? Sobre o primeiro receio, ‘Maria’ diz nunca ter tido grandes razões de preocupação. Mas o segundo veio mesmo a confirmar-se.

“Elas são ricas, eu era sem-abrigo. Fiquei a dormir nas escadas de prédios. Tive tanto frio.”

‘Maria’, 46 anos

“Um dia, a minha filha ameaçou-o de morte e o Bruno, com medo, saiu de casa e mudou-se para Lisboa. Ficou à deriva”, lembra ‘Maria’. Viveu nas ruas, até encontrar um teto no pavilhão do Casal Vistoso, aonde a namorada viria parar meses depois.

“Ainda me lembro do dia em que ele foi embora. Senti que tinha ficado sozinha outra vez. Tinha medo da bebida.” Por rejeitar repetir o passado, fez também as malas e foi até casa das irmãs, que não lhe deram teto.

“Não fizeram questão. Elas são ricas, eu era sem-abrigo. Fiquei a dormir nas escadas dos prédios. Tive tanto frio”, recorda, num choro que o lenço que traz na mão procura secar.

Outras vezes, dormitava no carro – que mais tarde deixou de conseguir trancar e se tornou um lugar de consumo de droga junto ao Casal Vistoso, diz. “Voltar para o Alentejo é que não.” A filha tinha-se mudado para lá, mas ela “não era bem-vinda”. “Juntas não podíamos viver”, conta.

Leia aqui a reportagem da Mensagem sobre as soluções encontradas pela cidade e por outros países para os sem-abrigo

Soube que Jorge estava no pavilhão do Areeiro e foi lá que pediu abrigo, ansiando também pelo reencontro. Com o anúncio do encerramento deste Centro de Emergência, foram encaminhados para a Unidade Integrativa, um local com 40 vagas, onde vivem “com mais tranquilidade”, longe da “confusão”. “Aqui, fala-se mais baixo.” E só eles sabem o que isso faz ao sono perdido.

Mas não sonham que o futuro passe por aqui. “Uma casa só nossa era bom. Talvez um dia nos consigam isso. Talvez.”

Quem são os sem-abrigo de Lisboa?

Os que habitam os Centros de Emergência e albergues sabem a data de cor. Até 2023, disse o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a situação de sem-abrigo é para extinguir. Mas a pandemia veio trocar as voltas ao plano, com as marcas deixadas na economia, atirando famílias para a rua.

A miséria no país, mais precisamente em Lisboa, é hoje maior do que há ano e meio. Especificamente, foram registados mais 600 sem-abrigo durante o decorrer de 2020 do que em 2019. Di-lo o mais recente relatório dos Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) de Lisboa, ao qual a Mensagem teve acesso. Há, atualmente, 3811 pessoas nesta situação.

A vasta maioria (3201) é considerada sem-casa e os restantes (447) sem-teto – há ainda outros 163 cuja situação é considerada desconhecida. As primeiras são consideradas “pessoas que vivem em centros de alojamento temporário, albergues ou outros, onde a pernoita é limitada, sem acesso a alojamento de longa duração (incluindo famílias, refugiados, requerentes de asilo)”. Assim como “pessoas a viver em alojamentos específicos para pessoas sem casa como apartamentos de transição ou ainda pessoas a viver em pensões ou quartos pagos pelos serviços sociais” – como é o caso de Rogério e ‘Maria’.

Lê-se também neste documento que, por outro lado, sem-teto são aqueles que vivem “em rua ou no espaço público; jardins, passeios; paragens de autocarro; estação de comboios, aeroportos; sob pontes ou viadutos; barracas; abrigo de emergência (qualquer equipamento que acolha, de imediato, gratuitamente e por períodos de curta duração, pessoas que não tenham acesso a outro local de pernoita) e ainda locais precários como carros abandonados; abrigos improvisados; edifícios ou fábricas devolutas; vãos de escada; entradas de prédios”. Como Rogério e ‘Maria’ já foram.

Em março do ano passado, os sem-abrigo de Lisboa estiveram dois dias em risco de fome. Foto: Orlando Almeida

Enquanto o número de pessoas sem-casa aumenta proporcionalmente ao longo dos anos, fez-se notar também um decréscimo das pessoas sem-teto em 2020. O que o relatório aponta como sendo uma consequência das respostas apresentadas pela autarquia para todos aqueles que viviam ao relento, como é o caso dos Centros de Emergência. Qualquer pessoa que tivesse ingressado num centro passaria de sem-teto a sem-casa. E, mesmo integrados em respostas como casas da Housing First, não deixariam de estar espelhados nas estatísticas.

Quer sem-casa quer sem-teto são na vasta maioria homens. Na idade, é a faixa entre os 30 e os 60 anos que mais compreende pessoas sem-abrigo, ainda que 6,5% dos sem-casa sejam jovens até aos 18 anos. A nacionalidade portuguesa vence as estatísticas, embora haja uma representação considerável de estrangeiros entre os sem-abrigo de uma cidade que se sabe ser tão multicultural como Lisboa.

Também uma grande fatia tinha chegado às ruas há menos de seis meses, o que comprova os efeitos que a pandemia veio provocar na massa socioeconómica da capital. Estes gráficos ajudam-nos a perceber quem são os sem-abrigo de Lisboa.

Distribuição geográfica

Agora, Lisboa prepara-se uma nova morada para os sem-abrigo: um edifício devoluto, em Arroios, no que dantes era um antigo quartel da GNR, de Santa Bárbara, prepara-se para abrigar cerca de 120 pessoas, no decorrer dos próximos meses. “Queremos que seja uma solução mais personalizada, integrada, transitória sim, mas menos temporária”, diz Dina Nunes, do gabinete do vereador dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa.

Prevê-se que, pelo menos numa fase inicial, seja o abrigo para os sem-abrigo que andem pela freguesia.

A novidade foi anunciada pelo vereador com o pelouro, Manuel Grilo, do Bloco de Esquerda, no final de março, mas não agradou nem a gregos nem a troianos. A discussão correu caixas de correio dos fregueses – as físicas e as virtuais – e abriu uma polémica sem precedentes sobre o tema.

Numa entrevista anterior a um dos especialistas internacionais que mais se tem debruçado sobre soluções para sem-abrigo, o finlandês Juha Kaakinen lembra que dar um teto próprio e investir em programas de habitação como o Housing First é urgente, mas não basta.

O trabalho, diz um dos fundadores da ideologia Housing First, deve começar bem antes disso. “Acho que há duas coisas importantes a ter em consideração. Em primeiro lugar, devemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar que as pessoas fiquem em situação de sem-abrigo. A habitação a preços acessíveis tem, nesta matéria, um papel extremamente importante, o que significa que é responsabilidade sobretudo do poder público garantir que em cada cidade existam casas a preços que as pessoas possam pagar. E tem que ver também com um bom sistema de Segurança Social, que providencie, caso não haja rendimento algum, forma de pagar a renda.”


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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3 Comentários

  1. Obrigada, a todos que abraçaram esta causa. Vivo nos anjos há 48 anos, e sempre vi “sem abrigo” a pernoitar nas arcadas dos prédios da almirante reis.
    A minha interrogação faz-se “há casas emparedadas” desde sempre. O que fazer???? O problema dos sem abrigo É SOCIAL”, há imensas questões que não passam somente por não terem tecto! Tenho denunciado alguns casos a quem de direito… Não consigo ser indiferente ao ver pessoas estendidas a dormir ao longo do passeio e eu venho incomodada para casa pensando a razão pela qual está situação… Denunciar, faço mas… não sei resultados….

  2. Catarina, sempre de parabéns, não consigo abrir a ‘cacha’ com as soluções encontradas! Sou só eu?
    D.

  3. “A miséria nunca sai de nós”, disse o Rogério. É verdade. Nunca mais sai de nós.

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