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Os meus irmãos são ambos doidos por automóveis e, embora muito diferentes (um do Sporting, o outro do Benfica), essa é uma paixão que os liga desde sempre.

Conta-se que o mais velho – muito pequeno ainda, mas já tremendo – atirava os Dinky Toys pelo corredor em direcção aos pés da bisavó para a ver tropeçar, fazendo-a gritar por socorro (e chamar «estupor» entredentes à minha mãe se esta castigava o seu menino com um açoite).

Aos quinze anos, saiu no carro do meu pai às escondidas para impressionar uma namorada e, apesar de não ter carta, deixou a miúda em casa à hora combinada e trouxe o bólide de volta sem um risco. (Levou, creio, mais de um açoite.)

Por sua vez, o meu irmão mais novo – graças a Deus, calmo, atinado e respeitador – passava tardes inteiras no quarto onde, com a ajuda de feijões, desenhava no chão longas pistas com curvas e contracurvas, ao longo das quais empurrava carros vermelhos com autocolantes fluorescentes numas corridas que eram quase sempre ganhas por Mario Andretti, o seu piloto favorito.

Ainda hoje, nenhum dos dois perde uma prova de automobilismo na televisão e, antes de se poder recuar na programação ou agendar gravações, qualquer deles era capaz de acordar de madrugada só para assistir ao Grande Prémio da Austrália… Uma doença.

Porém, se o meu irmão mais novo teve sempre carros funcionais e discretos na vida adulta, o mais velho passou anos a artilhar os seus automóveis com jantes especiais, faróis estilosos, largas riscas pretas atravessando o capot e até um ou outro aileron; e participava em rallies como piloto e co-piloto, segurando mapas onde estavam anotadas todas as armadilhas do trajecto, completamente indecifráveis para um leigo.

Só que esses automóveis malucos e vistosos, em plenos anos setenta, chamavam bastante a atenção do amigo do alheio…

Quando me contaram que S. Pedro era quem guardava as chaves do Céu, a imagem que se me formou na cabeça foi muito semelhante àquela que hoje me traz a esta crónica, pois tem que ver com mais uma das figuras simpáticas que Lisboa perdeu: o guarda-nocturno.

O nosso era gordo e baixote, tinha bigode farto e andava com uma grande corrente à cintura, por onde deslizavam chaves-mestras, junto das de muitos prédios das redondezas. Fazia a ronda da noite, certificando-se de que tudo se encontrava bem fechado; e, uma vez por outra, salvava de dormir ao relento um adolescente que chegava tarde a casa e se esquecera da chave.

Sorria muito, era conversador, mas como guarda é que deixava bastante a desejar, porque congelava de medo quando ficava sozinho.

Ora, uma noite, eram para aí umas cinco da manhã, soou insistente a campainha lá de casa, acordando metade da família. Quando a minha mãe conseguiu chegar ao intercomunicador e perguntou quem era e o que se passava, reconheceu logo a voz do guarda-nocturno:

– Ó da guarda, senhora! Diga ao seu filho que tem o NSU cor de laranja que venha cá abaixo acudir, porque estão uns gatunos a roubar-lhe os faróis!

Não admira que a profissão se extinguisse pouco depois…

Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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4 Comentários

  1. Pela beleza do texto, são de certeza belas recordações. Pf deixe-me acrescentar que, no meu tempo,(idos de 60) a forma de chamar o Sr. guarda-nocturno era batendo as palmas e que o intercomunicador era de sopro e individual com apito incrustado em cada casa. Portanto no hall do prédio existiam tantos intercomunicadores, Esqdºs e Drtºs, quantas as casas do prédio. Obrigado

  2. Obrigada Rosarinho, dá prazer pensar em ti criança na companhia dos teus irmãos, lembra-me tanto a minha infância feliz com os meus três irmãos rapazes!

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