Nos tempos que correm, em que os automóveis se cruzam a toda a hora com autocarros, motos e até bicicletas nas principais artérias da capital, é difícil pensar que há cinquenta anos se circulava em Lisboa sem semáforos; mas a verdade é que, na minha infância, era mesmo assim – e lembro-me de assistir à instalação dos sinais de luzes nas Avenidas Novas, numa operação a que então chamaram pomposamente «onda verde».

Veio, como é óbvio, facilitar a vida a peões e automobilistas e permitir que o trânsito se fizesse de forma mais fluida e despachada, pelo que foi uma questão de tempo até a dita onda banhar também as ruas transversais e outras mais escondidas e sossegadas; mas, simultaneamente, privou-nos dos gestos benignos dos polícias sinaleiros que, na sua farda cinzenta com faixa branca diagonal e capacete alto à inglesa, equilibrados sobre uma espécie de peanha, gesticulavam de forma elegante nos cruzamentos movimentados.

O sinaleiro que víamos da varanda de casa não era o que tinha fama de ser um autêntico bailarino e que é frequentemente referido nas memórias de Lisboa; ainda assim, os seus gestos eram belos e certeiros, embora – é preciso dizê-lo – nem sempre imparciais… Digo isto porque era óbvio que tinha um fraquinho pela minha mãe: sempre que a avistava dentro do Cortina azul-escuro à espera de atravessar a Avenida da República, mandava parar o trânsito na via principal para que ela avançasse; e, se por acaso a minha mãe lhe fazia um sinal pedincha mostrando que apenas queria virar à direita, ele via se era preciso mandar alguém abrandar e, com um grande sorriso, lá lhe dava permissão para seguir.

Era assim uma espécie de namoro consentido, e a minha mãe, que andava sempre a correr de um lado para o outro, aproveitava as vantagens daquela relação platónica com a autoridade. Depois, como era prática nesse tempo, em chegando o Natal retribuía os mimos com um bolo-rei… ou umas broas.

Quando a minha avó materna morreu, tinha eu oito anos, a minha mãe ficou bastante abalada e esteve sem ir à rua durante vários dias – e o sinaleiro, claro, estranhou a sua ausência. Da primeira vez que ela saiu, fê-lo, porém, a pé – e ia ainda tão desaustinada que, ao chegar à esquina, fez sinal de que queria virar à direita, e ele, evidentemente, deu licença, mas ficou um bocado intrigado; só então reparou que ela ia de preto da cabeça aos pés…

Então, no dia em que voltou a vê-la a guiar o Cortina, mandou-a avançar e encostar rente à sua peanha; com a mão ao alto, parou o trânsito em todos os sentidos e depois desceu, tirou o capacete e, com ele encostado ao peito, baixou-se à altura da janela do carro da minha mãe e, amorosamente, deu-lhe os sentimentos.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

Entre na conversa

4 Comentários

  1. Adorei e fez-me lembrar um “amor platónico” de um polícia aqui onde moro que “fechava sempre os olhos” às minhas infrações de estacionamento…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *