Cineteatro Monumental Fotografia: DR

Um dos maiores atentados ao património e à cultura dos espetáculos em Lisboa, e por extensão em Portugal, terá sido a destruição do Cine-Teatro Monumental, situado na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa, e que ali “viveu” entre 1951 e 1984. Obviamente que era uma obra com características de “Estado Novo”. Como tantas outras que ainda sobrevivem, do Estádio Nacional ao Instituto Superior Técnico. Era uma construção representativa de uma época, histórica e arquitectónica, e tinha uma funcionalidade incomparável. Portugal nunca mais passou a possuir uma sala com aquelas características e aquele historial. Que teve muitas réplicas por esse país fora.

Não tenho nada contra o actual edifício que ali se encontra, mas não era necessário destruir o outro, para o substituir por este. Um dos motivos curiosos e fascinantes das cidades, é poderem albergar aspectos arquitectónicos diversificados, de variados estilos e épocas históricas. Torna a cidade uma lição de história e de arte. Impede a uniformização das formas e torna o olhar mais agradável.  

Num despacho de 24 de Março de 1943, o então Ministro da Educação Nacional, Mário de Figueiredo, propunha a criação “de uma casa de espectáculos como ainda não há em Lisboa […] com salas independentes para teatro de declamação ou música ligeira, concertos e cinema”.

Aprovada a construção em 1946, com idealização do arquitecto Raúl Rodrigues Lima, um dos nomes da Exposição do Mundo Português de 1940, herdava algumas das ideias do modernismo português dessa altura. Correspondendo às diretrizes do ministro, o Cine-Teatro Monumental englobava uma sala de cinema, com lotação de 1967 lugares, e uma de teatro, com 1086 lugares.

O Teatro Monumental foi arrendado pelo empresário Vasco Morgado, marido de Laura Alves, com o intuito de ali apresentar espetáculos de teatro declamado, operetas, revistas e atrações musicais, incluindo mesmo artistas estrangeiros. Foi aqui que Laura Alves protagonizou os maiores êxitos da sua carreira teatral. Quanto à sala de cinema ficou ligada ao proprietário de todo o edifício, o Major Horácio Pimentel, um dos donos da distribuidora cinematográfica Espetáculos Rivus.

A sala de teatro do Monumental era gerida pelo empresário Vasco Morgado, marido de da mítica atriz Laura Alves, cabeça de cartaz da peça inaugural. Foto: DR

Segundo o site “Teatros em Portugal – Espaços”, “este edifício “monumental” foi revestido de pedra e ornamentado numa das suas esquinas com uma grande coluna encimada por uma esfera armilar (um símbolo caro ao Estado Novo) e estátuas em cada um dos lados da frontaria. A entrada principal do público, orientada para a Praça Duque de Saldanha, tinha sete portas em forma de arco com acesso direto ao átrio principal (onde se situavam as bilheteiras) e aos vestíbulos que antecediam as salas. Os artistas e trabalhadores do cine-teatro tinham uma entrada distinta que se fazia pela Avenida Praia da Vitória”.

E continuava: “No interior, a decoração requintada, quase “versailliana”, esteve a cargo de José Espinho, e apresentava lustres imponentes, maples requintados, grandes escadarias, mármores e apontamentos dourados. Os foyers e os salões tornaram-se ‘um sítio de encontro, quase de estar’ para uma burguesia lisboeta que apreciava o ambiente, bem como a sua atrativa localização nas avenidas novas. Cada piso tinha um salão de acesso exclusivo aos portadores de bilhete para os lugares do cinema e do teatro. No último andar estava situada a administração e a gerência a quem estava reservada uma sala de projeção privada. A sala de cinema abrigou dois grandes painéis – que ladeavam o gigantesco ecrã – da autoria da pintora Maria Keil e as estátuas exteriores, bem como as figuras que decoravam alguns pisos no interior, ficaram a cargo do escultor Euclides Vaz. Para garantir uma boa insonorização, Manuel Bívar ocupou-se dos isolamentos fónicos e acústicos das duas grandes salas”.

O filme “O Facho e a Flecha” inaugurou a sala de cinema do Monumental, que tinha capacidade para 1967 espectadores. Foto: DR.

O Monumental abriu as suas portas a 8 de Novembro de 1951, no teatro, com a opereta “As Três Valsas” (1951), com Laura Alves e João Villaret, e o filme “O Facho e a Flecha”, de Jacques Tourneur, com Burt Lancaster e Virginia Mayo nos papéis principais, inaugurava a sala de cinema. O Monumental esteve sempre apetrechado com o material de projeção mais moderno, incluindo Cinemascope, 3D, Todd Ao ou Cinerama, o que lhe permitiu exibir nas melhores condições os filmes de grande espectáculo, de “Os Dez Mandamentos”, “Doutor Jivago”, “Hondo”, “Lawrence da Arábia”, “My Fair Lady” a “Guerra das Estrelas” ou “2001: Odisseia no Espaço”.

Tudo isso vi, umas vezes ainda no segundo balcão, outras na plateia na minha condição de crítico. Mas tive o privilégio de colaborar com o cinema Monumental, ainda nos anos 1960, quando trabalhei com o Artur Ramos, quando este ali organizava umas muito populares “Quinzenas do Bom Cinema”. Ele dava o nome ao projecto, que tinha sessões clássicas ao fim da tarde, às segundas, quartas e sextas-feiras, com obras que eu organizava por ciclos quinzenais e marcava os filmes nas distribuidoras e escrevia os programas. Tudo sob a orientação de Artur Ramos, que, no entanto, me dava grande liberdade de acção, confiando quase sempre nas minhas sugestões. Foi um belo tempo, com muito público e muito interessado. Belas recordações.

O Major Horácio Pimentel era um homem afável que um dia me encontrou numa das sessões de cinema e me confidenciou uma história curiosa. Era já eu na altura crítico no “Diário de Lisboa”. Tempos antes, tinha escrito sobre um filme estreado no Berna, “Soldado Azul”, realizado por Ralph Nelson, um western com índios que se assumia como uma metáfora do que se passava então no Vietname (estávamos em 1970).

Pois o Major Pimentel contou-me que nesse mesmo ano, pouco depois, se preparava para estrear “O Pequeno Grande Homem”, de Arthur Penn, quando a censura lhe proibiu por completo o filme. Ficou aflito, perplexo, “afinal era um western”, e foi falar com os censores. Estes explicaram: “Pois é um western, mas depois vem o Lauro António, no “Diário de Lisboa”, dizer que tem a ver com o Vietname e é uma chatice”. Bem conversada a coisa e com alguns cortes cirúrgicos, o filme lá acabaria por estrear e eu sempre escreveria sobre ele.

Em 25 de Fevereiro de 1971, abriu uma nova sala no último piso do edifício. Era o Satélite, uma sala mais pequena, com 208 lugares, que oferecia ao público mais exigente da capital um tipo de filme de autor, um pouco na linha do Estúdio do Império. Um projeto do arquiteto Rodrigues Lima, em parceria com os engenheiros Ângelo Ramalheira, Barroso Ramos e Bustorff Silva, que foi inaugurado com “Les choses de la vie”, de Claude Sautet, com Romy Schneider na protagonista.

Muito cinema e teatro vi nessas salas, e muito café bebi, depois das sessões, no Café-Restaurante Monumental, mesmo ali ao lado, integrado igualmente no mesmo edifício. Os actores do teatro iam cear ali e muitas vezes os jovens (e os não tão jovens) iam “espreitar os actores” depois da última sessão. Quantas vezes lá fui espreitar a Laura Alves e o Paulo Renato e tantos outros. Depois, já profissionalmente, muitas vezes ali marquei entrevistas e encontros. Boas recordações de outros tempos e de outros usos e costumes.


*Lauro António é realizador e crítico de cinema – lendário em Portugal. Lisboeta de gema, foi a cidade que também cunhou o seu gosto pelo cinema, e ele próprio mudou a história do seu cinema.

Entre na conversa

2 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *