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Vivi num prédio de azulejos da Avenida da República até fazer seis anos, altura em que a minha família foi obrigada a abandoná-lo por causa da demolição iminente (não calculam o mamarracho que o substituiu…).

Era um andar que ainda fora alugado pelo meu avô paterno e tinha um longo corredor encerado e mais de uma dezena de assoalhadas, entre as quais recordo especialmente uma sala com uma máquina de costura Singer que também servia de quarto dos brinquedos.

Mas, além da delícia de ter tanto espaço à disposição e uma sala de estar cheia de janelas que acompanhava a esquina do prédio, desfrutávamos, ao nível da rua, de uma papelaria (onde o meu irmão mais velho tinha sempre uma conta calada de livros de cowboys), um café chamado Bocage, que servia groselha e capilé e em cuja esplanada as senhoras se juntavam para o chá, e uma barbearia, à porta da qual pontuava o senhor Luís que, alimentando um privilégio típico dessa Lisboa antiga, subia ao terceiro andar sempre que o meu pai precisava de cortar o cabelo.

A função tinha lugar na nossa casa de banho, diante do espelho do lavatório, e regra geral acontecia ao final da tarde, que era quando a minha mãe nos puxava o lustro dentro de uma grande banheira onde me recordo de ter encontrado uma vez a beber água o siamês da vizinha, que se metia lá em casa sempre que apanhava a porta das traseiras aberta.

Ora, num desses dias em que o Luís Barbeiro (como acabaria por ficar conhecido) entrou na casa de banho atrás do meu pai para lhe cortar o cabelo – munido de tesoura, pente e uma espécie de guardanapo gigante que lhe pôs à frente –, um dos meus irmãos, que acabara de ser lavadinho dos pés à cabeça e já cheirava a sabonete Lux, começou a arranjar mil desculpas para não sair do banho.

Em época de tabus, a minha mãe pensou que estivesse com vergonha de se pôr em pelota diante de um estranho. E, para evitar mais teimosias – até porque havia outros filhos para desencardir –, foi direita ao assunto e explicou ao pimpolho, em tom de voz que abarcasse também o pai e o barbeiro (dos quais esperava aprovação), que o acanhamento não tinha qualquer sentido.

– Porque a verdade é que toda a gente tem pilinha, filho – concluiu – e, portanto, não precisas de ficar com vergonha do senhor Luís.

Não contava, porém, com o vexame produzido pela resposta que se seguiu:

– Não, mãe, estás enganada – declarou o meu irmão. – Tu, por exemplo, não tens pilinha, que eu um dia destes espreitei pela fechadura e vi: tu só tens rabinho.

Nem foi preciso esperar pela modernidade para se acabarem os cortes de cabelo ao domicílio…


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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