Um lugar onde se pode descobrir a música livremente e no qual a única regra é o compromisso? Bem-vindos à Skoola, uma academia de música urbana à beira Tejo onde se privilegia o ensino num ambiente divertido: ao ritmo de batidas, da tecla grave de um piano, do agudo do ferrinho ou de uma expressão corporal a que eventualmente se pode considerar “dançar”.

Os miúdos vêm de vários pontos da cidade – não interessa de onde -, não se conhecem e encontram aqui um lugar de experimentação. De descoberta. Individual e em grupo. 

O espaço onde aprendem nasceu também dessa paixão pela música, desde que abriu, há 7 anos, criado por Mariana Duarte Silva e o marido, Gustavo Rodrigues – que era DJ. A vontade deles, de explorar as potencialidades não só do Village Underground, mas também das várias artes, resultou na concretização desta academia.

À volta há escritórios – todo informais – e um restaurante num autocarro de dois andares, que também está no topo de um contentor. Um dos muitos que lado a lado, ou por cima, dão estrutura a esta vila alternativa – de frente para a ponte 25 de Abril e ao lado do LxFactory. 

Mariana é quem dá arranque à sessão de abertura da academia, que vai durar dez semanas. E também quem garante que o portão grande do Village, a dar para a Avenida 24 de Julho, “é uma entrada aberta a todos os que queiram vir, mas é um local onde quero muito que se sintam em casa – à vontade”. Dá o exemplo de Gustavo, o marido, que praticamente vive nos contentores. Independentemente das competências que cada um queira explorar num desses contentores, não há quem fique à deriva. E a viagem faz-se a várias velocidades. 

“Qual é o objetivo deste grupo? É fado, rap, hip hop… mas eu toco piano. Vamos encontrar uma coisa comum. Isso é música na comunidade”

Foto: DR

Uma escola para todos

De há três anos para cá, Mariana e a equipa organizaram algumas edições curtas desta academia como projeto piloto do que agora se tornou em algo mais robusto. Para estar de pé, têm o apoio do Portugal Inovação Social, Banco Montepio, Santa Casa da Misericórdia e da startup Innuos. Entre todas as identidades, foram identificados jovens com quem a Santa Casa trabalha para participarem no projeto. Mariana agradece também o “trabalho incrível do António Brito Guterres, muito ligado à música, e parceiro na identificação de mais jovens”. 

António Brito Guterres

António, figura incontornável no trabalho comunitário em Lisboa e arredores (e membro do Conselho Editorial da Mensagem), está também cá, na abertura. Diz aos alunos que é preciso coragem para estarem ali, sem se conhecerem – e reforça como isso é importante. “Muitas vezes onde moramos não há espaço para expressar a nossa cultura. E depois também não temos espaço para ir conhecer outras. Então aqui têm um encontro disso mesmo. Deem a vossa linguagem a este grupo”. São as palavras encorajadoras que deixa. 

A magia da escola acontece porque há a inclusão total dos dois mundos, diz Mariana. “Há os pais que reconhecem o trabalho da academia e que os filhos querem aprender música de forma diferente, então inscrevem-nos cá, a pagar sim, e a magia nasce aí”. É para todos.

Há também uma parceria com o Instituto Politécnico de Lisboa, na qual dois professores definiram a metodologia a aplicar aqui: “música na comunidade”. Pega-se num grupo de jovens que não se conhecem de lado nenhum e podem até não ter nenhuma base musical, explica Mariana. “Qual é o objetivo deste grupo? É fado, rap, hip hop… mas eu toco piano. Vamos encontrar uma coisa comum. Isso é música na comunidade”. A partir disto, o Politécnico está a investigar quais serão os resultados. 

Mas nada disto se faz com poucas mãos. E é aqui que aparecem os quatro pilares, os facilitadores. André Ferreira, estudante universitário de música, vem de um mundo mais clássico, mas não estando satisfeito quis desbravar o seu percurso noutras aventuras. E encontra aqui essa liberdade – de ensinar e aprender.

Tânia Lopes é percussionista, baterista e também está muito ligada ao ensino de jovens. Karlon Krioulo, com mais de vinte anos de experiência do rap ao reggae, passando pelo drum and bass ou música clássica. É produtor, escreve letras e faz composição. E aqui, diz que quer passar todo o seu conhecimento, mas também aprender com quem ali está. Os jovens mostram-se desconfiados… será que têm realmente algo para ensinar? – devem perguntar-se. A resposta é “sim”, só ainda não o sabem.

Filipe Sousa é o diretor artístico. Pianista, compositor, improvisador e educador, também especializado em trabalho participativo com artistas e comunidades. Divide-se entre Lisboa e Londres. Não foi desta que o apanhámos por cá.

Pedro Coquenão diz que não gosta de usar máscara. Mas não é por isso que aqui está. Assume que demorou 30 anos a agarrar na música, porque a levava tão a sério e não queria falhar. O seu ensinamento principal vem dessa experiência: que ninguém tenha medo de falhar, porque não há falhas na música – há tentativas. É também conhecido pelo nome artístico de Batida, na sua apresentação como DJ. Mas a sua vida passa muito pela produção musical, rádio, vídeo, artes visuais e dança. Costumava dançar sozinho no quarto e não gostava que o vissem. “Aliás, ainda faço o mesmo. Mas no Village está no contrato que tenho de me mexer à vossa frente”. Solta alguns risos na sala. Espera que também eles se divirtam assim, focando-se no desbloqueio corporal. Seja lá como for. 

Pedro Coquenão numa sessão de música, antes de se usar máscara. Foto: DR

A única separação que é feita na Skoola é pela idades dos grupos, dos 10 aos 13 e dos 14 aos 18 anos. Ainda assim, há diferenças, mas saudáveis… Tal como Mariana demonstra: “Ao longo da sessão, os jovens tanto podem ir ao contentor onde estão os instrumentos, como ao outro onde através de computadores e equipamento aprendem a produzir música digital”. Por fim, há a componente de grupo, que, “estando onde estiverem, vão construindo uma performance para apresentar no final do projeto”. 

É esse o objetivo: criar algo em conjunto, com divertimento, mas ligado à música que os miúdos ouvem hoje. A academia vem assim reforçar esta necessidade de dar mais continuidade às edições curtas de verão, mas também “quebrar as regras de que os miúdos se queixam no conservatório”. 

Mariana leva-nos finalmente ao contentor dos computadores e mesas de produção: “Acabámos de montar o material, está tudo novo. É o essencial para eles começarem a perceber como se faz música digital e todo o potencial que há”. Qualquer um fica com vontade de misturar sonoridades. Saímos de um para entrar noutro. “Aqui é onde estão os instrumentos; estão poucos agora porque eles já vieram cá buscar alguns”. 

Quando acabar este ciclo de dez semanas, vêm as férias e uma pausa. Ainda assim, arranca em julho um bootcamp, de curta duração, no tal “formato antigo”. Porque, defende Mariana, “há miúdos que não se podem comprometer por mais tempo e para eles uma semana já é fixe”. E em setembro, promete, arranca outra vez um novo ciclo grande.

É dentro deste edifício que tudo se passa. Os adultos ficam cá fora. Foto: Nuno Mota Gomes

Enquanto conversamos, do lado de fora da sala onde tudo se passa, lá dentro o grupo segue as indicações do facilitador. Tentamos espreitar, mas as janelas escuras pouco revelam. É de propósito. Ninguém assiste, não há espaço para adultos curiosos intimidarem o desbloqueio corporal dos mais novos. São só eles e a música. Seja lá o que isso for. É o que eles quiserem. 

Skoola – Academia de Música Urbana
Village Underground Lisboa (Alcântara)
skoola.pt


Nuno Mota Gomes

É jornalista. Adora escrever, fotografar e perder-se em pensamentos. Anda de mota, faz surf, viaja sempre que pode – e nem sempre para o estrangeiro. Agora fá-lo mais aqui, em Lisboa, onde nasceu. Um Interrail abriu-lhe horizontes, publicou um livro e muitas reportagens de viagens na Volta ao Mundo – onde se estreou na TV. Passou ainda por outras publicações e durante dois anos integrou o Diário de Notícias. Há quem diga que percebe de redes sociais. Tem 27 anos. 

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