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Vou-vos contar tudo sobre o dia em que descobri que Lisboa era uma terra.

Começo assim, para parecer letrado: o Arno é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Arno não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Arno não é o rio que corre pela minha aldeia.

Não foi assim que escreveu Caeiro-Pessoa, mas podia ter sido, apesar de ele nunca ter visto o Arno. Imaginação não lhe faltava. Viu o rio Tejo, provavelmente viu o rio Mngeni, que desaguava em Durban, onde viveu, e pouco mais. E que interessa? “Para viajar basta existir”, bocejou Bernando Soares. E ele existiu, em mais que um.

Estou a viver em Florença há um mês e do terraço do apartamento que arranjei vejo o Arno, o maior rio da Toscana, que nasce nos Apeninos e desliza até ao mar Tirreno. Florença é a cidade mais bonita do mundo, quando vista por mim a partir deste terraço, como Lisboa é a cidade mais bonita do mundo, assim que ponho os olhos e os braços na família e nos amigos que aí deixo sempre que parto.

Na última Reunião de Vizinhos d’A Mensagem, descobri que sou um lisboeta de primeira geração. Não foi nenhum parente que mo disse, porque Lisboa pode ser pequena, mas ainda não dou assim de caras com quem me saiba desenhar a genealogia. E “descobri” também não é a palavra certa, melhor seria usar um “achei”.

Achei na última Reunião de Vizinhos d’A Mensagem que sou um lisboeta de primeira geração. Foi culpa de um vizinho, que se gabava de ser lisboeta de sétima geração. E foi aí que me achei lisboeta original, pioneiro. Pais, avós, bisavós e por aí até onde sei contar – que não é muito mais que isso -, ninguém mais nasceu em Lisboa.

Deixem-me dizer isto com pompa: sou (*endireito a gravata*) o primeiro membro da minha família que nasceu em Lisboa – acho eu. Isto é um momento irrepetível, porque agora que o deixei por escrito, nenhum descendente meu se poderá um dia orgulhar do mesmo: descenderão sempre de um Lisboeta, nunca serão os primeiros, e está aqui feita essa prova.

Achei isto bonito, mas achei mais bonito ainda ter demorado quase trinta anos a achar isto. Não era nenhum segredo: era daquelas coisas que estavam à espera de ser achadas, faltava o empurrão.

A bem da verdade, já nem vou a tempo de fazer muito de novo com esta informação, porque já fiz quase tudo o que podia fazer sobre isso: ajudei a fundar o jornal da terra, e quase que chega, tal o orgulho no trabalho que aqui se faz.

E aí bateu-me: ajudei a fundar o jornal da terra. Apercebi-me que nunca uso “terra” para me referir a Lisboa – e se encontrarem texto meu que me desminta, eu não quero saber. Sempre me disseram que quem é de Lisboa não tem terra, e eu acreditei. Lembro-me de repetir isso em voz alta: quem é de Lisboa não tem terra. Quem é que inventou este disparate?

Este despeito, que agora estou convencido ser apenas inveja, já não o tolero mais: só é capaz de dizer uma barbaridade dessas quem não nasceu em Lisboa.

Agora que me sei Lisboeta de primeira geração, sinto-me pessoalmente responsável por defender a sua condição de terra, legítima e de bem: afinal, até fui eu que a trouxe para a família.

Por isso, Lisboa é terra, sim. A minha terra, a última que o Tejo atravessa e a primeira que me sai da boca. Que se lixe o Almeida Garrett, mais as suas críticas e o seu café no Cartaxo, terra contra a qual não tenho nada, antes pelo contrário.

Esse mesmo dia da reunião, passei-o com uns amigos lisboetas, um de Campo de Ourique, outra de Benfica. No intervalo de um jogo de basquetebol no Parco delle Cascine (chamar-lhe jogo é exagero: eram duas pessoas a encestar bolas e outras duas a tentar) lá descubro em conversa que vai nascer um supermercado nos campos do Fofó, o grande Clube Futebol Benfica, referência desportiva da freguesia depois da debandada do irmão famoso, que está em São Domingos.

Logo lembrei orgulhoso um golo que lá marquei, de cabeça, num amigável que perdemos por sete. Então vão encaixar lá um supermercado, pensei eu, como pensaria o meu avô se lhe tivessem dito que ia abrir uma mercearia no campo do Moçarriense. Então Lisboa não é terra? Poupem-me. Claro que é terra.

Nessa mesma Reunião de Vizinhos d’A Mensagem encontrei, veja-se a coincidência, o pai da minha amiga de Florença, aquela que tinha acabado de me dar a notícia do Fofó. Nem ele me conhecia, nem eu o conhecia a ele, mas lá estava, a dar ideias sobre o que podemos fazer com o jornal de Lisboa. Querem terra mais pequena que esta, onde toda a gente se encontra?

Nessa noite, ao jantar, fiz risotto de cogumelos – e que eu saiba não matei ninguém, ao contrário da Ana Bárbara Pedrosa, que matou umas quantas amigas, tal a qualidade do refogado. Olhei para o risotto e pensei que bem melhor seria ter feito um arroz malandrinho, daqueles que se comem na minha terra. Lembrei-me de um muito bom, na Uma Marisqueira, na Baixa. Bem antes da pandemia, estive na fila com turistas, exclusivamente asiáticos – coisas da internet, suponho – para comer o único prato que me serviam: arroz de marisco. Era quase tudo simples. O nome: Uma Marisqueira. O menu: arroz de marisco. O local: a Baixa. Às vezes a simplicidade é metade do sabor.

A única coisa complexa nesta história dos arrozes – e já me queixei disto a muita gente, o que revelo apenas para que saibam que estes temas também me são próximos do coração – é mesmo perceber como é que o risotto se tornou um prato mundialmente conhecido e chique e o arroz malandrinho ninguém conhece, mesmo com um nome que parece inventado para vender no estrangeiro progressivo e liberal: naughty rice.

Enfim: não sei se se percebe, mas a beleza do Arno não me tem esgotado as saudades da terra, e só os abraços e risos dos meus amigos lisboeto-florentinos conseguiram moderar este ímpeto de saltar confinamentos e fronteiras e voltar a casa a correr.

O que não falta pelo mundo são lisboetas a olhar para cursos de água, ou para panelas de arroz amanteigado, cheios de vontade de voltar para casa. É a melhor coisa de viver no estrangeiro: podemos dar-nos ao luxo de romantizar a nossa terra por breves momentos e fingir que ela é só feita das coisas boas da memória e do palato. Não é, claro, mas isso fica para outra crónica.


João Marecos

Chegou a Lisboa no preciso segundo em que chegou ao mundo. Aqui cresceu, fez amigos, estudou Direito, tornou-se advogado, antes de a curiosidade o levar para Nova Iorque, onde repetiu tudo isso. Escreveu um livro, que apresentou no Chiado. Fundou o 100 Oportunidades à beira do Tejo. É o amor que o mantém fora de Lisboa, será o amor a fazê-lo voltar.

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5 Comentários

  1. Com um pouco de sorte ainda é capaz de encontrar lisboetas em Lisboa. Mas tem que regressar rápido para viver essa experiência.
    Isto de ser lisboeta e viver em Lisboa… é um pouco assim… tá a ver o Lince da Malcata? Pronto! É isso!

  2. Errado vizinho Pereira. Quem vive e ama Lisboa, é tão lisboeta como eu, que nasci na maternidade Alfredo da Costa.

  3. puta que pariu que texto bem escrito.
    assim que desimigrei quis fazer tudo ao mesmo tempo mal cheguei a lisboa. fui ver amigos, comi, bebi, vi o rio, vi o mar, subi ruas, desci ruas, fui ver a bola (vá, fui a setúbal ver a bola, mas também apoio o clube de azul) e quase fui atropelado. até do transito já tinha saudades. porque o trânsito não é igual em todo o lado!
    quando me deitei na cama jurei para mim mesmo que não sairia mais daqui.
    e cá estou

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